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Conhecendo a Spirulina

Por Isabella Brescia

O termo  Spirulina  (sinônimo  de  Arthrospira)  se  refere  a  um  grande  número  de  espécies  de  bactérias  que  pertencem  ao  filo  Cyanobacteria.  As cianobactérias são organismos         procariotos         fotossintetizantes;    eram     anteriormente     denominadas     algas     verdes-azuis.    Atualmente    se    sabe    que    não    estabelecem    relação   filogenética   com   o   grupo   das   algas, no   entanto,   são   usualmente    denominadas    microalgas    pela    maior    parte    da    literatura.

As  aplicações  terapêuticas  sugeridas  para  as  cianobactérias  são extremamente       diversificadas,       abrangendo:       inibição       da    replicação    viral;    atividade    antitumoral,    redução    da    hipercolesterolemia      e      outras      hiperlipidemias,      efeito      antidiabetogênico,   efeito   anti-hipertensivo,   modulador   do  sistema  imunológico e  regulador  da  resposta  alérgica, aumento da absorção intestinal de vitaminas e minerais, aumento dos   lactobacilos   intestinais;   coadjuvante   no   tratamento   de   indivíduos obesos, anêmicos e redução da nefrotoxicidade por metais pesados e medicamentos.

A  utilização  da  cianobactéria  Spirulina  na  alimentação  humana  tem    sido    realizada    por    vários    séculos.    Quando    os    espanhóis    conquistaram  o  México,  descobriram  que  os  astecas  coletavam  essa  microalga no lago Texcoco e a consumiam na forma de molho à base de  cereais,  conhecido  como  chimolli  ou  molho  asteca.  Na  África,  a  comunidade  étnica  dos  Kanembous  colhia  a  Spirulina  no  lago  Chad,  a  desidratava  e  moldava  em  tabletes  para  a  venda  no  mercado  local.  Os  Kanembous  também  preparavam  o  dihé,  um  molho  à  base  de  Spirulina,  salsa  e  pimenta,  utilizado  para  acompanhar  preparações  à  base  de  milho,  carnes  e  peixes,  sendo  consumido  em  70%  das  refeições kanembous.

Um estudo conduzido  com  quarenta  voluntários  de  ambos  os  sexos,  de  cinquenta  anos  ou  mais,  que  não  possuíam  histórico de doenças crônicas, evidenciou um aumento constante dos   valores   médios   de   hemoglobina   corpuscular   média   em   indivíduos  de  ambos  os  sexos.  Além  disso,  o  volume  corpuscular  médio   e   a   concentração   de   hemoglobina   corpuscular   média   também   aumentaram   em   participantes   do   sexo   masculino.   As   mulheres   com   mais   idade   pareceram   se   beneficiar   mais   rapidamente  da  suplementação  de  Spirulina.  Os  pacientes  não  faziam  utilização  de  suplemento  férrico  medicamentoso  e  foram  avaliados  no  início  e  após  seis  e  doze  meses  de  tratamento.  O   trabalho   também   avaliou   a   influência   da   suplementação   de   Spirulina   na   função   imunológica,   e   teve   como   conclusão   que  a  Spirulina  pode  melhorar  a  anemia  e  imunossenescência  em  indivíduos  com  mais  idade.  Essas  evidências  apontam  sobre  o  teor  de  minerais  da  Spirulina,  bem como de seus efeitos moduladores sobre a mucosa intestinal, que  podem  favorecer  o  transporte  de  nutrientes  envolvidos  na hematopoiese.

Estudos  têm  avaliado  a  atividade  antioxidante  de  microalgas. Os compostos responsáveis por  essa  atividade  antioxidante  são  os  carotenoides,  tocoferóis,  compostos  fenólicos  e,  mais  recentemente,  as  ficobiliproteínas  aloficocianina, ficocianina e ficoeritrina que são os principais pigmentos das cianobactérias. Já são conhecidos    mecanismos    antioxidantes    exercidos  por  carotenoides,  tocoferóis  e  compostos  fenólicos, e há  três  hipóteses  principais  para  que  as  ficobiliproteínas  exerçam  seu  efeito  protetor.  A  primeira  seria  devido  à  própria  estrutura  química que atuaria neutralizando  as  espécies  reativas  de  oxigênio  e  nitrogênio;  essa  hipótese  tem  sido  demonstrada  tanto  in  vitro,  quanto  in  vivo.  A  segunda   seria   devida   às   propriedades   quelantes   de   minerais,   e   a   terceira   envolveria   o   incremento   do   sistema   enzimático   antioxidante, detectado pelo aumento da atividade detoxificadora da catalase.

Analisando  o  efeito  da  suplementação  oral de Spirulina (4 g/dia por seis semanas) nos parâmetros séricos (lipídios,  glicose,  aminotransferases)  e  na  pressão  sanguínea  de  36   indivíduos   adultos,   observaram   um   efeito   hipolipidêmico,   especialmente para os triacilgliceróis e para o colesterol LDL, mas também  indiretamente  para  o  colesterol  total;  também  ocorreu  redução da pressão sanguínea sistólica e da diastólica.

Ravi et  al.  (2010),  em  seu  trabalho  de  revisão  sobre  as  propriedades  imunomoduladoras  e  antioxidantes  de  Spirulina,  ressaltaram,  entre  outros  efeitos,  a  estimulação  da  produção  de  citocinas  e  anticorpos,  a  promoção  da  atividade  de  macrófagos,  linfócitos  T  e  B,  incluindo  principalmente  as  células  Natural  killers  (NK).   Dados   expostos   pelo   mesmo   trabalho   relataram   que   o   pigmento  ficocianina  exerceu  atividade  imunomodulatória  do  por  meio  de  um  efeito  inibitório  sobre  a  liberação  de  histamina   pelos   mastócitos   durante   a   resposta   alérgica.   Além   disso,  esse  pigmento  também  suprimiu  o  crescimento  de  células  tumorais,  promovendo  a  atividade  das  células  NK  e  induzindo  linfócitos do baço a produzirem o fator de necrose tumoral TNF-α.

Já  foi  sugerido em estudos que  a  ingestão  diária  de  Spirulina  de  6  g/dia  para  um  adulto  seria  caracterizado  como  alto  consumo;  3  g/dia,  consumo  médio  e  3  –  12  g/mês,  baixo  consumo  sendo  a  ingestão  contemporânea  de  1  –  5  g/dia.    Estudos  clínicos  recentes  indicam  que  uma  ingestão  de  cerca  de  10  g/dia  por  seis  meses  não  induziu  efeitos  adversos.

Apesar do exposto, é importante destacar que  uma  dieta  equilibrada   é   precedente   e   essencial   ao   estabelecimento   do   estado    nutricional    adequado.    Nenhum    alimento    pode    ser    considerado como solução isolada para o tratamento e a redução de riscos associados a qualquer doença crônica não transmissível.

Referência bibliográfica

DE OLIVEIRA, Cristiane Alves et al. Potencial nutricional, funcional e terapêutico da cianobactéria spirulina. Revista da Associação Brasileira de Nutrição-RASBRAN, v. 5, n. 1, p. 52-59, 2013.

RAVI  M,  De  SL,  Azharuddin  S,  Paul  SFD.  The  beneficial  effects  of  Spirulina  focusing  on  its  immunomodulatory and antioxidant properties. Nutr and Diet Suppl. 2010;2:73–83.

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IMUNONUTRIÇÃO NO PACIENTE ONCOLÓGICO

Por Isabella Brescia

A alta incidência de desnutrição em pacientes com câncer é multifatorial, e está principalmente atribuída à localização tumoral e aos distúrbios de má absorção e ingestão, repercutindo em deficiências e desequilíbrios nutricionais que refletem em perda de peso, alteração da composição corporal e pior prognóstico. A terapia e a intervenção nutricional devem ser instituídas precocemente, desde o diagnóstico, e continuadas durante todo o tratamento, com o objetivo de manter o estado nutricional, melhorar a performance clínica ao tratamento, minimizar efeitos colaterais e favorecer tanto a qualidade de vida quanto a sobrevida em pacientes oncológicos. Estratégias nutricionais são atualizadas e utilizadas para diminuir os efeitos inflamatórios e catabólicos do câncer, sendo assim, nutrientes especializados, anti-catabólicos e supressores da inflamação são sugeridos e devem ser considerados como parte da intervenção.

A terapia nutricional denominada de imunonutrição tem como objetivo a modulação da resposta inflamatória e a melhora de função imune, almejando a diminuição de complicações no pós-operatório e no estado nutricional do paciente. A oferta da imunização é indicada independentemente do estado nutricional no período perioperatório, ou seja, entre cinco a dez dias tanto no pré quanto no pós-operatório de cirurgia de médio e grande porte, essa terapia nutricional pode ser feita por suplementação oral ou por via enteral, quando necessária. A literatura científica comprova os benefícios de uma dieta com combinação de nutrientes específicos como arginina, ácidos graxos ômega-3 e nucleotídeos.

