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SUPLEMENTAÇÃO COM BETA-ALANINA

Por Isabella Brescia

A Nutrição exerce um papel importante no desempenho esportivo e o interesse por recursos  nutricionais  que  possam  melhorar  a performance   de   atletas   e   praticantes   de atividade física cresce a cada dia. Os suplementos são usados para auxiliar  ganhos  de  massa muscular, redução  de  gordura  corporal,  aumento da força, redução da fadiga, redução da dor pós treino ou ainda melhoria na qualidade de vida ou na performance dos indivíduos. Dentre os suplementos, os aminoácidos são bastante consumidos, dentre os  quais  a  beta-alanina  se  destaca.

A beta-alanina é um aminoácido não essencial produzido no fígado. Identificada pela primeira vez pelo bioquímico russo Vladimir Gulevich, em 1900, é precursor indispensável na produção de carnosina, um dipeptídeo formado pela junção da beta-alanina com L-histidina por meio da enzima carnosina sintase na musculatura esquelética. No entanto, a produção endógena de beta-alanina é extremamente baixa e, como consequência, as concentrações plasmáticas encontram-se muitas vezes próximas de zero. Desse modo, a ingestão desse aminoácido é fundamental para aumentar a sua disponibilidade no organismo.

Com a suplementação da beta-alanina pode-se observar que ocorre um aumento dos estoques  musculares  do  dipeptídeo  carnosina (beta-alanil-histidina), que tem a  função bastante eficaz em tamponar o pH intramuscular  na  prática  de  atividade  física, especialmente em exercícios de alta intensidade e curta duração. A beta-alanina tem maior efetividade na via anaeróbica  lática, onde há maior  liberação de ácido lático. A   sua   suplementação   promove um efeito  tamponante  no  sistema  da  carnosina, prolongando o exercício, pois atua contra íons de  hidrogênio  (H+)  da  dissociação  do  ácido lático. O acúmulo desses íons H+ pode causar uma acidose muscular, causando fadiga e dor. Além da sua principal função tamponante, o aumento de carnosina melhora a sensibilidade de Ca+2, o que melhora o desempenho nas fibras musculares tanto de rápida  e  lenta  ação,  retardando  sua  fadiga.

Com contribuição o importante no tamponamento    físico-químico    do    músculo esquelético, a carnosina faz a manutenção do equilíbrio   ácido-base,   quando   ocorre uma elevação de produção de H+ junto a uma maior produção de ácido lático pela glicose anaeróbica, na prática de exercícios intensos. Aproximadamente 10% da capacidade de tamponamento das células musculares é realizada pela carnosina. Se   um   nível   de   limiar   de   acidose muscular   compromete   o   desempenho   do exercício  de resistência  subsequente,  então  o aumento  da  capacidade  tamponante  com  a suplementação de beta-alanina pode prevenir a queda  da  força  muscular  e,  assim,  atenuar  o efeito de interferência aguda.

A  maior  parte  dos  estudos  utilizam doses  diárias  em  torno  de  65  mg/kg  de  peso corporal, divididas em 3 a 4 vezes por dia, por um período médio de 10 a 12 semanas. É um suplemento relativamente seguro nessas dosagens, e o único efeito colateral relatado, como uso é uma parestesia transitória, que é minimizada com a divisão da dose diária em 3  a  4  tomadas. 

A  parestesia  é  um sintoma    caracterizado    pela    sensação    de dormência  ou  formigamento  de  alguma  parte do corpo. Pode acometer membros como braços, pernas  e mãos,  assim  como  também  pode  se fazer presente em áreas menos comuns, como na  boca, nariz e orelha.  Este  efeito  é  tipicamente  observado quando   suplementação   é   feita   com   doses únicas superiores a 800-1600 mg.  Os  sintomas  da  parestesia  ocorrem normalmente  10  a  20  minutos  após  a  sua ingestão e desaparecem geralmente nos 60-90 minutos seguintes. Para  atenuar  os  sintomas,  é  proposto a divisão da dose diária total (3,2 a  6,4  g/dia)  em  doses  menores  (0,8  a  1,6 g/dose), a cada 3-4 horas. Apesar da  informação  atual  ser  ainda limitada  e  de  não  haver,  até  à  data,  estudos com  protocolos  de  suplementação  com  beta-alanina a longo prazo (superiores a 1 ano), os posicionamentos  dizem  que  a  suplementação de   beta-alanina   é   segura   em   indivíduos saudáveis nas doses recomendadas.

Referência Bibliográfica

CARDOSO, Henrique Costa; CONDESSA, João Pedro Mendes; DE SOUZA, Marcio Leandro Ribeiro. A suplementação de beta-alanina na performance esportiva: uma revisão sistemática. RBNE-Revista Brasileira de Nutrição Esportiva, v. 16, n. 98, p. 169-179, 2022.

FERREIRA, Carolina Caberlim et al. Atualidades sobre a suplementação nutricional com beta-alanina no esporte. Revista Brasileira de Nutrição Esportiva, v. 9, n. 51, p. 271-278, 2015.

LAGE, Marcelo Henrique et al. Efeitos ergogênicos da beta-alanina para a performance. Cadernos UniFOA, v. 16, n. 46, 2021.

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Conhecendo a Spirulina

Por Isabella Brescia

O termo  Spirulina  (sinônimo  de  Arthrospira)  se  refere  a  um  grande  número  de  espécies  de  bactérias  que  pertencem  ao  filo  Cyanobacteria.  As cianobactérias são organismos         procariotos         fotossintetizantes;    eram     anteriormente     denominadas     algas     verdes-azuis.    Atualmente    se    sabe    que    não    estabelecem    relação   filogenética   com   o   grupo   das   algas, no   entanto,   são   usualmente    denominadas    microalgas    pela    maior    parte    da    literatura.

As  aplicações  terapêuticas  sugeridas  para  as  cianobactérias  são extremamente       diversificadas,       abrangendo:       inibição       da    replicação    viral;    atividade    antitumoral,    redução    da    hipercolesterolemia      e      outras      hiperlipidemias,      efeito      antidiabetogênico,   efeito   anti-hipertensivo,   modulador   do  sistema  imunológico e  regulador  da  resposta  alérgica, aumento da absorção intestinal de vitaminas e minerais, aumento dos   lactobacilos   intestinais;   coadjuvante   no   tratamento   de   indivíduos obesos, anêmicos e redução da nefrotoxicidade por metais pesados e medicamentos.

A  utilização  da  cianobactéria  Spirulina  na  alimentação  humana  tem    sido    realizada    por    vários    séculos.    Quando    os    espanhóis    conquistaram  o  México,  descobriram  que  os  astecas  coletavam  essa  microalga no lago Texcoco e a consumiam na forma de molho à base de  cereais,  conhecido  como  chimolli  ou  molho  asteca.  Na  África,  a  comunidade  étnica  dos  Kanembous  colhia  a  Spirulina  no  lago  Chad,  a  desidratava  e  moldava  em  tabletes  para  a  venda  no  mercado  local.  Os  Kanembous  também  preparavam  o  dihé,  um  molho  à  base  de  Spirulina,  salsa  e  pimenta,  utilizado  para  acompanhar  preparações  à  base  de  milho,  carnes  e  peixes,  sendo  consumido  em  70%  das  refeições kanembous.

