Categorias
saúde

WHEY PROTEIN E SEUS BENEFÍCIOS

Por Isabella Brescia

Nas últimas décadas, numerosas pesquisas vêm demonstrando as qualidades nutricionais das proteínas solúveis do soro do leite, também conhecidas como whey protein. As proteínas do soro são extraídas da porção aquosa do leite, gerada durante o processo de fabricação do queijo. Durante décadas, essa parte do leite era dispensada pela indústria de alimentos. Somente a partir da década de 70, os cientistas passaram a estudar as propriedades dessas proteínas.

Assim, as formas mais utilizadas, sobretudo, por suas vantagens evidenciadas, são owheyprotein concentrate(WPC) e o whey protein isolate(WPI). O WPC é o produto obtido por um processo de filtração simples, com o intuito de remover os constituintes não proteicos do soro, de forma que o produto final seco contenha, em geral, de 35% a 80% de proteínas. Já o WPI passa por uma filtração mais complexa e é a forma comercial mais pura das proteínas do soro, contendo mais de 80% de teor proteico. Dentre os tipos temos também o hidrolisado, essa é a única forma a qual sofreu hidrólise enzimática, ela possui a maior a velocidade de absorção pelo organismo e contém cerca de 92% de proteína em sua composição.

Atletas, praticantes de atividades físicas, pessoas fisicamente ativas e portadores de doenças, vêm procurando benefícios nessa fonte proteica. Evidências recentes sustentam a teoria de que as proteínas do leite, incluindo as proteínas do soro, além de seu alto valor biológico, possuem peptídeos bioativos, que atuam como agentes antimicrobianos, anti-hipertensivos, reguladores da função imune, assim como fatores de crescimento.

A diminuição da massa muscular esquelética está associada à idade e à inatividade física. Já está suficientemente comprovado que a manutenção ou o ganho de massa muscular esquelética, principalmente em pessoas idosas, contribui para uma melhor qualidade e prolongamento da vida. Exercícios físicos, principalmente os resistidos com pesos, são de extrema importância para impedir a trofia e favorecer o processo de hipertrofia muscular, melhorando a qualidade de vida dos indivíduos. Além disso, a nutrição exerce papel fundamental nesse processo. Pessoas fisicamente ativas e atletas necessitam de maior quantidade proteica que as estabelecidas para indivíduos sedentários.

Pessoas envolvidas em treinos de resistência necessitam de 1,2 a 1,4g de proteína por quilograma de peso ao dia, enquanto atletas de força, 1,6 a 1,7g por kg de peso/dia, bem superior aos 0,8-1,0g por kg de peso/dia estabelecidos para indivíduos sedentários. A ingestão de proteína ou aminoácidos, após exercícios físicos, favorece a recuperação e a síntese proteica muscular. O perfil de aminoácidos das proteínas do soro, principalmente ricas em leucina, pode, desta forma, favorecer o anabolismo muscular. Além disso, o perfil de aminoácidos das proteínas do soro é muito similar ao das proteínas do músculo esquelético, fornecendo quase todos os aminoácidos em proporção similar as do mesmo, classificando-as como um efetivo suplemento anabólico.

O conceito de proteínas com diferentes velocidades de absorção tem sido, recentemente, utilizado por profissionais e cientistas que trabalham com desempenho físico. Estudos demonstram que as proteínas do soro são absorvidas mais rapidamente que outras, como a caseína, por exemplo. Essa rápida absorção faz com que as concentrações plasmáticas de muitos aminoácidos, inclusive a leucina, atinjam altos valores logo após a sua ingestão. Além de aumentar as concentrações plasmáticas de aminoácidos, a ingestão de soluções contendo as proteínas do soro aumenta, significativamente, a concentração de insulina plasmática, o que favorece a captação de aminoácidos para o interior da célula muscular, otimizando a síntese e reduzindo o catabolismo proteico. O aumento na concentração de BCAA, induzido pelas proteínas do soro, pode atuar também inibindo a degradação proteica muscular.

Resumindo, seus benefícios sobre o ganho de massa muscular estão relacionados ao perfil de aminoácidos, principalmente da leucina (um importante desencadeador da síntese proteica), a rápida absorção intestinal de seus aminoácidos e peptídeos e à sua ação sobre a liberação de hormônios anabólicos, como, por exemplo, a insulina.

A colecistoquinina (CCK) e o peptídeo similar ao glucagon (GLP-1) são dois hormônios intestinais amplamente estudados. A liberação desses hormônios na corrente sanguínea ocorre em presença de macronutrientes no duodeno, produzindo efeito supressor do apetite. Comparando as duas principais proteínas do leite, caseína e as proteínas do soro, Hall et al. estudaram seus efeitos sobre o apetite, percepção de fome, saciedade e hormônios gastrintestinais. Observaram que, quando os voluntários ingeriam uma solução contendo 48g de proteínas do soro, 90 minutos antes da refeição, apresentavam uma redução significativa do apetite, da ingestão energética e aumento da saciedade, em comparação a um grupo que ingeriu a mesma solução contendo caseína. Essa percepção,  estava relacionada às maiores concentrações sanguíneas de CCK e do GLP-1, geradas pela ingestão da solução contendo as proteínas do soro.