A arginina é um aminoácido semiessencial, ou seja, é sintetizado pelo organismo e fornecido pela alimentação, porém, torna-se essencial quando o corpo entra em situação de catabolismo e hipercatabolismo.  A arginina atua sobre o sistema imune pela proliferação do linfócito T  tornando-se fundamental para o paciente cirúrgico, também por atuar como estimulante de síntese proteica, na produção de prolina para formação de colágeno e melhora da cicatrização , na liberação de óxido nítrico (ON) que regula a expressão gênica e estimula a imunidade mediada por células, regula a pressão sanguínea e perfusão tecidual, como atividade antimicrobiana e antitumoral, na desintoxicação de amônia e na liberação de hormônios e biossíntese de poliamida e creatina. No entanto, quando a arginina se esgota, as células geram superóxido ao invés de óxido nítrico, e o superóxido leva à lesão celular como resultado.

Os ácidos graxos ômega-3, derivados de óleo de peixe e de canola, têm a principal característica de atuarem como lipídios anti-inflamatórios, reduzindo as concentrações de mediadores inflamatórios, como a proteína c-reativa (PCR), citocinas pró-inflamatórias eicosanóides e quimiocinas. Além disso, são essenciais para a síntese de mediadores e reguladores da inflamação, como eicosanóides, leucotrienos, prostaglandinas e tromboxanos que têm as funções de reduzir a agregação plaquetária, diminuir o potencial pró-inflamatório e fazer a imunomodulação na resposta inflamatória.

Os nucleotídeos são os precursores dos ácidos nucleicos DNA e RNA, necessários para a síntese de proteínas celulares e fundamentais para a homeostase do sistema imunológico de indivíduos adultos, sendo o RNA responsável pelo aumento da contagem total de linfócitos (células de defesa do organismo), melhorando a resposta imunocelular e a resposta contra infecções, além de sua importância para a transferência de energia química nas células, por participar também da formação de trifosfato de adenosina (ATP).

Estudos tem demonstrado que os imunonutrientes arginina, ácidos graxos ômega-3 e nucleotídeos trouxeram benefícios para a saúde dos pacientes quando combinados em níveis terapêuticos para modular especificamente o sistema imunológico contra a alteração de vias inflamatórias e metabólicas. A imunonutrição fornecida a pacientes bem nutridos e desnutridos têm mostrado benefícios, o que sustenta a premissa de que uma combinação de imunonutrientes incluídos nas dietas de reforço imunológico podem ter um efeito farmacoterapêutico benéfico além de fornecer energia, proteínas, vitaminas e minerais para suporte nutricional.

Contudo, fica evidente que o manejo nutricional tanto em pacientes com tumores gástricos, como em demais sítios tumorais, é fundamental e um pilar necessário durante a jornada de tratamento. Estratégias e orientações nutricionais devem atender às necessidades metabólicas dos pacientes oncológicos, além de favorecer e gerenciar o estado nutricional, manejo de sintomas, da ingestão nutricional e diminuir a toxicidade. A utilização de suplementos nutricionais orais (SNO) é uma das principais formas para alcançar esses resultados e de fornecer energia e proteínas àqueles que enfrentam dificuldades para atingir suas necessidades nutricionais, bem como, em fornecer nutrientes específicos para atenuar as alterações metabólicas, catabolismo e inflamação persistente inerente ao câncer e às terapias antineoplásicas.

A prescrição de SNO deve ser recomendada a todos os pacientes com câncer em risco nutricional e/ou desnutridos e que estejam em tratamento. Em casos de terapias antineoplásicas, o SNO é indicado de forma precoce, ou seja, no início do tratamento, mesmo sem o paciente apresentar déficit na ingestão alimentar e/ou alteração da composição corporal, visto que o objetivo da intervenção é manter a adequação alimentar, estado nutricional e favorecer a resposta metabólica. Pacientes oncológicos sob alto risco nutricional (trato gastrointestinal, câncer de cabeça e pescoço e pulmão) apresentam benefício da intervenção nutricional precoce, reduzindo a prevalência de desnutrição e sintomas relacionados aos tratamentos.

Dentre as estratégias nutricionais, nutrientes especializados devem ser considerados, para diminuir os efeitos colaterais, inflamatórios e catabólicos. Alguns estudos têm demonstrado benefícios do uso da imunonutrição em pacientes submetidos ao tratamento sistêmico, devido à ação de modulação do sistema imune e por influenciar ganho de peso, massa magra, estado funcional, qualidade de vida e melhora na tolerância do tratamento.

Referência bibliográfica

FRAGA, Flávia Pereira da Silva Cipriano et al. NUTRIÇÃO E IMUNIDADE NO TRATAMENTO ONCOLÓGICO. Estudos Avançados sobre Saúde e Natureza, v. 3, 2022.

MATTOS, Cecília et al. PREPARO IMUNOLÓGICO NO TRATAMENTO ANTINEOPLÁSICO: O IMPACTO DA IMUNONUTRIÇÃO ORAL COMO ESTRATÉGIA TERAPÊUTICA EM PACIENTE COM ADENOCARCINOMA DE TRANSIÇÃO ESOFAGOGÁSTRICA. Relato de caso. BRASPEN J 2022; 37 (1): 109-14

MINUZZI, Larissa. IMUNONUTRIÇÃO PRÉ E PÓS OPERATÓRIO DE PACIENTES ONCOLÓGICOS. 2022.

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FIBRAS E NUTRIÇÃO ENTERAL

Por Isabella Brescia

As complicações associadas com a nutrição enteral (NE)  não são incomuns, sendo a diarreia um sinal importante de intolerância. A atividade metabólica da microbiota luminal pode ser comprometida, afetando a resistência à colonização e contribuindo para complicações. Consequentemente, são de grande interesse as formulações de NE que tenham um efeito positivo na microbiota e função intestinal, que proporcionem um suporte nutricional apropriado para os pacientes.

Dentre as aplicações da fibra na nutrição enteral podemos citar o gerenciamento da função  intestinal, a intensificação da função absortiva e integridade do intestino, a manutenção da barreira intestinal, a melhora da tolerância à glicose e do perfil lipídico do sangue e a normalização da microbiota intestinal. Um grande número de estudos avaliou a tolerabilidade ao conteúdo de fibras e na redução de sintomas gastrointestinais. Há ampla evidência de efeitos positivos das fórmulas enterais enriquecidas com fibras, que podem estimular o crescimento de bactérias benéficas, inibindo o desenvolvimento de bactérias nocivas.

Spapen et al. investigaram o efeito de fórmulas enterais enriquecidas com fibra no controle da diarreia em pacientes com sepse grave, os quais receberam dieta enteral suplementada com 22g/l de goma guar parcialmente hidrolisada ou dieta padrão (normocalórica e normoproteica), sem fibras, como controle. Os autores encontraram que os pacientes com dieta enteral com fibras tiveram menor frequência diária de diarreia, menor número de dias de diarreia por dias totais de internação e menor escore de diarreia, baseado em volume e consistência das fezes.

Nakao; investigou a utilidade da fibra alimentar solúvel no tratamento de diarreia durante a nutrição enteral em pacientes idosos. A suplementação inicial foi de 7g/dia de fibras solúvel (galactomananas), sendo aumentada semanalmente até 28g/dia, no final do período de intervenção de quatro semanas. Após administração de fibra solúvel, houve redução significativa no conteúdo de água nas fezes, na frequência diária de movimentos intestinais e no pH fecal. Houve melhora nas características das fezes e aumento significativo no nível total de ácidos graxos de cadeia curta.

Trier et al. verificaram a tolerância e o efeito na função gastrintestinal de uma fórmula pediátrica, polimérica, enriquecida com uma mistura de seis fibras, comparada com a mesma fórmula sem fibras. O estudo duplo-cego, randomizado, incluiu 16 crianças com terapia de nutrição enteral por 14 dias. Com o uso da fórmula suplementada com a mistura de fibras, houve redução significativa no número de dias de constipação e no uso de laxantes.

Chittawatanarat et al., após 14 dias de intervenção, identificaram que os episódios de diarreia foram significantemente mais baixos no grupo com fibras do que no grupo sem fibras. A proporção geral de incidência de diarreia por 100 dias de nutrição enteral, foi significantemente mais baixa no grupo que recebeu fibras, mesmo quando a nutrição teve início após os pacientes terem recebido antibióticos de amplo espectro.