Um estudo conduzido  com  quarenta  voluntários  de  ambos  os  sexos,  de  cinquenta  anos  ou  mais,  que  não  possuíam  histórico de doenças crônicas, evidenciou um aumento constante dos   valores   médios   de   hemoglobina   corpuscular   média   em   indivíduos  de  ambos  os  sexos.  Além  disso,  o  volume  corpuscular  médio   e   a   concentração   de   hemoglobina   corpuscular   média   também   aumentaram   em   participantes   do   sexo   masculino.   As   mulheres   com   mais   idade   pareceram   se   beneficiar   mais   rapidamente  da  suplementação  de  Spirulina.  Os  pacientes  não  faziam  utilização  de  suplemento  férrico  medicamentoso  e  foram  avaliados  no  início  e  após  seis  e  doze  meses  de  tratamento.  O   trabalho   também   avaliou   a   influência   da   suplementação   de   Spirulina   na   função   imunológica,   e   teve   como   conclusão   que  a  Spirulina  pode  melhorar  a  anemia  e  imunossenescência  em  indivíduos  com  mais  idade.  Essas  evidências  apontam  sobre  o  teor  de  minerais  da  Spirulina,  bem como de seus efeitos moduladores sobre a mucosa intestinal, que  podem  favorecer  o  transporte  de  nutrientes  envolvidos  na hematopoiese.

Estudos  têm  avaliado  a  atividade  antioxidante  de  microalgas. Os compostos responsáveis por  essa  atividade  antioxidante  são  os  carotenoides,  tocoferóis,  compostos  fenólicos  e,  mais  recentemente,  as  ficobiliproteínas  aloficocianina, ficocianina e ficoeritrina que são os principais pigmentos das cianobactérias. Já são conhecidos    mecanismos    antioxidantes    exercidos  por  carotenoides,  tocoferóis  e  compostos  fenólicos, e há  três  hipóteses  principais  para  que  as  ficobiliproteínas  exerçam  seu  efeito  protetor.  A  primeira  seria  devido  à  própria  estrutura  química que atuaria neutralizando  as  espécies  reativas  de  oxigênio  e  nitrogênio;  essa  hipótese  tem  sido  demonstrada  tanto  in  vitro,  quanto  in  vivo.  A  segunda   seria   devida   às   propriedades   quelantes   de   minerais,   e   a   terceira   envolveria   o   incremento   do   sistema   enzimático   antioxidante, detectado pelo aumento da atividade detoxificadora da catalase.

Analisando  o  efeito  da  suplementação  oral de Spirulina (4 g/dia por seis semanas) nos parâmetros séricos (lipídios,  glicose,  aminotransferases)  e  na  pressão  sanguínea  de  36   indivíduos   adultos,   observaram   um   efeito   hipolipidêmico,   especialmente para os triacilgliceróis e para o colesterol LDL, mas também  indiretamente  para  o  colesterol  total;  também  ocorreu  redução da pressão sanguínea sistólica e da diastólica.

Ravi et  al.  (2010),  em  seu  trabalho  de  revisão  sobre  as  propriedades  imunomoduladoras  e  antioxidantes  de  Spirulina,  ressaltaram,  entre  outros  efeitos,  a  estimulação  da  produção  de  citocinas  e  anticorpos,  a  promoção  da  atividade  de  macrófagos,  linfócitos  T  e  B,  incluindo  principalmente  as  células  Natural  killers  (NK).   Dados   expostos   pelo   mesmo   trabalho   relataram   que   o   pigmento  ficocianina  exerceu  atividade  imunomodulatória  do  por  meio  de  um  efeito  inibitório  sobre  a  liberação  de  histamina   pelos   mastócitos   durante   a   resposta   alérgica.   Além   disso,  esse  pigmento  também  suprimiu  o  crescimento  de  células  tumorais,  promovendo  a  atividade  das  células  NK  e  induzindo  linfócitos do baço a produzirem o fator de necrose tumoral TNF-α.

Já  foi  sugerido em estudos que  a  ingestão  diária  de  Spirulina  de  6  g/dia  para  um  adulto  seria  caracterizado  como  alto  consumo;  3  g/dia,  consumo  médio  e  3  –  12  g/mês,  baixo  consumo  sendo  a  ingestão  contemporânea  de  1  –  5  g/dia.    Estudos  clínicos  recentes  indicam  que  uma  ingestão  de  cerca  de  10  g/dia  por  seis  meses  não  induziu  efeitos  adversos.

Apesar do exposto, é importante destacar que  uma  dieta  equilibrada   é   precedente   e   essencial   ao   estabelecimento   do   estado    nutricional    adequado.    Nenhum    alimento    pode    ser    considerado como solução isolada para o tratamento e a redução de riscos associados a qualquer doença crônica não transmissível.

Referência bibliográfica

DE OLIVEIRA, Cristiane Alves et al. Potencial nutricional, funcional e terapêutico da cianobactéria spirulina. Revista da Associação Brasileira de Nutrição-RASBRAN, v. 5, n. 1, p. 52-59, 2013.

RAVI  M,  De  SL,  Azharuddin  S,  Paul  SFD.  The  beneficial  effects  of  Spirulina  focusing  on  its  immunomodulatory and antioxidant properties. Nutr and Diet Suppl. 2010;2:73–83.

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A FUNÇÃO NEUROPROTETORA DA COQ10 E DA CREATINA

Por Isabella Brescia

A creatina (ácido acético metilguanidina) é um composto de aminoácidos presente principalmente nas fibras musculares e no cérebro, sintetizado no fígado, rins e pâncreas. Esse processo envolve a participação de três aminoácidos: arginina, glicina e metionina. Outra forma de obtenção deste aminoácido é derivada da dieta, encontrada em maior quantidade nas carnes. Alimentos como vegetais podem apresentar creatina, mas em quantidades muito pequenas.
A busca por resultados cada dia mais competitivos, mais rápidos e significativos no meio esportivo, levou a creatina a ganhar espaço na mídia durante as Olimpíadas de Barcelona em 1992, onde os vencedores da prova de 100 metros rasos e a campeã dos 400 metros com barreiras confirmaram o uso do suplemento para fins ergogênicos e saíram vitoriosos.
Pesquisas mostram que o papel da creatina não se restringe apenas aos efeitos ergogênicos. Suas propriedades oferecem esperança quanto ao valor terapêutico em processos de neurodegeneração, envolvendo o déficit bioenergético do sistema nervoso. O sistema que envolve creatina/fosfocreatina, catalisada pela enzima creatina quinase (CK), desempenha papel fundamental na manutenção do equilíbrio energético do cérebro. Alterações da enzima CK associada à diminuição do metabolismo energético, tem sido relacionada a algumas doenças que afetam o SNC, como a Doença de Huntington, Alzheimer, Parkinson e Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA).
As doenças neurológicas possuem perda neuronal e disfunções que abrangem uma grande variedade de doenças, dependentes da localização e progressão da desordem. Mas, apesar das particularidades de cada uma, há cada vez mais provas sugerindo a semelhança nos processos bioquímicos envolvidos no fenótipo das patologias. Esses processos incluem: estresse oxidativo, mutações e disfunção mitocondrial.
A necessidade diária de creatina de uma pessoa adulta é cerca de 2g, sendo 1g obtida através da alimentação e 1g produzida pelo fígado. Estudos mostram que vegetarianos precisam sintetizar toda a creatina que necessitam. Em contrapartida, o excesso de suplemento diminui os níveis de enzimas aminotransferase no fígado, diminuindo a síntese da substância.
Estudo relatou que a combinação de Creatina com a Coenzina Q10 (CoQ10) exerceu efeito de neuroproteção significativo. Um grupo de ratos administrados com: creatina a 2%, CoQ10 à 1%, outro com a combinação das duas e ainda um grupo controle, administraram estes respectivos compostos uma semana antes da aplicação do 3-NP (ácido 3 – nitropropiónico, que reproduz as características da Doença de Huntington quando testados em animais, provocando prolongadas deficiências de energia, incluindo degeneração estriatal, podendo assim ser modelo experimental útil). Ao final do estudo observou-se que a quantidade de lesões degenerativas reduziu 47% no grupo tratado com creatina, 38% no grupo CoQ10 e a combinação de ambas diminuiu 87% o volume das lesões. O grupo controle sofreu uma profunda perda de neurônios do estriado, mostrando a possível aplicabilidade de ambas às substâncias em doenças neurodegenerativas.
Com o envelhecimento, os indivíduos apresentam morte celular progressiva das células que produzem a dopamina, mas em algumas pessoas esse ritmo ocorre aceleradamente. A doença de Parkinson tem como característica a diminuição intensa da produção do neurotransmissor dopamina da substância negra, levando a perda da função muscular. Suas manifestações clínicas incluem tremor de repouso, bradicinesia, rigidez muscular, alterações posturais e de marcha. As causas da doença de Parkinson ainda são obscuras, mas acredita-se que estejam relacionados a fatores genéticos e ambientais, associados à disfunção mitocondrial, estresse oxidativo e inflamação.
Uma combinação da Coenzima Q10 com creatina mostrou exercer efeitos neuroprotetores sobre os animais com doença de Parkinson durante a aplicação de um estudo. Um grupo foi suplementado com creatina a 2%, outro CoQ10 a 1%, uma combinação dos dois compostos e ainda um grupo controle. Os resultados revelam uma diminuição de 56% de dopamina no estriado do grupo controle, seguido de 33% no grupo Cr, 26% no CoQ10 e no grupo onde foi feita a combinação de ambos houve uma diminuição de apenas 16% da dopamina, exercendo efeito neuroprotetor significativo.
Os problemas relacionados com o metabolismo energético no Sistema Nervoso Central podem estar associados à disfunção mitocondrial, estresse oxidativo, mutações e ainda excitotoxidade, desempenhando papéis críticos na progressão de doenças neurológicas, culminando em morte neuronal.
A suplementação de creatina mostrou contribuir com a bioenergética cerebral, aumentando os depósitos de fosfocreatina, necessários para a formação de energia e homeostase das células. Ainda se sugere que a suplementação possa interceder a favor das mitocôndrias restabelecendo suas funções e diminuindo a susceptibilidade à apoptose.