Referência bibliográfica

HARAGUCHI, Fabiano Kenji; ABREU, Wilson César de; PAULA, Heberth de. Whey protein: composition, nutritional properties, appications in sports and benefits for human health. Revista de nutrição, v. 19, n. 4, p. 479-488, 2006.

COSTA, Flávia Ribas et al. Proteínas do soro do leite: propriedades funcionais e benefícios para a saúde humana. Lecturas: Educación Física y Deportes, v. 25, n. 272, 2021.

HALL WL, Millward DJ, Long SJ, Morgan LM. Casein and whey exert different effects on plasma amino acids profiles, gastrointestinal hormone secretion and appetite. Brit J Nutr. 2003; 89(2):239-48.

Categorias
saúde

SUPLEMENTAÇÃO COM COLÁGENO EM DOENÇAS ÓSSEAS

Por Isabella Brescia

O organismo humano passa por diversas fases: a infância, a puberdade, a maturidade ou estabilização e o envelhecimento. O envelhecimento é marcado por várias mudanças já a partir da segunda década de vida. No início, essas mudanças são pouco perceptíveis, porém, ao final da terceira década apresenta alterações funcionais e/ou estruturais importantes que resultam da interação de fatores genéticos, ambientais e estilo de vida.

A osteoporose (OP) constitui na enfermidade do esqueleto uma causa multifatorial, caracterizada pela redução de massa óssea e deterioração da integridade anatômica e estrutural do osso, levando ao aumento da fragilidade óssea e suscetibilidade a fraturas. O grupo mais afetado pela OP são as mulheres idosas cuja diminuição da produção de estrógeno após a menopausa acelera a perda óssea.

As doenças degenerativas articulares evoluem lentamente ao longo de décadas com episódios de dor até chegar à perda de função da articulação.  Quando a atividade de regeneração não é superior a uma degradação em ritmo acelerado, leva a um estado de insuficiência osteo cartilaginosa. Até o momento não há cura e os tratamentos disponíveis, farmacológicos e não farmacológicos, atuam na redução dos sintomas, principalmente dor, inflamação e imobilidade.

A cartilagem articular hialina é um tecido avascular, altamente especializado, que recobre a superfície das articulações constituído por 5% de células, os condrócitos, água, proteoglicanos (sulfato de condroitina e o querato sulfato) colágeno e outras proteínas. A água representa cerca de 65% a 85% do peso seco do tecido, enquanto as principais macromoléculas, como o colágeno e os proteoglicanos, representam cerca de 10% a 30% do peso seco do tecido, respectivamente.

A composição e a complexa organização estrutural entre o colágeno e os proteoglicanos garantem as propriedades inerentes à cartilagem articular, como resistência, elasticidade e compressibilidade, necessárias para dissipar e amortecer as forças, além de reduzir a fricção, a que as articulações estão sujeitas, sem muito gasto de energia. Portanto, a integridade dos componentes da cartilagem articular é essencial para garantir a função normal das articulações.

O colágeno é o principal elemento estrutural que confere resistência ao tecido; sabe-se que além da função de suporte, participa na diferenciação, adesão, migração e proliferação celular. A cartilagem articular é composta primariamente de colágeno tipo II, com pelo menos dez colágenos adicionais, incluindo os tipos III, VI, IX, X, XI e XIII, presentes como menores constituintes.

A molécula de colágeno é composta basicamente por uma sequência repetida de três aminoácidos (Gly-X-Y), em que Gly é o aminoácido glicina; X, quase sempre é prolina e Y, hidroxiprolina ou hidroxilisina. Em geral, o colágeno contém cerca de 30% de glicina, 12% de prolina, 11% de alanina, 10% de hidroxiprolina e 1% de hidroxilisina. Do ponto de vista nutricional, o colágeno é considerado uma proteína de qualidade inferior, pois há predominância dos aminoácidos descritos e quantidade mínima ou ausente da maioria dos aminoácidos essenciais, como triptofano, metionina, cistina e tirosina.Apesar disso, sua importância nutricional torna-se estabelecida por seu perfil atípico de aminoácidos que estimula a síntese de colágeno nas cartilagens e na matriz extracelular de outros tecidos.

O colágeno, assim como as demais proteínas ingeridas, não é absorvido como colágeno. A maior parte da digestão proteica, cerca de 80%, ocorre no duodeno e jejuno pela ação do suco pancreático e apenas 10-20% no estômago pela ação do ácido clorídrico e da pepsina. No intestino delgado ocorre a hidrólise luminal de proteínas e polipeptídios em aminoácidos (AA) livres e pequenos peptídeos pela ação da enteropeptidase, que, em pH neutro, ativa o tripsinogênio e a tripsina, que, por sua vez, promove a ativação das outras propeptidases do suco pancreático. Os AA e pequenos peptídeos são hidrolisados pelas peptidases da borda em escova a AA, di e tripeptideos, que são absorvidos principalmente pelo jejuno proximal por difusão simples, difusão facilitada ou transferência ativa por co-transporte. Os AA são destinados a inúmeras funções, inclusive para a síntese do próprio colágeno.