Considerando-se o esvaziamento e volume gástrico residual, os estudos não observaram diferenças entre o grupo que recebeu suplementação com fibras e o grupo controle. Três artigos demonstraram que os vômitos foram menos frequentes no grupo que recebeu suplementação com fibras, mas as diferenças foram não significantes. Alguns estudos mencionaram distensão abdominal, mas não detectaram diferenças clinicamente importantes (a distensão abdominal foi similar em ambos os grupos, ou a distensão foi menos observada no grupo controle).

A American Society for Parenteral and Enteral Nutrition (ASPEN) recomendou, em recente publicação, a utilização apenas de fibras solúveis para pacientes graves hemodinamicamente estáveis que desenvolvam diarreia. O uso de fibras solúveis em todos os pacientes que se encontrem hemodinamicamente estáveis é seguro e pode ser considerado benéfico para redução dos sintomas gastrintestinais, principalmente da diarreia. Adicionalmente, o uso de fibras insolúveis para pacientes graves em geral foi contraindicado. Ambos os tipos de fibras devem ser evitados para pacientes em risco de isquemia mesentérica ou comprometimento grave da motilidade.

Referência Bibliográfica

CATALANI, Lidiane Aparecida et al. Fibras alimentares. Rev Bras Nutr Clin, v. 18, n. 4, p. 178-82, 2003.

Chittawatanarat K, Pokawinpudisnun P, Polbhakdee Y. Mixed fibers diet in surgical ICU septic patients. Asia Pac J Clin Nutr. 2010;19(4):458-64.

Nakao M, Ogura Y, Satake S, Ito M, Ugushi A, Takagi K, et al. Usefulness of soluble dietary fiber for the treatment of diarrhea during enteral nutrition in elderly patients. Nutrition 2002; 18(1):35-9. 24.

REIS, Audrey Machado dos et al. Uso de fibras dietéticas em nutrição enteral de pacientes graves: uma revisão sistemática. Revista Brasileira de terapia intensiva, v. 30, p. 358-365, 2018.

Spapen H, Diltoer M, Van Malderen C, Pondenacker G, Suys E, Huyghens L. Soluble fiber reduces the incidence of diarrhea in the septic patients receiving total enteral nutrition: a prospective, double-blind, randomized and controlled trial. Clin Nutr 2001; 20(4):301-5. 23.

Trier E, Wells JCK, Tomas AG. J Pediatr Gastroenterol. Nutrition 1999; 28:959 2

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A INGESTÃO DE FIBRAS E SUA AÇÃO NO ORGANISMO

Por Isabella Brescia

Fibra alimentar é a parte comestível de plantas ou carboidratos análogos que são resistentes à digestão e absorção no intestino delgado de humanos, com fermentação completa ou parcial no intestino grosso de humanos. A fibra alimentar inclui polissacarídeos vegetais, como celulose, hemiceluloses, pectinas, gomas e mucilagens, oligossacarídeos e lignina.
De acordo com a solubilidade em água de seus componentes, as fibras alimentares podem ser agrupadas em duas grandes categorias: fibras solúveis e fibras insolúveis.
As fibras solúveis incluem a maioria das pectinas, gomas, mucilagens e hemiceluloses. São encontradas em frutas, farelo de aveia, cevada e leguminosas (feijão, lentilha, ervilha e grão de bico). A fibra solúvel é responsável pelo aumento do tempo de trânsito intestinal e está relacionada à diminuição do esvaziamento gástrico, ao retardo da absorção de glicose, diminuição da glicemia pós-prandial e redução do colesterol sanguíneo devido às suas propriedades físicas que conferem viscosidade ao conteúdo luminal. No cólon, as fibras solúveis são fermentadas pelas bactérias intestinais, produzindo ácidos graxos de cadeia curta (acético, butírico e propiônico). Estes ácidos graxos são responsáveis por regular a proliferação epitelial e diferenciação da mucosa colônica (butirato); aumentar o fluxo sanguíneo e produção de muco; constituir fonte energética preferencial para os colonócitos (butirato); reduzir o pH no cólon, com efeito no equilíbrio da microflora intestinal; estimular a absorção de sódio e água; exercer efeito sobre o metabolismo lipídico (propionato) e glicídico (acetato e propionato); estimular a secreção pancreática e de outros hormônios.
As fibras insolúveis contribuem para o aumento do volume do bolo fecal, redução do tempo de trânsito intestinal, retardo da absorção de glicose e retardo da hidrólise do amido. Incluem a celulose, a lignina e algumas hemiceluloses e mucilagens. São encontradas em maior quantidade no farelo de trigo, nos cereais integrais e seus produtos, nas raízes e nas hortaliças. Geralmente, não sofrem fermentação, de maneira que, quando esta ocorre, ela se dá de forma lenta. Proporcionalmente, a fração insolúvel das fibras é a mais abundante, constituindo cerca de 2/3 da fibra alimentar de uma dieta composta por variados alimentos de origem vegetal.
Recentemente, o conceito de fibras foi ampliado de modo a incluir substâncias funcionalmente semelhantes: amido resistente, inulina e frutooligossacarídeos (FOS). O amido resistente é definido como a soma do amido e dos produtos da sua degradação que não são absorvidos pelo intestino delgado, contribuindo para aumentar a quantidade de fibra alimentar que chega intacto ao cólon. Apresenta efeitos fisiológicos semelhantes aos da fibra alimentar, dentre os quais destacam-se: capacidade de aumentar o volume fecal e diluir compostos potencialmente tóxicos e cancerígenos; reduzir níveis plasmáticos pós-prandiais de glicose, insulina, triglicérides e lipoproteínas de baixa densidade; produzir ácidos graxos de cadeia curta. A inulina é o polímero de glicose extraído da raiz de chicória, tubérculos de alcachofra, da cebola, do alho, da banana ou produzido industrialmente a partir da sacarose.
Os fruto-oligossacarídeos (FOS) são polissacarídeos de cadeia, cuja semelhança com as fibras está na ausência de degradação pelas enzimas digestivas do homem e na capacidade de permitir fermentação pelas bactérias do cólon intestinal, formando ácidos graxos de cadeia curta que exercem efeitos tróficos na mucosa intestinal. Os FOS diferem das fibras alimentares por não possuírem as características de reter líquidos, de aumentar a viscosidade quelando os minerais e de aumentar o bolo fecal.
A inulina e os fruto-oligossacarídeos (FOS) são considerados prebióticos, por serem ingredientes alimentares não digeridos no intestino delgado que, ao atingir o intestino grosso, são metabolizados seletivamente por um número limitado de bactérias benéficas, que alteram a microflora colônica, gerando uma microflora bacteriana saudável, capaz de induzir efeitos fisiológicos importantes para a saúde.
Para adultos, geralmente, recomenda-se ingestão de 20g a 35g de fibra alimentar por dia ou 10g a 13g de fibra alimentar por 1000 kcal. As informações nutricionais dos rótulos de alimentos baseiam-se nos valores de 25 g/dia para uma dieta de 2000 kcal ou 30 g/dia para uma dieta de 2500 kcal como meta para a população americana. O programa norte-americano denominado National Cholesterol Education Program (NCEP) recomenda o consumo de 20g a 30g de fibras por dia como parte da meta para Mudanças Terapêuticas de Estilo de Vida na redução do colesterol sérico. Para maior redução de LDL-colesterol, o NCEP recomenda o consumo de 10 g/dia a 25g/dia de fibras solúveis.
Ainda não foram publicadas recomendações específicas de fibras para idosos, de maneira que o consumo de 10g a 13g de fibra alimentar por 1000 kcal com adequada ingestão hídrica poderia ser recomendada com segurança para este grupo.
Quanto às crianças, não existem recomendações para as menores de dois anos de idade, sendo sugerida introdução de frutas, hortaliças e cereais de fácil digestão no período de transição da dieta. Para crianças acima de dois anos, recomenda-se o consumo igual à idade da criança acrescido de 5g, podendo chegar no máximo até o valor da idade mais 10 g/dia. O Comitê de Nutrição da Academia Americana de Pediatria recomenda que a quantidade de fibra alimentar seja de 0,5g/Kg/dia. A partir da adolescência, preconizam que a ingestão média de fibras na alimentação deve ser em torno de 30 gramas por dia, através de alimentos variados ricos em fibras como frutas, verduras, farelos e grãos integrais.
A quantidade de fibra ingerida é inversamente proporcional ao tempo de trânsito intestinal e diretamente proporcional ao peso/ volume das fezes, pois com suas qualidades particulares ela promove a retenção de água e o aumento do bolo fecal com resíduos de fibras insolúveis, sais, ácidos biliares e outros, com o volume aumentado pela capacidade hidrofílica há o amolecimento das fezes, promovendo o movimento peristáltico, o que leva ao aumento da progressão fecal e da frequência de evacuação. Assim, a inclusão de fibras terá como principal efeito o bifidogênico, que é o estimulo da motilidade intestinal e contribuição na formação de consistência das fezes.
As fibras alimentares têm sido investigadas no tratamento e prevenção da obesidade, por aumentarem a saciedade, reduzirem a sensação de fome e a ingestão energética. As fibras alimentares podem influenciar a regulação do peso corpóreo através de mecanismos fisiológicos que envolvem efeitos hormonais e colônicos. Esses mecanismos agem reduzindo a ingestão alimentar pela promoção da saciedade, pelo aumento na oxidação de lipídios e na redução das reservas corporais de gordura.
A fibra alimentar possui a capacidade de melhorar a homeostase da glicose nos indivíduos diabéticos. Isso ocorre devido à retenção de líquidos causada pela fibra solúvel no intestino, diminuição da acessibilidade da enzima pancreática em alcançar os polissacarídeos da dieta pelo aumento da viscosidade do quimo e reduzindo a difusão da glicose pelo enterócito. A fibra tem efeito sobre a liberação de hormônios gastrintestinais, como o peptídeo inibidor gastrointestinal (GIP), a colecistocinina e o glucagon entérico que, juntamente com o estímulo parassimpático, retardam o esvaziamento gástrico, aumentam a motilidade intestinal e a liberação de glicose pelo pâncreas.
Dentre as aplicações da fibra na nutrição enteral podemos citar o gerenciamento da função do intestino, a intensificação da função absortiva e integridade do intestino, a manutenção da barreira intestinal, a melhora da tolerância à glicose e do perfil lipídico do sangue, normalização da microflora intestinal.