Referência bibliográfica
VOGEL, Camila; ROMAN, Alex; DE OLIVEIRA SIQUEIRA, Luciano. EFEITOS NEUROPROTETORES RELACIONADO À SUPLEMENTAÇÃO COM CREATINA. Revista Brasileira de Neurologia e Psiquiatria, v. 23, n. 1, 2019.

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BENEFÍCIOS DOS ÓLEOS DE PRÍMULA E BORRAGEM

Por Isabella Brescia

Evidências científicas têm demonstrado a efetividade das substâncias bioativas na promoção da saúde. Os ácidos graxos poli-insaturados de cadeia longa (AGPICL) apresentam singular importância ao organismo humano por constituírem membranas celulares, serem precursores de eicosanoides, atuarem no desenvolvimento cerebral e cognitivo, além de apresentarem efeitos positivos relacionados a doenças cardiovasculares, diabetes, cânceres e doenças hepáticas não alcoólicas.  As duas principais categorias de AGPICL são os grupos ꞷ-3 e ꞷ-6, os quais são obtidos pelos humanos por meio da dieta. Estes ácidos graxos (AG) e seus metabólitos influenciam a composição da membrana celular e regulam a sinalização celular.

A família ꞷ-3 compreende os ácidos α-linolênico (ALA), eicosapentaenoico (EPA) e o  docosahexaenoico (DHA). O ácido α-linolênico (ALA) possui duplas ligações nos carbonos 3, 6 e 9 e a partir dele o organismo humano pode produzir o ácido eicosapentaenoico (EPA) e o ácido docosahexaenoico (DHA), metabolitos com importantes funções cognitivas e anti-inflamatórias. O óleo de peixe é o principal representante de ꞷ-3, sobretudo os animais capturados em águas frias e marinhos. ALA também é encontrado na composição de óleos vegetais, como de linhaça.

A família ꞷ-6 compreende os ácidos linoleico (LA), gama-linoleico (GLA) e seus metabólitos: ácido dihomo-γ-linolênico (DGLA) e ácido araquidônico (AA).  O LA é o principal AGPICL da dieta ocidental podendo ser encontrado principalmente em nozes, sementes e óleos vegetais, como a soja, o óleo básico da alimentação ocidental. Alimentos derivados dos óleos vegetais, como margarinas, apresentam níveis significativos de LA. Após a ingestão, o LA é metabolizado em GLA pelo organismo dos mamíferos.

Mamíferos não sintetizam o GLA, por isso, a obtenção ocorre por meio da dieta ou suplementação utilizando-se principalmente fontes vegetais. A partir dos óleos de sementes de borragem (Borago officinalis L.), prímula (Oenothera biennis L.) e groselha negra (Ribes nigrum L.) é possível a obtenção do GLA. No organismo, o GLA passa por transformações enzimáticas e metabólicas produzindo, principalmente, prostaglandinas e leucotrienos anti-inflamatórios, além de tromboxanos anti-agregantes plaquetários. Os eicosanoides produzidos justificam os possíveis benefícios de GLA frente a doenças anti-inflamatórias, como artrite reumatoide, síndrome pré-menstrual e dermatite atópica.

O estudo da função anti-inflamatória do GLA teve início nos anos 1980. Vegetais com quantidades significativas de GLA passaram a ser avaliados como eficazes para tratamento de doenças como artrite reumatoide e dermatites atópicas. O aumento da produção de DGLA e, consequentemente, de prostaglandinas de classe E1, afeta a quimiotaxia dos leucócitos, reduz a aderência dessas células aos vasos sanguíneos e inibe a ativação plaquetária. Outro fator importante da suplementação de GLA inclui a diminuição da metabolização de ácido araquidônico em leucotrienos pró-inflamatórios.

A síndrome pré-menstrual é uma condição que afeta 85% das mulheres e está associada a sintomas emocionais e comportamentais durante a menstruação, incluindo ansiedade, depressão, fadiga, cefaleia, mastalgia e irritabilidade. Acredita-se que a deficiência dos AGs essenciais causa a diminuição dos níveis de prostaglandinas de classe E1 e aumenta a sensibilidade à prolactina.

A suplementação com fontes de GLA pode ser ferramenta para amenizar a síndrome pré-menstrual, sendo o óleo de prímula um dos tratamentos mais populares. Em 1994, foi publicada a primeira meta-análise que comprova a eficácia do uso de óleo de prímula na melhora dos sintomas.

A artrite reumatoide refere-se a uma condição autoimune onde há concentração celular de macrófagos e células T no líquido sinovial. Esta proliferação resulta em inflamação das articulações, podendo causar destruição da camada cartilaginosa e óssea. O tratamento convencional da artrite reumatoide é realizado com medicamentos anti-inflamatórios não esteroidais, os quais podem causar efeitos adversos importantes, como úlceras, hemorragias no trato gastrointestinal, problemas renais e aumento da pressão arterial.

Produtos que não promovam estas complicações são estudados e óleos de sementes de vegetais são uma opção segura. Óleos de prímula, borragem, groselha negra e de peixe são investigados como suplementos para uso em artrite reumatoide. O óleo de borragem se mostrou eficaz no controle das dores em pacientes acometidos por inflamações, incluindo a artrite reumatoide, sendo capaz de reduzir as doses dos medicamentos convencionais.

A dermatite atópica, sinônimo de eczema atópico, é uma doença crônica e complexa que resulta na inflamação da pele. Nos países desenvolvidos, a incidência da doença em crianças está em ascensão. As causas relacionadas ao desenvolvimento da patologia são multifatoriais e envolvem uma complexa relação entre fatores ambientais, genéticos e imunológicos.