Referência bibliográfica
CATALANI, Lidiane Aparecida et al. Fibras alimentares. Rev Bras Nutr Clin, v. 18, n. 4, p. 178-82, 2003.
Raizel R, Santini E, Kopper AM, Filho ADR. Efeitos do consumo de probióticos, prebióticos e simbióticos para o organismo humano. Revista Ciência & Saúde 2011 Disponível em: http://revistaseletronicas.pucrs.br/ojs/index.php/faenfi/article/view/8352/7257.

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SUPLEMENTAÇÃO PROTEICA NO IDOSO

Por Isabella Brescia

A massa muscular é resultado da regulação entre catabolismo e síntese proteica. O equilíbrio proteico é a diferença entre a síntese das proteínas musculares e sua degradação. Quando a degradação é maior que a síntese, ocorre um balanço negativo, o que leva a um declínio não desejável da massa muscular em idosos. Os fatores responsáveis por essa degradação são físicos, químicos, metabólicos e nutricionais. Os fatores catabólicos, ou seja, fatores que contribuem com a diminuição da massa muscular, englobam a denervação, o desuso muscular, o estresse oxidativo, as citocinas pró-inflamatórias, a acidose, a resistência insulínica e os hormônios glicocorticoides. No entanto, o não uso da massa muscular (sedentarismo), acompanhado de estresse oxidativo, torna-se um dos maiores fatores determinantes do declínio dessa massa. É tendência natural, dessa forma, que a massa muscular diminua e que o padrão de distribuição da gordura corporal se modifique, levando ao aumento dos tecidos gordurosos das pernas e dos braços.

Com o avanço da idade, observa-se um declínio progressivo de massa muscular e, consequentemente, uma simultânea redução da força. A sarcopenia é definida como a perda progressiva de massa muscular, associada à redução da força e/ou função do músculo, sendo apontada como a principal responsável pela deterioração da capacidade funcional do indivíduo que está envelhecendo, afetando a capacidade de realizar movimentos, contração muscular e locomoção.

Em 13% a 24% dos indivíduos entre 60 e 70 anos de idade, e em mais de 50% daqueles acima de 80 anos é possível encontrar o diagnóstico da sarcopenia. A partir dos 75 anos, a prevalência da sarcopenia torna-se maior em homens (58%) que em mulheres (45%), podendo ser devido à diminuição na secreção do hormônio do crescimento (GH) e até pela redução dos níveis de testosterona.

Perda de dentição, alterações nas percepções sensoriais, diminuição de motilidade gástrica, constipação, alteração nos níveis e mecanismos de ação de determinados hormônios são as principais alterações fisiológicas relacionadas à diminuição da ingestão alimentar e consequentemente proteica, pelos idosos. A ingestão de proteínas é importante para o organismo devido à necessidade da presença de aminoácidos para importantes funções estruturais, motoras, metabólicas, hormonais e imunológicas. Muitas doenças e traumas aumentam o catabolismo proteico e a necessidade de proteína. A composição de aminoácidos da proteína ingerida pode afetar a eficiência da proteína ingerida e, consequentemente, das necessidades proteicas.

Segundo recomendações de nutrientes Dietary Reference Intakes (DRI – DIETARY REFERENCE INTAKES) com fundamento em análises de estudos de balanço nitrogenado em humanos, a ingestão dietética recomendada (RDA) de proteína de alto valor biológico para indivíduos saudáveis de ambos os sexos é de 0,8 g/kg de peso corporal por dia. De acordo com Salgado (2002), o consumo de proteínas para idosos saudáveis deve preencher 15% das necessidades calóricas diárias. Em momentos críticos de perda de peso e estados hipercatabólicos, recomendam-se ingestões que podem chegar até 1,5 g/kg/dia. As ingestões recomendadas de proteínas podem ser menores no caso de alterações hepáticas e renais.

O consumo adequado de proteínas, tanto para o aumento de massa muscular quanto para a sua manutenção a longo prazo e não somente como forma profilática por meio de suplementação e fontes proteicas de qualidade, por indivíduos idosos, auxilia diretamente no retardo do inevitável declínio de massa muscular e prolonga o aparecimento da sarcopenia e seus efeitos deletérios.

Referência Bibliográfica

CORONA, Ligiana Pires. Prevenção da sarcopenia no idoso. Revista Kairós-Gerontologia, v. 23, p. 117-127, 2020.

RIBEIRO, Luís Eduardo Guieu Galvão Telles. Adequação energético-proteica em idosos com sarcopenia: resultados do International Mobility In Aging Study–IMIAS Brasil. 2019.  Universidade Federal do Rio Grande do Norte.

SALGADO, J. M. Nutrição na terceira idade. In: BRUNETTI, R. F.; MONTENEGRO, F. L. B. Odontogeriatria: noções e conceitos de interesse clínico. São Paulo: Artes Médicas, 2002. p. 62-70.

SOUSA, Valéria Maria Caselato de; MARUCCI, Maria de Fátima Nunes; SGARBIERI, Valdemiro Carlos. Necessidades de proteínas para a população idosa: revisão. Nutrire Rev. Soc. Bras. Aliment. Nutr, p. 199-209, 2009.

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WHEY PROTEIN E SEUS BENEFÍCIOS

Por Isabella Brescia

Nas últimas décadas, numerosas pesquisas vêm demonstrando as qualidades nutricionais das proteínas solúveis do soro do leite, também conhecidas como whey protein. As proteínas do soro são extraídas da porção aquosa do leite, gerada durante o processo de fabricação do queijo. Durante décadas, essa parte do leite era dispensada pela indústria de alimentos. Somente a partir da década de 70, os cientistas passaram a estudar as propriedades dessas proteínas.

Assim, as formas mais utilizadas, sobretudo, por suas vantagens evidenciadas, são owheyprotein concentrate(WPC) e o whey protein isolate(WPI). O WPC é o produto obtido por um processo de filtração simples, com o intuito de remover os constituintes não proteicos do soro, de forma que o produto final seco contenha, em geral, de 35% a 80% de proteínas. Já o WPI passa por uma filtração mais complexa e é a forma comercial mais pura das proteínas do soro, contendo mais de 80% de teor proteico. Dentre os tipos temos também o hidrolisado, essa é a única forma a qual sofreu hidrólise enzimática, ela possui a maior a velocidade de absorção pelo organismo e contém cerca de 92% de proteína em sua composição.

Atletas, praticantes de atividades físicas, pessoas fisicamente ativas e portadores de doenças, vêm procurando benefícios nessa fonte proteica. Evidências recentes sustentam a teoria de que as proteínas do leite, incluindo as proteínas do soro, além de seu alto valor biológico, possuem peptídeos bioativos, que atuam como agentes antimicrobianos, anti-hipertensivos, reguladores da função imune, assim como fatores de crescimento.

A diminuição da massa muscular esquelética está associada à idade e à inatividade física. Já está suficientemente comprovado que a manutenção ou o ganho de massa muscular esquelética, principalmente em pessoas idosas, contribui para uma melhor qualidade e prolongamento da vida. Exercícios físicos, principalmente os resistidos com pesos, são de extrema importância para impedir a trofia e favorecer o processo de hipertrofia muscular, melhorando a qualidade de vida dos indivíduos. Além disso, a nutrição exerce papel fundamental nesse processo. Pessoas fisicamente ativas e atletas necessitam de maior quantidade proteica que as estabelecidas para indivíduos sedentários.

Pessoas envolvidas em treinos de resistência necessitam de 1,2 a 1,4g de proteína por quilograma de peso ao dia, enquanto atletas de força, 1,6 a 1,7g por kg de peso/dia, bem superior aos 0,8-1,0g por kg de peso/dia estabelecidos para indivíduos sedentários. A ingestão de proteína ou aminoácidos, após exercícios físicos, favorece a recuperação e a síntese proteica muscular. O perfil de aminoácidos das proteínas do soro, principalmente ricas em leucina, pode, desta forma, favorecer o anabolismo muscular. Além disso, o perfil de aminoácidos das proteínas do soro é muito similar ao das proteínas do músculo esquelético, fornecendo quase todos os aminoácidos em proporção similar as do mesmo, classificando-as como um efetivo suplemento anabólico.

O conceito de proteínas com diferentes velocidades de absorção tem sido, recentemente, utilizado por profissionais e cientistas que trabalham com desempenho físico. Estudos demonstram que as proteínas do soro são absorvidas mais rapidamente que outras, como a caseína, por exemplo. Essa rápida absorção faz com que as concentrações plasmáticas de muitos aminoácidos, inclusive a leucina, atinjam altos valores logo após a sua ingestão. Além de aumentar as concentrações plasmáticas de aminoácidos, a ingestão de soluções contendo as proteínas do soro aumenta, significativamente, a concentração de insulina plasmática, o que favorece a captação de aminoácidos para o interior da célula muscular, otimizando a síntese e reduzindo o catabolismo proteico. O aumento na concentração de BCAA, induzido pelas proteínas do soro, pode atuar também inibindo a degradação proteica muscular.

Resumindo, seus benefícios sobre o ganho de massa muscular estão relacionados ao perfil de aminoácidos, principalmente da leucina (um importante desencadeador da síntese proteica), a rápida absorção intestinal de seus aminoácidos e peptídeos e à sua ação sobre a liberação de hormônios anabólicos, como, por exemplo, a insulina.

A colecistoquinina (CCK) e o peptídeo similar ao glucagon (GLP-1) são dois hormônios intestinais amplamente estudados. A liberação desses hormônios na corrente sanguínea ocorre em presença de macronutrientes no duodeno, produzindo efeito supressor do apetite. Comparando as duas principais proteínas do leite, caseína e as proteínas do soro, Hall et al. estudaram seus efeitos sobre o apetite, percepção de fome, saciedade e hormônios gastrintestinais. Observaram que, quando os voluntários ingeriam uma solução contendo 48g de proteínas do soro, 90 minutos antes da refeição, apresentavam uma redução significativa do apetite, da ingestão energética e aumento da saciedade, em comparação a um grupo que ingeriu a mesma solução contendo caseína. Essa percepção,  estava relacionada às maiores concentrações sanguíneas de CCK e do GLP-1, geradas pela ingestão da solução contendo as proteínas do soro.

Referência bibliográfica

HARAGUCHI, Fabiano Kenji; ABREU, Wilson César de; PAULA, Heberth de. Whey protein: composition, nutritional properties, appications in sports and benefits for human health. Revista de nutrição, v. 19, n. 4, p. 479-488, 2006.

COSTA, Flávia Ribas et al. Proteínas do soro do leite: propriedades funcionais e benefícios para a saúde humana. Lecturas: Educación Física y Deportes, v. 25, n. 272, 2021.

HALL WL, Millward DJ, Long SJ, Morgan LM. Casein and whey exert different effects on plasma amino acids profiles, gastrointestinal hormone secretion and appetite. Brit J Nutr. 2003; 89(2):239-48.

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SUPLEMENTAÇÃO COM COLÁGENO EM DOENÇAS ÓSSEAS

Por Isabella Brescia

O organismo humano passa por diversas fases: a infância, a puberdade, a maturidade ou estabilização e o envelhecimento. O envelhecimento é marcado por várias mudanças já a partir da segunda década de vida. No início, essas mudanças são pouco perceptíveis, porém, ao final da terceira década apresenta alterações funcionais e/ou estruturais importantes que resultam da interação de fatores genéticos, ambientais e estilo de vida.

A osteoporose (OP) constitui na enfermidade do esqueleto uma causa multifatorial, caracterizada pela redução de massa óssea e deterioração da integridade anatômica e estrutural do osso, levando ao aumento da fragilidade óssea e suscetibilidade a fraturas. O grupo mais afetado pela OP são as mulheres idosas cuja diminuição da produção de estrógeno após a menopausa acelera a perda óssea.

As doenças degenerativas articulares evoluem lentamente ao longo de décadas com episódios de dor até chegar à perda de função da articulação.  Quando a atividade de regeneração não é superior a uma degradação em ritmo acelerado, leva a um estado de insuficiência osteo cartilaginosa. Até o momento não há cura e os tratamentos disponíveis, farmacológicos e não farmacológicos, atuam na redução dos sintomas, principalmente dor, inflamação e imobilidade.

A cartilagem articular hialina é um tecido avascular, altamente especializado, que recobre a superfície das articulações constituído por 5% de células, os condrócitos, água, proteoglicanos (sulfato de condroitina e o querato sulfato) colágeno e outras proteínas. A água representa cerca de 65% a 85% do peso seco do tecido, enquanto as principais macromoléculas, como o colágeno e os proteoglicanos, representam cerca de 10% a 30% do peso seco do tecido, respectivamente.

A composição e a complexa organização estrutural entre o colágeno e os proteoglicanos garantem as propriedades inerentes à cartilagem articular, como resistência, elasticidade e compressibilidade, necessárias para dissipar e amortecer as forças, além de reduzir a fricção, a que as articulações estão sujeitas, sem muito gasto de energia. Portanto, a integridade dos componentes da cartilagem articular é essencial para garantir a função normal das articulações.

O colágeno é o principal elemento estrutural que confere resistência ao tecido; sabe-se que além da função de suporte, participa na diferenciação, adesão, migração e proliferação celular. A cartilagem articular é composta primariamente de colágeno tipo II, com pelo menos dez colágenos adicionais, incluindo os tipos III, VI, IX, X, XI e XIII, presentes como menores constituintes.

A molécula de colágeno é composta basicamente por uma sequência repetida de três aminoácidos (Gly-X-Y), em que Gly é o aminoácido glicina; X, quase sempre é prolina e Y, hidroxiprolina ou hidroxilisina. Em geral, o colágeno contém cerca de 30% de glicina, 12% de prolina, 11% de alanina, 10% de hidroxiprolina e 1% de hidroxilisina. Do ponto de vista nutricional, o colágeno é considerado uma proteína de qualidade inferior, pois há predominância dos aminoácidos descritos e quantidade mínima ou ausente da maioria dos aminoácidos essenciais, como triptofano, metionina, cistina e tirosina.Apesar disso, sua importância nutricional torna-se estabelecida por seu perfil atípico de aminoácidos que estimula a síntese de colágeno nas cartilagens e na matriz extracelular de outros tecidos.

O colágeno, assim como as demais proteínas ingeridas, não é absorvido como colágeno. A maior parte da digestão proteica, cerca de 80%, ocorre no duodeno e jejuno pela ação do suco pancreático e apenas 10-20% no estômago pela ação do ácido clorídrico e da pepsina. No intestino delgado ocorre a hidrólise luminal de proteínas e polipeptídios em aminoácidos (AA) livres e pequenos peptídeos pela ação da enteropeptidase, que, em pH neutro, ativa o tripsinogênio e a tripsina, que, por sua vez, promove a ativação das outras propeptidases do suco pancreático. Os AA e pequenos peptídeos são hidrolisados pelas peptidases da borda em escova a AA, di e tripeptideos, que são absorvidos principalmente pelo jejuno proximal por difusão simples, difusão facilitada ou transferência ativa por co-transporte. Os AA são destinados a inúmeras funções, inclusive para a síntese do próprio colágeno.

No tecido conjuntivo, o colágeno tipo I é o mais abundante e a partir dele são obtidos o colágeno parcialmente hidrolisado (gelatina) e o colágeno hidrolisado. A diferença entre o colágeno hidrolisado e a gelatina é que o colágeno hidrolisado é de fácil digestão e absorção,  e apresenta prevalência da glicina e prolina em sua composição. Esses aminoácidos são essenciais para a estabilidade e a regeneração das cartilagens.