O metabolismo anormal de ꞷ-6 é considerado um dos possíveis mecanismos responsáveis pela evolução de dermatite atópica. Os indivíduos apresentam baixos níveis plasmáticos de ꞷ-6, assim como nas membranas eritrocitárias e células do sistema imune. Níveis aumentados de LA são observados no leite materno de mães de crianças que desenvolvem a condição e também em fosfolipídios plasmáticos de crianças e adultos com dermatite atópica. As observações indicam possível redução da ação da enzima D6D, resultando em diminuição da formação de GLA e seus metabólitos.

O equilíbrio da razão entre AA/DGLA parece ser um fator determinante para a progressão da doença. O AA é componente essencial das membranas da pele, porém em níveis exacerbados resulta em inflamação e piora dos sintomas da patologia. A suplementação com fontes de GLA aumenta a produção de DGLA, amenizando a inflamação sem comprometer o funcionamento normal das células da pele.

A suplementação alimentar com óleos vegetais, como de prímula, borragem e groselha negra podem ser uma alternativa segura para manejo de síndromes e doenças inflamatórias. O DGLA plasmático é fator importante de estudo para determinar os aspectos fisiológicos e a regulação da inflamação por meio da suplementação de GLA.

Referência bibliográfica

DE CAMPOS, Luana Mayra; DE OLIVEIRA CARVALHO, Patrícia; RIBEIRO, Pérola. Ácidos graxos polinsaturados ômegas 3 e 6: benefícios a saúde humana e fontes. Investigación Clínica, v. 57, n. 3, 2005.

FERREIRA, Marcela Santos; ROCHA, Keli Daiane Camargo; GARCIA, Carlos Eduardo Rocha. Óleo de prímula como suplemento alimentar Evening primrose oil as a dietary supplement. Brazilian Journal of Development, v. 8, n. 5, p. 41440-41455, 2022.

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IMUNONUTRIÇÃO NO PACIENTE ONCOLÓGICO

Por Isabella Brescia

A alta incidência de desnutrição em pacientes com câncer é multifatorial, e está principalmente atribuída à localização tumoral e aos distúrbios de má absorção e ingestão, repercutindo em deficiências e desequilíbrios nutricionais que refletem em perda de peso, alteração da composição corporal e pior prognóstico. A terapia e a intervenção nutricional devem ser instituídas precocemente, desde o diagnóstico, e continuadas durante todo o tratamento, com o objetivo de manter o estado nutricional, melhorar a performance clínica ao tratamento, minimizar efeitos colaterais e favorecer tanto a qualidade de vida quanto a sobrevida em pacientes oncológicos. Estratégias nutricionais são atualizadas e utilizadas para diminuir os efeitos inflamatórios e catabólicos do câncer, sendo assim, nutrientes especializados, anti-catabólicos e supressores da inflamação são sugeridos e devem ser considerados como parte da intervenção.

A terapia nutricional denominada de imunonutrição tem como objetivo a modulação da resposta inflamatória e a melhora de função imune, almejando a diminuição de complicações no pós-operatório e no estado nutricional do paciente. A oferta da imunização é indicada independentemente do estado nutricional no período perioperatório, ou seja, entre cinco a dez dias tanto no pré quanto no pós-operatório de cirurgia de médio e grande porte, essa terapia nutricional pode ser feita por suplementação oral ou por via enteral, quando necessária. A literatura científica comprova os benefícios de uma dieta com combinação de nutrientes específicos como arginina, ácidos graxos ômega-3 e nucleotídeos.

A arginina é um aminoácido semiessencial, ou seja, é sintetizado pelo organismo e fornecido pela alimentação, porém, torna-se essencial quando o corpo entra em situação de catabolismo e hipercatabolismo.  A arginina atua sobre o sistema imune pela proliferação do linfócito T  tornando-se fundamental para o paciente cirúrgico, também por atuar como estimulante de síntese proteica, na produção de prolina para formação de colágeno e melhora da cicatrização , na liberação de óxido nítrico (ON) que regula a expressão gênica e estimula a imunidade mediada por células, regula a pressão sanguínea e perfusão tecidual, como atividade antimicrobiana e antitumoral, na desintoxicação de amônia e na liberação de hormônios e biossíntese de poliamida e creatina. No entanto, quando a arginina se esgota, as células geram superóxido ao invés de óxido nítrico, e o superóxido leva à lesão celular como resultado.

Os ácidos graxos ômega-3, derivados de óleo de peixe e de canola, têm a principal característica de atuarem como lipídios anti-inflamatórios, reduzindo as concentrações de mediadores inflamatórios, como a proteína c-reativa (PCR), citocinas pró-inflamatórias eicosanóides e quimiocinas. Além disso, são essenciais para a síntese de mediadores e reguladores da inflamação, como eicosanóides, leucotrienos, prostaglandinas e tromboxanos que têm as funções de reduzir a agregação plaquetária, diminuir o potencial pró-inflamatório e fazer a imunomodulação na resposta inflamatória.

Os nucleotídeos são os precursores dos ácidos nucleicos DNA e RNA, necessários para a síntese de proteínas celulares e fundamentais para a homeostase do sistema imunológico de indivíduos adultos, sendo o RNA responsável pelo aumento da contagem total de linfócitos (células de defesa do organismo), melhorando a resposta imunocelular e a resposta contra infecções, além de sua importância para a transferência de energia química nas células, por participar também da formação de trifosfato de adenosina (ATP).

Estudos tem demonstrado que os imunonutrientes arginina, ácidos graxos ômega-3 e nucleotídeos trouxeram benefícios para a saúde dos pacientes quando combinados em níveis terapêuticos para modular especificamente o sistema imunológico contra a alteração de vias inflamatórias e metabólicas. A imunonutrição fornecida a pacientes bem nutridos e desnutridos têm mostrado benefícios, o que sustenta a premissa de que uma combinação de imunonutrientes incluídos nas dietas de reforço imunológico podem ter um efeito farmacoterapêutico benéfico além de fornecer energia, proteínas, vitaminas e minerais para suporte nutricional.

Contudo, fica evidente que o manejo nutricional tanto em pacientes com tumores gástricos, como em demais sítios tumorais, é fundamental e um pilar necessário durante a jornada de tratamento. Estratégias e orientações nutricionais devem atender às necessidades metabólicas dos pacientes oncológicos, além de favorecer e gerenciar o estado nutricional, manejo de sintomas, da ingestão nutricional e diminuir a toxicidade. A utilização de suplementos nutricionais orais (SNO) é uma das principais formas para alcançar esses resultados e de fornecer energia e proteínas àqueles que enfrentam dificuldades para atingir suas necessidades nutricionais, bem como, em fornecer nutrientes específicos para atenuar as alterações metabólicas, catabolismo e inflamação persistente inerente ao câncer e às terapias antineoplásicas.

A prescrição de SNO deve ser recomendada a todos os pacientes com câncer em risco nutricional e/ou desnutridos e que estejam em tratamento. Em casos de terapias antineoplásicas, o SNO é indicado de forma precoce, ou seja, no início do tratamento, mesmo sem o paciente apresentar déficit na ingestão alimentar e/ou alteração da composição corporal, visto que o objetivo da intervenção é manter a adequação alimentar, estado nutricional e favorecer a resposta metabólica. Pacientes oncológicos sob alto risco nutricional (trato gastrointestinal, câncer de cabeça e pescoço e pulmão) apresentam benefício da intervenção nutricional precoce, reduzindo a prevalência de desnutrição e sintomas relacionados aos tratamentos.

Dentre as estratégias nutricionais, nutrientes especializados devem ser considerados, para diminuir os efeitos colaterais, inflamatórios e catabólicos. Alguns estudos têm demonstrado benefícios do uso da imunonutrição em pacientes submetidos ao tratamento sistêmico, devido à ação de modulação do sistema imune e por influenciar ganho de peso, massa magra, estado funcional, qualidade de vida e melhora na tolerância do tratamento.

Referência bibliográfica

FRAGA, Flávia Pereira da Silva Cipriano et al. NUTRIÇÃO E IMUNIDADE NO TRATAMENTO ONCOLÓGICO. Estudos Avançados sobre Saúde e Natureza, v. 3, 2022.

MATTOS, Cecília et al. PREPARO IMUNOLÓGICO NO TRATAMENTO ANTINEOPLÁSICO: O IMPACTO DA IMUNONUTRIÇÃO ORAL COMO ESTRATÉGIA TERAPÊUTICA EM PACIENTE COM ADENOCARCINOMA DE TRANSIÇÃO ESOFAGOGÁSTRICA. Relato de caso. BRASPEN J 2022; 37 (1): 109-14

MINUZZI, Larissa. IMUNONUTRIÇÃO PRÉ E PÓS OPERATÓRIO DE PACIENTES ONCOLÓGICOS. 2022.

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GLUTAMINA E INTESTINO

Por Isabella Brescia

A glutamina é um aminoácido não essencial, cujo papel no metabolismo proteico e no transporte de nitrogênio entre diversos órgãos, tem sido muito pesquisado, principalmente quanto à possibilidade de se tornar essencial em casos de demanda aumentada. Sua ação trófica sobre a mucosa do intestino delgado já é bastante conhecida. Trabalhos experimentais recentes têm demonstrado a ação desse aminoácido sobre a parede colônica, com potencial aplicabilidade clínica.
A glutamina é o aminoácido mais abundante no sangue, correspondendo a um terço do nitrogênio circulante sob a forma de aminoácidos. Diversos estudos têm demonstrado que a mucosa do intestino delgado é a principal responsável por essa absorção. Outros trabalhos demonstraram o papel fundamental desempenhado pelo fígado no metabolismo desse aminoácido, sendo capaz de funcionar como consumidor ou produtor de glutamina, de acordo com as necessidades de diversos processos fisiológicos ou patológicos.
A concentração de glutamina no sangue cai significativamente em doenças graves, levando a um estado de depleção acentuada desse aminoácido. Pode ser observada uma diminuição de até 75 % na concentração intracelular de glutamina no músculo estriado de pacientes sépticos, sendo essa diminuição correlacionada à mortalidade.
Ela é captada pelas células epiteliais do intestino a uma velocidade semelhante à da captação da glicose, sendo mais importante do que esta como fonte energética para enterócitos e colonócitos, embora estes últimos utilizem preferencialmente ácidos graxos de cadeia curta (ácidos acético, propiônico e butírico) que são formados pela fermentação bacteriana anaeróbia de fibras residuais contidas no bolo fecal, como fonte energética.
O metabolismo intracelular da glutamina é regulado através de duas enzimas principais: a glutaminase, que catalisa a hidrólise da glutamina em glutamato e a glutamino-sintetase, que catalisa a síntese de glutamina a partir de glutamato e amônia. As células epiteliais da mucosa intestinal têm alta concentração de glutaminase, compatível com as altas taxas de captação e consumo de glutamina.
Funcionalmente a glutamina é utilizada pelo intestino como uma importante fonte energética, como fonte de nitrogênio para a síntese de nucleotídeos e no processamento de carbono e nitrogênio oriundos de outros tecidos para posterior utilização pelo fígado e pelos rins. Através de vias metabólicas secundárias, a glutamina fornece ainda carbono e nitrogênio para a síntese de alanina, citrulina e prolina.
O fígado desempenha um papel central no metabolismo da glutamina, pois é capaz de absorver ou liberar quantidades significativas de glutamina de acordo com as necessidades metabólicas do organismo. O fígado possui uma característica peculiar, segundo a qual os hepatócitos peri-portais apresentam alta concentração de glutaminase, enquanto os hepatócitos peri-venosos apresentam concentração elevada de glutamino-sintetase. Essas duas populações celulares respondem às concentrações de glutamina e amônia no sangue portal, captando ou liberando cada um desses elementos de acordo com as necessidades metabólicas do organismo. O fígado utiliza ainda a alanina produzida pela degradação da glutamina no intestino para a gliconeogênese.
A glutamina, apesar de sua importância no metabolismo proteico e no transporte de nitrogênio, é considerada um aminoácido não essencial. Essa denominação deve-se ao fato de que o organismo é capaz de sintetizá-lo a partir de outros aminoácidos. No entanto, em situações de estresse, a demanda pode superar a capacidade de síntese, tornando a sua suplementação essencial.

Referência Bibliográfica
LOPES-PAULO-TSBCP, FRANCISCO. Efeitos da glutamina sobre a parede intestinal e sua aplicabilidade potencial em coloproctologia. Rev bras Coloproct, v. 25, n. 1, 2005.

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FIBRAS E NUTRIÇÃO ENTERAL

Por Isabella Brescia

As complicações associadas com a nutrição enteral (NE)  não são incomuns, sendo a diarreia um sinal importante de intolerância. A atividade metabólica da microbiota luminal pode ser comprometida, afetando a resistência à colonização e contribuindo para complicações. Consequentemente, são de grande interesse as formulações de NE que tenham um efeito positivo na microbiota e função intestinal, que proporcionem um suporte nutricional apropriado para os pacientes.

Dentre as aplicações da fibra na nutrição enteral podemos citar o gerenciamento da função  intestinal, a intensificação da função absortiva e integridade do intestino, a manutenção da barreira intestinal, a melhora da tolerância à glicose e do perfil lipídico do sangue e a normalização da microbiota intestinal. Um grande número de estudos avaliou a tolerabilidade ao conteúdo de fibras e na redução de sintomas gastrointestinais. Há ampla evidência de efeitos positivos das fórmulas enterais enriquecidas com fibras, que podem estimular o crescimento de bactérias benéficas, inibindo o desenvolvimento de bactérias nocivas.

Spapen et al. investigaram o efeito de fórmulas enterais enriquecidas com fibra no controle da diarreia em pacientes com sepse grave, os quais receberam dieta enteral suplementada com 22g/l de goma guar parcialmente hidrolisada ou dieta padrão (normocalórica e normoproteica), sem fibras, como controle. Os autores encontraram que os pacientes com dieta enteral com fibras tiveram menor frequência diária de diarreia, menor número de dias de diarreia por dias totais de internação e menor escore de diarreia, baseado em volume e consistência das fezes.

Nakao; investigou a utilidade da fibra alimentar solúvel no tratamento de diarreia durante a nutrição enteral em pacientes idosos. A suplementação inicial foi de 7g/dia de fibras solúvel (galactomananas), sendo aumentada semanalmente até 28g/dia, no final do período de intervenção de quatro semanas. Após administração de fibra solúvel, houve redução significativa no conteúdo de água nas fezes, na frequência diária de movimentos intestinais e no pH fecal. Houve melhora nas características das fezes e aumento significativo no nível total de ácidos graxos de cadeia curta.

Trier et al. verificaram a tolerância e o efeito na função gastrintestinal de uma fórmula pediátrica, polimérica, enriquecida com uma mistura de seis fibras, comparada com a mesma fórmula sem fibras. O estudo duplo-cego, randomizado, incluiu 16 crianças com terapia de nutrição enteral por 14 dias. Com o uso da fórmula suplementada com a mistura de fibras, houve redução significativa no número de dias de constipação e no uso de laxantes.

Chittawatanarat et al., após 14 dias de intervenção, identificaram que os episódios de diarreia foram significantemente mais baixos no grupo com fibras do que no grupo sem fibras. A proporção geral de incidência de diarreia por 100 dias de nutrição enteral, foi significantemente mais baixa no grupo que recebeu fibras, mesmo quando a nutrição teve início após os pacientes terem recebido antibióticos de amplo espectro.