O efeito positivo da proteína com a constituição óssea está relacionado à composição, ou seja, 50% do osso é formado por colágeno e a outra metade, por cálcio. Portanto, uma dieta inadequada, não apenas em cálcio, mas também em proteína limitaria a reconstrução óssea.

Algumas pesquisas destacam um conceito de causa diferente à do envelhecimento para as osteoartrites (OA), cuja proposta terapêutica deve abranger todos os aspectos da doença. A patogênese da OA resulta de fatores inflamatórios e mecânicos: inflamatória, em respostas mediadas por condrócitos e sinovióticos; mecânica, associada ao movimento e força física concentrada principalmente nas articulações. A OA seria o resultado da inflamação da articulação na tentativa de corrigir o estresse mecânico anormal. As respostas inflamatórias são maiores em pacientes com OA e aumentadas no envelhecimento, enquanto os mecânicos compõem uma combinação de fatores entre fisiológicos e genéticos, e em ambos a obesidade seria fator agravante. A obesidade eleva a carga sobre a articulação e ativa produção de adipocinas pró-inflamatórias em receptores presentes na superfície dos condrócitos, osteoblastos, membrana sinovial e subcondral.

Existe um consenso de que os efeitos promovidos pela ingestão de peptídeos de colágeno estão relacionados à sua forma hidrolisada. Para os autores, a suplementação alimentar e a farmacológica de CH são justificadas porque apresentam funções biológicas benéficas muito além da redução da dor em pacientes com OA. Além de estarem envolvidos na síntese de matriz de cartilagem, alguns peptídeos de colágeno exibem atividade anti-hipertensiva e cardioprotetora, por meio da regulação do óxido nítrico e da molécula de adesão intercelular e inibição da enzima conversora de angiotensina I, além de atividades antioxidantes em diferentes sistemas oxidativos.

Tanto o envelhecimento quanto a má alimentação podem afetar a demanda de colágeno no corpo. Essas alterações não são perceptíveis nos primeiros estágios da vida, mas vão ficando evidentes na maturidade, fase na qual a ingesta alimentar não supre as necessidades recomendadas tanto de energia, quanto de macro e micronutrientes.Também nessa fase as possibilidades de desenvolver disfunções ósseas e articulares são maiores. Nutrição balanceada é essencial não só para prevenir doenças crônicas, mas também para manter a saúde do corpo e garantir seu funcionamento adequado.

O colágeno hidrolisado tem função terapêutica positiva na osteoporose e osteoartrite, com potencial aumento da densidade mineral óssea, efeito protetor da cartilagem articular e principalmente no alívio sintomático em quadros de dor. Embora não exista na literatura científica pesquisada consenso sobre a dosagem de colágeno hidrolisado a ser administrada, com a suplementação de 8g diária observa-se aumento da concentração de glicina e prolina no plasma e doses equivalentes a 12g diária promovem melhora significativa nos sintomas de osteoartrite e osteoporose. Entretanto, mais estudos são necessários para determinar os fatores patogênicos envolvidos na osteoporose e osteoartrite, seu diagnóstico precoce, e a partir de que estágio da vida seria recomendado o início da suplementação e a dosagem adequada para alcançar significativo potencial terapêutico.

Referência bibliográfica

PORFÍRIO, Elisângela; FANARO, Gustavo Bernardes. Suplementação com colágeno como terapia complementar na prevenção e tratamento de osteoporose e osteoartrite: uma revisão sistemática. Revista Brasileira de Geriatria e Gerontologia, v. 19, p. 153-164, 2016.

VELOSA, Ana Paula P.; TEODORO, Walcy R.; YOSHINARI, Natalino H. Colágeno na cartilagem osteoartrótica. Revista Brasileira de Reumatologia, v. 43, n. 3, p. 160-166, 2003.

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COLÁGENO HIDROLISADO E SEUS BENEFÍCIOS PARA A SAÚDE

Por Isabella Brescia

O colágeno é uma proteína de origem animal, cuja função no organismo é contribuir com a integridade estrutural dos tecidos em que está presente. O colágeno é encontrado nos tecidos conjuntivos do corpo, tais como os ossos, tendões, cartilagens, veias, pele, dentes, bem como nos músculos e na camada córnea dos olhos. Porém, com o início da fase adulta, a deficiência de colágeno começa a ser notada, pois o organismo diminui sua produção.

O colágeno tem sua produção em queda após aos 30 anos, conforme essa diminuição na produção de colágeno ocorre no organismo, é preciso aumentar a ingestão de proteínas para aumentar a síntese de colágeno. As proteínas são nutrientes extremamente importantes para o corpo, desde o DNA até as estruturas da pele, músculos e os órgãos. Por conta dessa alta demanda, o organismo passa a dar menos prioridade para as estruturas como unhas, cabelos, pele e passa a dar mais prioridade ossos, músculos, órgãos e tecidos. Dessa forma a ingestão alimentar, as vezes, se torna insuficiente e por isso a suplementação em alguns casos é necessária para aumentar o aporte de colágeno.

O colágeno representa 30% de todas as proteínas do organismo. Todo o processo de cicatrização necessita do colágeno. Pela diminuição na síntese de colágeno, é perceptível o aumento de rugas, enfraquecimento ósseo, queda de cabelo, unhas quebradiças e processos mais patológicos que necessitam de suplementação. Existem diversos tipos de colágeno, são conhecidos 29 tipos que se diferenciam pela composição de aminoácidos, nos arranjos, no diâmetro e na localização dos tecidos.

Os tipos de colágeno são:

  • Tipo I: é o tipo mais abundante dos colágenos, representa aproximadamente 90% de todo o colágeno corporal. Encontrado em: tendões, na derme, ossos e dentes.
  • Tipo II: é encontrado na cartilagem das articulações e discos intervertebrais, diminuindo o atrito causado nas articulações, gerando uma proteção.
  • Tipo III: é o segundo mais abundante, presente nos músculos lisos tais como vasos sanguíneos, estômago, intestinos, baço, fígado, rins, pulmões e coração.
  • Tipo IV: esse tipo tem função de sustentação e revestimento, presente principalmente no tecido epitelial. Encontrado na pele, no revestimento estomacal, na bexiga, na uretra, nas paredes da cavidade torácica, em glândulas endócrinas, como a tireoide.

O predomínio de aminoácidos como glicina, prolina, lisina, hidroxiprolina, hidroxilisina e alanina, e a ausência da maioria dos aminoácidos essenciais como o triptofano, faz com que o colágeno seja considerado uma fonte proteica pobre para a dieta humana. Por outro lado, o colágeno é um exemplo claro do relacionamento da estrutura proteica e a função biológica, pois fornece resistência e elasticidade nas estruturas anatômicas na qual está presente. Assim, a falta de aminoácidos essenciais do colágeno não o torna inutilizável, pois suas frações apresentam um importante papel na dieta humana por se comportarem como fibra solúvel e por constituírem uma fonte de proteína animal.

Um avanço na medicina nutricional é a prevenção e o tratamento das disfunções gastrointestinais pelo consumo de fibras dietéticas, uma vez que esses compostos mantêm o funcionamento normal do trato gastrointestinal, aumentando o volume do conteúdo intestinal e das fezes, o que reduz o tempo de transição intestinal e ajuda a prevenir a constipação. Sua presença nos alimentos induz à saciedade no momento das refeições. Alguns estudos demonstram como o colágeno, e particularmente suas frações, obtidas por uma variedade de técnicas, provou ser mais eficiente do que as fibras de origem vegetal – como, por exemplo, na absorção de água e gelificação, promovendo sensação de saciedade e aumento do bolo fecal.

Além dos benefícios antienvelhecimento o colágeno hidrolisado auxilia no processo de cicatrização, no funcionamento intestinal e no controle da sarcopenia.

O colágeno hidrolisado é uma excelente fonte de aminoácidos de boa tolerância, digestibilidade e biodisponibilidade. A ingestão de 10 a 20 gramas diariamente estimula e facilita a síntese do colágeno tecidual e, portanto, ajuda a melhorar a regeneração dos tecidos colágenos, prevenindo e tratando doenças degenerativas que os afetam e também deterioração dérmica.

Devido à sua funcionalidade para a saúde, os grupos populacionais para os quais a suplementação está particularmente indicada são aqueles que estão mais em risco de deterioração (ou já sofrem dele) dos tecidos colágenos, seja devido à idade (em geral, a partir dos 40 anos), uso excessivo (esporte e atividade física intensa) ou outras circunstâncias como sobrepeso, menopausa, trauma, queimaduras, intervenções cirúrgicas, implantes dérmicos ou dentários e tratamentos oncológicos agressivos.

Referência bibliográfica

BLANC, Gisely. Efetividade da terapia nutricional enteral no processo de cicatrização das úlceras por pressão. Tese de doutorado da Universidade Federal do Paraná, 2013.