Considerando-se o esvaziamento e volume gástrico residual, os estudos não observaram diferenças entre o grupo que recebeu suplementação com fibras e o grupo controle. Três artigos demonstraram que os vômitos foram menos frequentes no grupo que recebeu suplementação com fibras, mas as diferenças foram não significantes. Alguns estudos mencionaram distensão abdominal, mas não detectaram diferenças clinicamente importantes (a distensão abdominal foi similar em ambos os grupos, ou a distensão foi menos observada no grupo controle).

A American Society for Parenteral and Enteral Nutrition (ASPEN) recomendou, em recente publicação, a utilização apenas de fibras solúveis para pacientes graves hemodinamicamente estáveis que desenvolvam diarreia. O uso de fibras solúveis em todos os pacientes que se encontrem hemodinamicamente estáveis é seguro e pode ser considerado benéfico para redução dos sintomas gastrintestinais, principalmente da diarreia. Adicionalmente, o uso de fibras insolúveis para pacientes graves em geral foi contraindicado. Ambos os tipos de fibras devem ser evitados para pacientes em risco de isquemia mesentérica ou comprometimento grave da motilidade.

Referência Bibliográfica

CATALANI, Lidiane Aparecida et al. Fibras alimentares. Rev Bras Nutr Clin, v. 18, n. 4, p. 178-82, 2003.

Chittawatanarat K, Pokawinpudisnun P, Polbhakdee Y. Mixed fibers diet in surgical ICU septic patients. Asia Pac J Clin Nutr. 2010;19(4):458-64.

Nakao M, Ogura Y, Satake S, Ito M, Ugushi A, Takagi K, et al. Usefulness of soluble dietary fiber for the treatment of diarrhea during enteral nutrition in elderly patients. Nutrition 2002; 18(1):35-9. 24.

REIS, Audrey Machado dos et al. Uso de fibras dietéticas em nutrição enteral de pacientes graves: uma revisão sistemática. Revista Brasileira de terapia intensiva, v. 30, p. 358-365, 2018.

Spapen H, Diltoer M, Van Malderen C, Pondenacker G, Suys E, Huyghens L. Soluble fiber reduces the incidence of diarrhea in the septic patients receiving total enteral nutrition: a prospective, double-blind, randomized and controlled trial. Clin Nutr 2001; 20(4):301-5. 23.

Trier E, Wells JCK, Tomas AG. J Pediatr Gastroenterol. Nutrition 1999; 28:959 2

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A INGESTÃO DE FIBRAS E SUA AÇÃO NO ORGANISMO

Por Isabella Brescia

Fibra alimentar é a parte comestível de plantas ou carboidratos análogos que são resistentes à digestão e absorção no intestino delgado de humanos, com fermentação completa ou parcial no intestino grosso de humanos. A fibra alimentar inclui polissacarídeos vegetais, como celulose, hemiceluloses, pectinas, gomas e mucilagens, oligossacarídeos e lignina.
De acordo com a solubilidade em água de seus componentes, as fibras alimentares podem ser agrupadas em duas grandes categorias: fibras solúveis e fibras insolúveis.
As fibras solúveis incluem a maioria das pectinas, gomas, mucilagens e hemiceluloses. São encontradas em frutas, farelo de aveia, cevada e leguminosas (feijão, lentilha, ervilha e grão de bico). A fibra solúvel é responsável pelo aumento do tempo de trânsito intestinal e está relacionada à diminuição do esvaziamento gástrico, ao retardo da absorção de glicose, diminuição da glicemia pós-prandial e redução do colesterol sanguíneo devido às suas propriedades físicas que conferem viscosidade ao conteúdo luminal. No cólon, as fibras solúveis são fermentadas pelas bactérias intestinais, produzindo ácidos graxos de cadeia curta (acético, butírico e propiônico). Estes ácidos graxos são responsáveis por regular a proliferação epitelial e diferenciação da mucosa colônica (butirato); aumentar o fluxo sanguíneo e produção de muco; constituir fonte energética preferencial para os colonócitos (butirato); reduzir o pH no cólon, com efeito no equilíbrio da microflora intestinal; estimular a absorção de sódio e água; exercer efeito sobre o metabolismo lipídico (propionato) e glicídico (acetato e propionato); estimular a secreção pancreática e de outros hormônios.
As fibras insolúveis contribuem para o aumento do volume do bolo fecal, redução do tempo de trânsito intestinal, retardo da absorção de glicose e retardo da hidrólise do amido. Incluem a celulose, a lignina e algumas hemiceluloses e mucilagens. São encontradas em maior quantidade no farelo de trigo, nos cereais integrais e seus produtos, nas raízes e nas hortaliças. Geralmente, não sofrem fermentação, de maneira que, quando esta ocorre, ela se dá de forma lenta. Proporcionalmente, a fração insolúvel das fibras é a mais abundante, constituindo cerca de 2/3 da fibra alimentar de uma dieta composta por variados alimentos de origem vegetal.
Recentemente, o conceito de fibras foi ampliado de modo a incluir substâncias funcionalmente semelhantes: amido resistente, inulina e frutooligossacarídeos (FOS). O amido resistente é definido como a soma do amido e dos produtos da sua degradação que não são absorvidos pelo intestino delgado, contribuindo para aumentar a quantidade de fibra alimentar que chega intacto ao cólon. Apresenta efeitos fisiológicos semelhantes aos da fibra alimentar, dentre os quais destacam-se: capacidade de aumentar o volume fecal e diluir compostos potencialmente tóxicos e cancerígenos; reduzir níveis plasmáticos pós-prandiais de glicose, insulina, triglicérides e lipoproteínas de baixa densidade; produzir ácidos graxos de cadeia curta. A inulina é o polímero de glicose extraído da raiz de chicória, tubérculos de alcachofra, da cebola, do alho, da banana ou produzido industrialmente a partir da sacarose.
Os fruto-oligossacarídeos (FOS) são polissacarídeos de cadeia, cuja semelhança com as fibras está na ausência de degradação pelas enzimas digestivas do homem e na capacidade de permitir fermentação pelas bactérias do cólon intestinal, formando ácidos graxos de cadeia curta que exercem efeitos tróficos na mucosa intestinal. Os FOS diferem das fibras alimentares por não possuírem as características de reter líquidos, de aumentar a viscosidade quelando os minerais e de aumentar o bolo fecal.
A inulina e os fruto-oligossacarídeos (FOS) são considerados prebióticos, por serem ingredientes alimentares não digeridos no intestino delgado que, ao atingir o intestino grosso, são metabolizados seletivamente por um número limitado de bactérias benéficas, que alteram a microflora colônica, gerando uma microflora bacteriana saudável, capaz de induzir efeitos fisiológicos importantes para a saúde.
Para adultos, geralmente, recomenda-se ingestão de 20g a 35g de fibra alimentar por dia ou 10g a 13g de fibra alimentar por 1000 kcal. As informações nutricionais dos rótulos de alimentos baseiam-se nos valores de 25 g/dia para uma dieta de 2000 kcal ou 30 g/dia para uma dieta de 2500 kcal como meta para a população americana. O programa norte-americano denominado National Cholesterol Education Program (NCEP) recomenda o consumo de 20g a 30g de fibras por dia como parte da meta para Mudanças Terapêuticas de Estilo de Vida na redução do colesterol sérico. Para maior redução de LDL-colesterol, o NCEP recomenda o consumo de 10 g/dia a 25g/dia de fibras solúveis.
Ainda não foram publicadas recomendações específicas de fibras para idosos, de maneira que o consumo de 10g a 13g de fibra alimentar por 1000 kcal com adequada ingestão hídrica poderia ser recomendada com segurança para este grupo.
Quanto às crianças, não existem recomendações para as menores de dois anos de idade, sendo sugerida introdução de frutas, hortaliças e cereais de fácil digestão no período de transição da dieta. Para crianças acima de dois anos, recomenda-se o consumo igual à idade da criança acrescido de 5g, podendo chegar no máximo até o valor da idade mais 10 g/dia. O Comitê de Nutrição da Academia Americana de Pediatria recomenda que a quantidade de fibra alimentar seja de 0,5g/Kg/dia. A partir da adolescência, preconizam que a ingestão média de fibras na alimentação deve ser em torno de 30 gramas por dia, através de alimentos variados ricos em fibras como frutas, verduras, farelos e grãos integrais.
A quantidade de fibra ingerida é inversamente proporcional ao tempo de trânsito intestinal e diretamente proporcional ao peso/ volume das fezes, pois com suas qualidades particulares ela promove a retenção de água e o aumento do bolo fecal com resíduos de fibras insolúveis, sais, ácidos biliares e outros, com o volume aumentado pela capacidade hidrofílica há o amolecimento das fezes, promovendo o movimento peristáltico, o que leva ao aumento da progressão fecal e da frequência de evacuação. Assim, a inclusão de fibras terá como principal efeito o bifidogênico, que é o estimulo da motilidade intestinal e contribuição na formação de consistência das fezes.
As fibras alimentares têm sido investigadas no tratamento e prevenção da obesidade, por aumentarem a saciedade, reduzirem a sensação de fome e a ingestão energética. As fibras alimentares podem influenciar a regulação do peso corpóreo através de mecanismos fisiológicos que envolvem efeitos hormonais e colônicos. Esses mecanismos agem reduzindo a ingestão alimentar pela promoção da saciedade, pelo aumento na oxidação de lipídios e na redução das reservas corporais de gordura.
A fibra alimentar possui a capacidade de melhorar a homeostase da glicose nos indivíduos diabéticos. Isso ocorre devido à retenção de líquidos causada pela fibra solúvel no intestino, diminuição da acessibilidade da enzima pancreática em alcançar os polissacarídeos da dieta pelo aumento da viscosidade do quimo e reduzindo a difusão da glicose pelo enterócito. A fibra tem efeito sobre a liberação de hormônios gastrintestinais, como o peptídeo inibidor gastrointestinal (GIP), a colecistocinina e o glucagon entérico que, juntamente com o estímulo parassimpático, retardam o esvaziamento gástrico, aumentam a motilidade intestinal e a liberação de glicose pelo pâncreas.
Dentre as aplicações da fibra na nutrição enteral podemos citar o gerenciamento da função do intestino, a intensificação da função absortiva e integridade do intestino, a manutenção da barreira intestinal, a melhora da tolerância à glicose e do perfil lipídico do sangue, normalização da microflora intestinal.