DE LA HOZ, Jaime Escalada. REVISIÓN DE LOS EFECTOS DEL COLÁGENO. Nutr Hosp, v. 32, n. Supl 1, p. 62-66, 2015.

Silva TF, Penna ALB. Colágeno: Características químicas e propriedades funcionais. Rev Inst Adolfo Lutz. São Paulo, 2012; 71(3):530-9

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CROCUS SATIVUS E OS BENEFÍCIOS PARA A SAÚDE

Por Isabella Brescia

O açafrão verdadeiro é extraído dos estigmas e parte do estilete das flores de Crocus sativus, uma planta da família das Iridáceas, que começa a aparecer no início do outono, no final de setembro de cor roxa. É utilizado desde a antiguidade como especiaria, principalmente na culinária do Mediterrâneo, região de origem. É considerado como uma das mais caras especiarias do mundo uma vez que, para se obter um quilo de açafrão seco, são processadas manualmente, de 150.000 a 200.000 flores.

A análise química dos estigmas de C. sativus mostrou a presença de cerca de 150 compostos voláteis e não voláteis. Menos de 50 constituintes, no entanto, foram identificados até agora. Os três principais compostos biologicamente ativos são: Crocina, pigmento carotenóide responsável pela cor amarelo-alaranjada da especiaria; Picrocrocina, trazendo o sabor amargo do açafrão; e o Safranal, um composto volátil responsável pelo aroma e cheiro tão específico do açafrão.

A crocina é um carotenóide raro na natureza, facilmente solúvel em água. Em comparação com outros carotenóides, a crocina tem uma aplicação mais ampla como corante em alimentos e medicamentos, principalmente devido à sua alta solubilidade. A picrocrocina é o principal fator que influencia o sabor amargo do açafrão, que pode ser cristalizado por hidrólise. O safranal é responsável pelo aroma (representa 70% da fração volátil), tem pouca ou nenhuma presença em estigmas frescos, sua concentração depende das condições de secagem e conservação do açafrão.

Além da crocina e da picrocrocina, os principais compostos do açafrão são antocianinas, flavonóides (como o kaempferol), vitaminas, aminoácidos, amido, matéria mineral e gomas Também possui muitos componentes ativos não voláteis, muitos dos quais são carotenóides, incluindo zeaxantina, licopeno e vários α- e β-carotenos. Os voláteis, que têm um odor muito forte, são consistentes com mais de 34 componentes, que são principalmente terpenos, álcoois terpenos e seus ésteres.

A qualidade do açafrão depende da concentração desses três metabólitos principais, proporcionando a cor e o sabor únicos dos estigmas. Seus conteúdos dependem do ambiente e das práticas culturais. A composição química das amostras de açafrão de muitos países indica que os valores relatados dependem fortemente dos métodos usados ​​para secagem, extração e análise de estigma.

Desde os tempos antigos, as plantas têm sido usadas em todas as civilizações, em todo o mundo, como fonte de medicina tradicional. Por mais de 3.000 anos, o açafrão foi considerado uma panacéia, de acordo com os medicamentos ayurvédicos, mongóis, chineses, egípcios, gregos e árabes. Algumas propriedades terapêuticas atribuídas ao açafrão são:

Antidepressivo

O uso do açafrão como antidepressivo tem uma longa tradição, desde a antiguidade até os tempos modernos. A depressão é uma das cinco doenças mais prevalentes em todo o mundo e afeta cerca de 11,6% da população mundial. Semelhante aos antidepressivos alopáticos o açafrão pode exercer seu efeito antidepressivo modulando o nível de certas substâncias químicas no cérebro, incluindo a serotonina. A serotonina, ou 5-hidroxitriptamina, é um neurotransmissor que eleva o humor sintetizado a partir do triptofano. Embora não apareça como uma erva medicinal usada tradicionalmente, as pétalas de açafrão são significativamente mais baratas do que os estigmas, levando os pesquisadores a examinar seu potencial no tratamento da depressão. Assim, um estudo comparando a eficácia de pétalas e estigmas sugere que eles são igualmente eficazes no tratamento de depressão leve a moderada.

Tratamento da disfunção sexual

O açafrão, assim como outras especiarias, sempre teve a reputação de afrodisíaco em diferentes civilizações egípcias, gregas, romanas e outras. Tradicionalmente, muçulmanos, fenícios e chineses usam açafrão como estimulante sexual. Foram avaliadas as atividades afrodisíacas do extrato aquoso de estigmas de C. sativus e seus constituintes, safranal e crocina. Parece que o açafrão pode, sem risco, combater efetivamente certos distúrbios sexuais induzidos pela fluoxetina em mulheres, como excitação, lubrificação ou dor. O açafrão mostrou um efeito positivo na função sexual com um aumento no número e duração das ereções em pacientes com disfunção erétil – mesmo após o tratamento por apenas 10 dias.

Antioxidante

Os carotenóides, crocina e crocetina, desempenham um papel importante na saúde, agindo como antioxidantes naturais. Eles protegem células e tecidos dos efeitos prejudiciais dos radicais livres e espécies reativas de oxigênio (ROS). A crocina é o ingrediente ativo mais estudado no que diz respeito às propriedades antioxidantes do açafrão. No entanto, não age sozinho, mas graças ao trabalho em sinergia com outros componentes como safranal, dimetilcrocetina e flavonóides. Outros estudos centraram-se nos efeitos negativos do stress oxidativo no nosso cérebro, uma vez que é o órgão mais exposto à oxidação, devido ao elevado teor de fosfolípides das membranas neuronais e à ligação existente com o desenvolvimento de patologias neurodegenerativas como a doença de Alzheimer, cujo tratamento com o açafrão pode prevenir a agregação e deposição do peptídeo β amilóide no cérebro humano e pode, portanto, ser útil na doença de Alzheimer.

Anticarcinogênico

O câncer é a principal causa de morte no mundo. Evidências epidemiológicas indicam que existe uma correlação entre uma dieta rica em antioxidantes e uma menor incidência de morbidade e mortalidade. Entre os remédios naturais, o açafrão e seus ingredientes (especialmente seus carotenóides) têm atividades antitumorais e anticancerígenas, mas não exercem nenhum efeito citotóxico nas células saudáveis. Uma grande variedade de substâncias naturais foi identificada como tendo a capacidade de induzir apoptose em várias células tumorais. Entre as muitas propriedades biológicas relatadas com açafrão, esses anti-carcinogênicos são de grande interesse e são extensivamente estudados por experimentos in vitro e in vivo. O extrato de açafrão de ocorrência natural – em combinação com dois compostos sintéticos – selenito de sódio ou arsenito de sódio, pode ter um papel importante na prevenção dos danos provocados pela quimioterapia do câncer. O pré-tratamento com açafrão por cinco dias consecutivos antes da administração de drogas antitumorais, incluindo cisplatina, inibiu significativamente o dano ao DNA celular induzido por drogas antitumorais.

Antiespasmódico e digestivo

Foram atribuídas ao açafrão em relação ao sistema gastrointestinal e genital, em particular, as de estimular o estômago, reduzir o apetite, tratar hemorróidas, tratar prolapso do ânus, limitar fermentações intestinais, ajudar no tratamento da amenorreia ou estimular a menstruação – e não mencionar seu poder abortivo. Safranal normalizou o volume gástrico e o pH, reduziu a superfície da úlcera gástrica e produziu proteção gástrica. 

Anti-inflamatório e analgésico

Há um grande interesse em compostos naturais, como suplementos alimentares e remédios de ervas usados ​​há séculos para reduzir a dor e a inflamação. Extratos e tinturas de açafrão têm sido usados ​​para tratar febre, feridas, dor lombar, abscessos e gengivite, bem como dor relacionada à erupção dos primeiros dentes em bebês. Extratos aquosos e alcoólicos de estigmas e pétalas de açafrão têm atividade antinociceptiva (que anula ou reduz a percepção da dor) e anti-inflamatória para dor aguda e crônica.

Efeito antiobesidade e sobre os níveis de colesterol

Beliscar é um dos hábitos alimentares de difícil controle, predispondo ao ganho de peso e, consequentemente, à obesidade e consequentes complicações metabólicas (dislipidemia, diabetes não insulino-dependente, distúrbios circulatórios, hipertensão, doença renal crônica). Acomete principalmente a população feminina e está frequentemente associada ao estresse. Devido à presença de crocetina, o açafrão ajuda indiretamente a diminuir os níveis de colesterol no sangue e, portanto, a gravidade da aterosclerose, reduzindo o risco de ataque cardíaco. O efeito hipolipidêmico da crocina é atribuído à inibição da lipase pancreática, limitando assim a absorção de gorduras e colesterol.  Estudos anteriores concluíram que o açafrão mostrou efeitos antiobesidade e anorexígenos em modelos de ratos obesos. Isto graças ao seu efeito na redução da ingestão calórica, bloqueando a digestão das gorduras alimentares através da inibição da lipase pancreática; a sensação de saciedade devido ao aumento do nível de neurotransmissores sem esquecer o seu papel na melhoria do metabolismo da glicose e dos lipideos. Além disso, a crocina mostrou uma diminuição significativa na taxa de ganho de peso corporal e deposição total de gordura.