Referência bibliográfica
CATALANI, Lidiane Aparecida et al. Fibras alimentares. Rev Bras Nutr Clin, v. 18, n. 4, p. 178-82, 2003.
Raizel R, Santini E, Kopper AM, Filho ADR. Efeitos do consumo de probióticos, prebióticos e simbióticos para o organismo humano. Revista Ciência & Saúde 2011 Disponível em: http://revistaseletronicas.pucrs.br/ojs/index.php/faenfi/article/view/8352/7257.

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SUPLEMENTAÇÃO PROTEICA NO IDOSO

Por Isabella Brescia

A massa muscular é resultado da regulação entre catabolismo e síntese proteica. O equilíbrio proteico é a diferença entre a síntese das proteínas musculares e sua degradação. Quando a degradação é maior que a síntese, ocorre um balanço negativo, o que leva a um declínio não desejável da massa muscular em idosos. Os fatores responsáveis por essa degradação são físicos, químicos, metabólicos e nutricionais. Os fatores catabólicos, ou seja, fatores que contribuem com a diminuição da massa muscular, englobam a denervação, o desuso muscular, o estresse oxidativo, as citocinas pró-inflamatórias, a acidose, a resistência insulínica e os hormônios glicocorticoides. No entanto, o não uso da massa muscular (sedentarismo), acompanhado de estresse oxidativo, torna-se um dos maiores fatores determinantes do declínio dessa massa. É tendência natural, dessa forma, que a massa muscular diminua e que o padrão de distribuição da gordura corporal se modifique, levando ao aumento dos tecidos gordurosos das pernas e dos braços.

Com o avanço da idade, observa-se um declínio progressivo de massa muscular e, consequentemente, uma simultânea redução da força. A sarcopenia é definida como a perda progressiva de massa muscular, associada à redução da força e/ou função do músculo, sendo apontada como a principal responsável pela deterioração da capacidade funcional do indivíduo que está envelhecendo, afetando a capacidade de realizar movimentos, contração muscular e locomoção.

Em 13% a 24% dos indivíduos entre 60 e 70 anos de idade, e em mais de 50% daqueles acima de 80 anos é possível encontrar o diagnóstico da sarcopenia. A partir dos 75 anos, a prevalência da sarcopenia torna-se maior em homens (58%) que em mulheres (45%), podendo ser devido à diminuição na secreção do hormônio do crescimento (GH) e até pela redução dos níveis de testosterona.

Perda de dentição, alterações nas percepções sensoriais, diminuição de motilidade gástrica, constipação, alteração nos níveis e mecanismos de ação de determinados hormônios são as principais alterações fisiológicas relacionadas à diminuição da ingestão alimentar e consequentemente proteica, pelos idosos. A ingestão de proteínas é importante para o organismo devido à necessidade da presença de aminoácidos para importantes funções estruturais, motoras, metabólicas, hormonais e imunológicas. Muitas doenças e traumas aumentam o catabolismo proteico e a necessidade de proteína. A composição de aminoácidos da proteína ingerida pode afetar a eficiência da proteína ingerida e, consequentemente, das necessidades proteicas.

Segundo recomendações de nutrientes Dietary Reference Intakes (DRI – DIETARY REFERENCE INTAKES) com fundamento em análises de estudos de balanço nitrogenado em humanos, a ingestão dietética recomendada (RDA) de proteína de alto valor biológico para indivíduos saudáveis de ambos os sexos é de 0,8 g/kg de peso corporal por dia. De acordo com Salgado (2002), o consumo de proteínas para idosos saudáveis deve preencher 15% das necessidades calóricas diárias. Em momentos críticos de perda de peso e estados hipercatabólicos, recomendam-se ingestões que podem chegar até 1,5 g/kg/dia. As ingestões recomendadas de proteínas podem ser menores no caso de alterações hepáticas e renais.

O consumo adequado de proteínas, tanto para o aumento de massa muscular quanto para a sua manutenção a longo prazo e não somente como forma profilática por meio de suplementação e fontes proteicas de qualidade, por indivíduos idosos, auxilia diretamente no retardo do inevitável declínio de massa muscular e prolonga o aparecimento da sarcopenia e seus efeitos deletérios.

Referência Bibliográfica

CORONA, Ligiana Pires. Prevenção da sarcopenia no idoso. Revista Kairós-Gerontologia, v. 23, p. 117-127, 2020.

RIBEIRO, Luís Eduardo Guieu Galvão Telles. Adequação energético-proteica em idosos com sarcopenia: resultados do International Mobility In Aging Study–IMIAS Brasil. 2019.  Universidade Federal do Rio Grande do Norte.

SALGADO, J. M. Nutrição na terceira idade. In: BRUNETTI, R. F.; MONTENEGRO, F. L. B. Odontogeriatria: noções e conceitos de interesse clínico. São Paulo: Artes Médicas, 2002. p. 62-70.

SOUSA, Valéria Maria Caselato de; MARUCCI, Maria de Fátima Nunes; SGARBIERI, Valdemiro Carlos. Necessidades de proteínas para a população idosa: revisão. Nutrire Rev. Soc. Bras. Aliment. Nutr, p. 199-209, 2009.

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SUPLEMENTAÇÃO COM WHEY PROTEIN PÓS CIRURGIA BARIÁTRICA

Por Isabella Brescia

São vários os tipos de cirurgia bariátrica (by pass gástrico em Y de Roux, gastrectomia vertical ou cirurgia de Sleeve, duodenal switch e banda gástrica), o by pass gástrico em Y de Roux (BPGYR), é a técnica bariátrica mais praticada no Brasil, correspondendo a 75% das cirurgias realizadas segundo dados da Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica. Essa técnica causa uma restrição na capacidade de receber o alimento pelo estômago que se encontra pequeno e possui um desvio do intestino. Apesar do seu grande nível de eficácia e segurança, essa técnica cirúrgica produz efeitos a longo prazo, desencadeados pela restrição da ingestão alimentar e/ou má absorção de nutrientes, que acabam levando o indivíduo, a desenvolver algumas deficiências nutricionais. Diante deste cenário, é de grande importância a suplementação e/ou reposição de vitaminas e minerais, para que esses indivíduos tenham uma boa qualidade de vida no decorrer dos anos.

O estômago é um ambiente ácido, com um Ph de, em média 2, contribuindo para uma redução de microrganismos que entram no sistema gastrointestinal (SGI) juntamente com o alimento. As secreções gástricas são compostas por ácido clorídrico (HCL), produzidas pelas células parietais localizadas nas paredes do fundo e no corpo, pelas proteases, lipases, muco, fator intrínseco e o hormônio gastrina.

As células principais do estômago são responsáveis por produzir pepsina, que é a protease mais potente do suco gástrico, secretada na sua forma inativa, pepsinogênio, a qual passa a estar ativa quando entra em contato com o HCL, tendo a função de quebrar as ligações peptídicas que unem os aminoácidos, participando da catalização de algumas proteínas ingeridas na dieta. Essas mesmas células também são responsáveis por secretar uma lipase estável em ácido, capaz de contribuir para o processamento geral dos triglicerídeos dietéticos. O estômago é responsável por produzir uma glicoproteína, denominada fator intrínseco, que é necessário para absorção de vitamina B12 no íleo terminal.

Nos primeiros 100 centímetros do intestino delgado ocorre uma série de reações que resulta na maior parte da digestão e absorção dos alimentos ingeridos. Nessa parte há liberação de hormônios que estimulam a produção e liberação de enzimas potentes pelo pâncreas e intestino delgado e da bile pelo fígado e vesícula biliar. Podemos dizer então que, ao longo do intestino delgado acontece a redução dos carboidratos em monossacarídeos, dos peptídeos em aminoácidos simples e das gorduras em glóbulos visíveis de gordura a gotas microscópicas de triglicerídeos e por fim, em ácidos graxos livres e monoglicerídeos. Quase todos os macronutrientes, vitaminas, minerais, oligoelementos e líquidos são absorvidos no intestino delgado, antes de chegar no cólon. Depois dessa absorção pelo intestino delgado, os nutrientes passam para o fígado pela veia, onde os mesmos podem ser armazenados, transformados ou liberados na circulação.

No cólon há absorção de uma pequena parte de nutrientes restantes do intestino delgado e de eletrólitos. O cólon é responsável também, pela fermentação dos carboidratos e fibras resistentes à digestão no SGI superior, sendo que algumas destas servem como material prebiótico por meio da produção de ácidos graxos de cadeia curta, resultado da fermentação, diminuindo o pH do cólon e aumentando a massa de bactérias “boas”. No intestino grosso ocorre o armazenamento temporário para os produtos remanescentes e no cólon distal, reto e ânus há o controle da defecação.

Após a bariátrica, a deficiência mais grave e comum segue sendo a desnutrição proteica, atingindo cerca de 30-40% dos pacientes. Estima-se que apenas 57% da proteína ingerida é absorvida após o bypass intestinal. Essa deficiência traz complicações sérias como perda de massa muscular, baixa na imunidade, danos fisiológicos, retardo na cicatrização de feridas cirúrgicas, dentre outros problemas que acabam por atrapalhar o sucesso no tratamento da obesidade. A mesma é caracterizada pela presença de hipoalbuminemia, anemia, edema, astenia e alopecia, sendo a deficiência de macronutrientes mais comum de ocorrer no pós-operatório tardio de cirurgia bariátrica.

A hipoalbuminemia (albumina < 3,5 g/dL) após o BGYR pode variar de 13% em pacientes após dois anos de cirurgia a 27,9% após dez anos, ou até mesmo não estar presente nos primeiros meses.

Segundo recomendações mais atuais a quantidade de ingestão proteica diária deve ser de 60 a 120g, dando prioridade aquelas de alto valor biológico, porém nos primeiros seis meses essa ingestão é muito baixa, sendo necessária uma suplementação proteica. A qual deve ser feita levando em conta diversos fatores como custo, aceitabilidade por parte do paciente, pois em alguns casos o sabor desse suplemento pode causar náuseas e vômitos, fazendo com que o paciente não queira consumi-lo. Deve-se atentar também a fácil digestibilidade, visto que o trato  gastrointestinal desse indivíduo sofreu modificações e sempre buscar alternativas de preparo que sejam mais fáceis para o seu consumo.

O paciente deve ser orientado a utilizar suplementos proteicos em pó e de alto valor biológico após 48 horas da realização da cirurgia. O whey protein tem sido a melhor escolha para esses casos, pois possui uma maior absorção e confere maior saciedade. Sua composição a base de proteína do soro do leite, faz com que esta não precise ser quebrada ou reduzida pelos ácidos estomacais, indo direto para o intestino delgado onde são rapidamente digeridas e seus aminoácidos absorvidos, fazendo com que os níveis de aminoácidos no plasma aumentem, estimulando assim a síntese proteica nos tecidos O ideal é que se use whey protein do tipo isolado, hidrolisado, sem lactose, sem glúten e sem sacarose para facilitar a adesão por parte do paciente, reduzir a alergenicidade e melhorar a absorção.

Outros módulos de proteína estão amplamente disponíveis no mercado, como albumina e caseinato. Porém, fatores como sabor, textura, solubilização, absorção e custo são considerados importantes na escolha desses suplementos. Prioridade deve ser dada ao perfil de aminoácidos presentes quando o suplemento for a única fonte proteica da dieta. O whey protein pode ser uma excelente escolha, uma vez que possui elevados níveis de aminoácidos de cadeia ramificada, importantes para prevenir degradação do tecido muscular, permanecem solúveis no estômago e são rapidamente digeridos.

Carnes, aves, peixes, ovos, leite e derivados lácteos devem ser incentivados ainda nos primeiros meses de pós-operatório, de acordo com o protocolo de evolução da dieta. A ingestão de proteína deve ser avaliada periodicamente, em cada consulta nutricional. Na presença de deficiência proteica clínica ou subclínica, mesmo na ausência de vômitos ou intolerância alimentar, os pacientes devem ser tratados com dieta hiper proteica.

BORDALO, Livia Azevedo et al. Cirurgia bariátrica: como e por que suplementar. Revista da Associação Médica Brasileira, v. 57, n. 1, p. 113-120, 2011.

DOS SANTOS, Mariana Varela. A importância da suplementação em indivíduos submetidos a cirurgia bariátrica–by pass gástrico, UNIFACVEST, CENTRO UNIVERSITÁRIO

SBCBM (Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica), 2017. Disponível em: https://www.sbcbm.org.br/tecnicas-cirurgicas-bariatrica/. Acesso em 26 de junho de 2022