Efeito sobre a resistência à glicose no sangue e à insulina

O uso de crocetina em altas doses (40 mg/kg) neutraliza o desenvolvimento de resistência à insulina, evitando hiperinsulinemia compensatória; de fato, limita a dislipidemia mantendo os valores de ácidos graxos livres, triglicerídeos e LDL-c (Low Density Lipoprotein) dentro das normas e evita a hipertensão induzida por uma dieta suplementada com frutose.

Efeitos nos olhos

O açafrão tem sido usado tradicionalmente por diferentes nações para várias doenças oculares, como doenças da córnea, olhos doloridos, catarata e infecção ocular purulenta. As investigações atuais mostram que o extrato de açafrão pode reduzir doenças oculares como catarata, degeneração da retina, morte celular fotorreceptora mediada por luz, e melhora da circulação sanguínea e função da retina.

A ingestão de menos de 1,5 g de açafrão não é tóxica para humanos, é considerada tóxica quando ingerida em doses superiores a 5 g e pode ser fatal se for tomada em cerca de 20 g/dia. Toxicidade leve com açafrão causa tontura, náusea, vômito e diarreia, enquanto toxicidade mais grave pode causar dormência, formigamento nas mãos e pés, pele e olhos amarelados devido à precipitação de pigmentos amarelos na pele e na conjuntiva e sangramento espontâneo.

Referência Bibliográfica

MZABRI, Ibtissam; ADDI, Mohamed; BERRICHI, Abdelbasset. Usos tradicionais e modernos do açafrão (Crocus sativus). Cosméticos , v. 6, n. 4, pág. 63, 2019.

SRIVASTAVA, R. et al. Crocus sativus L.: uma revisão abrangente. Revisões de farmacognosia , v. 4, n. 8, pág. 200, 2010.

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Lactobacillus reuteri

Por Isabella Brescia

Os probióticos são definidos como “microrganismos vivos que, quando administrados em quantidades adequadas, conferem um benefício à saúde do hospedeiro” pela Organização Mundial da Saúde. Embora a ideia de usar probióticos para benefícios à saúde não seja nova, o interesse aumentou significativamente nos últimos anos, devido, em parte, ao aumento da resistência a antibióticos, particularmente no tratamento de doenças do sistema gastrointestinal (GI), e um desejo crescente do público por promotores naturais de saúde. Os microrganismos probióticos que demonstraram possuir propriedades benéficas incluem Lactobacillus spp., Bifidobacterium spp., Saccharomyces boulardii, Propionibacterium spp., Streptococcus spp., Bacillus spp., Enterococcus spp. , e algumas cepas específicas de Escherichia coli.

Existem certos critérios que um probiótico deve ter para ser considerado eficaz. Estes incluem a capacidade de sobreviver no trato GI, uma alta resistência aos ácidos gástricos, a falta de quaisquer genes de resistência a antibióticos transferíveis e a capacidade de exercer benefícios claros no hospedeiro. Os probióticos são benéficos ao corpo humano através de diversos mecanismos que incluem resistência à colonização, produção de ácidos graxos de cadeia curta (AGCC), regulação do trânsito intestinal, normalização da microbiota, aumento da renovação de enterócitos e exclusão competitiva de patógenos. Embora não seja amplamente observado, existem muitos efeitos entre espécies probióticas específicas. Por exemplo, algumas cepas probióticas podem melhorar a digestão dos alimentos do hospedeiro metabolizando o sal biliar ou complementando as funções das enzimas digestivas.

Lactobacillus spp. são um dos probióticos mais utilizados e podem ser encontrados em uma grande variedade de produtos alimentícios pois desempenha um papel importante na fermentação de alimentos e no sistema GI de humanos e animais em quantidades variáveis, dependendo da espécie, idade do hospedeiro ou localização no intestino.

Estudos em animais e resultados pré-clínicos mostraram que os lactobacilos podem ajudar na prevenção e tratamento de vários distúrbios do trato GI. Entre esses distúrbios estão infecções entéricas, diarreia associada a antibióticos, enterocolite necrosante em recém-nascidos prematuros, doença inflamatória intestinal, câncer colorretal e síndrome do intestino irritável. Embora o trato GI seja o local onde acredita-se que os Lactobacillus mostrem mais benefícios, foram relatadas aplicações probióticas de algumas cepas de Lactobacillus em outros locais do corpo. Estes incluem a prevenção e tratamento de doenças urogenitais e vaginose bacteriana em mulheres, doença atópica, hipersensibilidade alimentar e prevenção de cárie dentária.

Lactobacillus reuteri ( L. reuteri ) é uma bactéria probiótica bem estudada que pode colonizar um grande número de mamíferos. Em humanos, a L. reuteri é encontrada em diferentes locais do corpo, incluindo o trato gastrointestinal, trato urinário, pele e leite materno. A abundância de L. reuteri varia entre diferentes indivíduos. Vários efeitos benéficos de L. reuteri foram observados desde sua descoberta em 1962.

O L. reuteri pode produzir moléculas antimicrobianas, como ácidos orgânicos (ácido lático e acético), etanol e reuterina (capaz de inibir uma ampla gama de microrganismos, principalmente bactérias Gram-negativas). Devido à sua atividade antimicrobiana, é capaz de inibir a colonização de microorganismos patogênicos e remodelar a composição da microbiota comensal no hospedeiro.  Com a síntese dessas substâncias, L. reuteri demonstrou ser eficaz contra uma variedade de infecções bacterianas gastrointestinais. Essas infecções incluem Helicobacter pylori, E. coli, Clostridium difficile e Salmonella. Uma das ilustrações mais notáveis ​​da eficácia de L. reuteri como probiótico contra infecções é o uso de L. reuteri para tratar H. pyloriA infecção por H. pylori é uma das principais causas de gastrite crônica e úlceras pépticas, bem como um fator de risco para malignidades gástricas.

Existem 13 vitaminas essenciais para os seres humanos devido à incapacidade do corpo humano de sintetizá-las. Como muitos outros Lactobacillus spp., várias cepas de L. reuteri são capazes de produzir diferentes tipos de vitaminas, incluindo vitamina B12 (cobalamina) e B9 (folato).

L. reuteri também pode beneficiar o sistema imunológico do hospedeiro, reduzindo a produção de citocinas pró-inflamatórias enquanto promovem o desenvolvimento e a função de células T reguladoras. 

As barreiras físicas, bioquímicas e imunológicas compreendem a função de barreira intestinal, necessária para bloquear a entrada de antígenos e toxinas exteriores. Se ocorrer alguma anormalidade na barreira intestinal, a permeabilidade pode aumentar, resultando em um intestino permeável. Vários probióticos são conhecidos por suas habilidades de melhorar a função de barreira da mucosa, dos quais L. reuteri é um exemplo bem conhecido. Tendo a capacidade de fortalecer a barreira intestinal, a colonização de L. reuteri pode diminuir a translocação bacteriana do lúmen intestinal para os tecidos. A translocação através do epitélio intestinal pode ser um iniciador da inflamação. Portanto, doenças inflamatórias, incluindo aquelas localizadas no intestino, bem como em outros tecidos, podem ser melhoradas aumentando a colonização de L. reuteri . 

Houve uma diminuição na abundância de L. reuteri em humanos nas últimas décadas provavelmente causada pelo estilo de vida moderno (uso de antibióticos, dieta ocidental, higiene melhorada). Tal diminuição coincide com maiores incidências de doenças inflamatórias. Embora faltem evidências para estabelecer a correlação, pode ser útil aumentar a colonização de L. reuteri e/ou facilitar suas funções probióticas como uma estratégia nova e relativamente segura contra doenças inflamatórias. Além disso, por meio de regulação direta ou modulação indireta via microbiota do hospedeiro, L. reuteri desempenha um papel importante na eliminação de infecções e na atenuação de doenças gastrointestinais. A segurança e tolerância de L. reuteri foi comprovado por numerosos estudos clínicos. 

Referência Bibliográfica

MU, Qinghui; TAVELLA, Vicente J.; LUO, Xin M. Papel do Lactobacillus reuteri na saúde e doenças humanas. Frontiers in microbiology , v. 9, p. 757, 2018.