No tecido conjuntivo, o colágeno tipo I é o mais abundante e a partir dele são obtidos o colágeno parcialmente hidrolisado (gelatina) e o colágeno hidrolisado. A diferença entre o colágeno hidrolisado e a gelatina é que o colágeno hidrolisado é de fácil digestão e absorção,  e apresenta prevalência da glicina e prolina em sua composição. Esses aminoácidos são essenciais para a estabilidade e a regeneração das cartilagens.

O efeito positivo da proteína com a constituição óssea está relacionado à composição, ou seja, 50% do osso é formado por colágeno e a outra metade, por cálcio. Portanto, uma dieta inadequada, não apenas em cálcio, mas também em proteína limitaria a reconstrução óssea.

Algumas pesquisas destacam um conceito de causa diferente à do envelhecimento para as osteoartrites (OA), cuja proposta terapêutica deve abranger todos os aspectos da doença. A patogênese da OA resulta de fatores inflamatórios e mecânicos: inflamatória, em respostas mediadas por condrócitos e sinovióticos; mecânica, associada ao movimento e força física concentrada principalmente nas articulações. A OA seria o resultado da inflamação da articulação na tentativa de corrigir o estresse mecânico anormal. As respostas inflamatórias são maiores em pacientes com OA e aumentadas no envelhecimento, enquanto os mecânicos compõem uma combinação de fatores entre fisiológicos e genéticos, e em ambos a obesidade seria fator agravante. A obesidade eleva a carga sobre a articulação e ativa produção de adipocinas pró-inflamatórias em receptores presentes na superfície dos condrócitos, osteoblastos, membrana sinovial e subcondral.

Existe um consenso de que os efeitos promovidos pela ingestão de peptídeos de colágeno estão relacionados à sua forma hidrolisada. Para os autores, a suplementação alimentar e a farmacológica de CH são justificadas porque apresentam funções biológicas benéficas muito além da redução da dor em pacientes com OA. Além de estarem envolvidos na síntese de matriz de cartilagem, alguns peptídeos de colágeno exibem atividade anti-hipertensiva e cardioprotetora, por meio da regulação do óxido nítrico e da molécula de adesão intercelular e inibição da enzima conversora de angiotensina I, além de atividades antioxidantes em diferentes sistemas oxidativos.

Tanto o envelhecimento quanto a má alimentação podem afetar a demanda de colágeno no corpo. Essas alterações não são perceptíveis nos primeiros estágios da vida, mas vão ficando evidentes na maturidade, fase na qual a ingesta alimentar não supre as necessidades recomendadas tanto de energia, quanto de macro e micronutrientes.Também nessa fase as possibilidades de desenvolver disfunções ósseas e articulares são maiores. Nutrição balanceada é essencial não só para prevenir doenças crônicas, mas também para manter a saúde do corpo e garantir seu funcionamento adequado.

O colágeno hidrolisado tem função terapêutica positiva na osteoporose e osteoartrite, com potencial aumento da densidade mineral óssea, efeito protetor da cartilagem articular e principalmente no alívio sintomático em quadros de dor. Embora não exista na literatura científica pesquisada consenso sobre a dosagem de colágeno hidrolisado a ser administrada, com a suplementação de 8g diária observa-se aumento da concentração de glicina e prolina no plasma e doses equivalentes a 12g diária promovem melhora significativa nos sintomas de osteoartrite e osteoporose. Entretanto, mais estudos são necessários para determinar os fatores patogênicos envolvidos na osteoporose e osteoartrite, seu diagnóstico precoce, e a partir de que estágio da vida seria recomendado o início da suplementação e a dosagem adequada para alcançar significativo potencial terapêutico.

Referência bibliográfica

PORFÍRIO, Elisângela; FANARO, Gustavo Bernardes. Suplementação com colágeno como terapia complementar na prevenção e tratamento de osteoporose e osteoartrite: uma revisão sistemática. Revista Brasileira de Geriatria e Gerontologia, v. 19, p. 153-164, 2016.

VELOSA, Ana Paula P.; TEODORO, Walcy R.; YOSHINARI, Natalino H. Colágeno na cartilagem osteoartrótica. Revista Brasileira de Reumatologia, v. 43, n. 3, p. 160-166, 2003.

Categorias
saúde

COLÁGENO HIDROLISADO E SEUS BENEFÍCIOS PARA A SAÚDE

Por Isabella Brescia

O colágeno é uma proteína de origem animal, cuja função no organismo é contribuir com a integridade estrutural dos tecidos em que está presente. O colágeno é encontrado nos tecidos conjuntivos do corpo, tais como os ossos, tendões, cartilagens, veias, pele, dentes, bem como nos músculos e na camada córnea dos olhos. Porém, com o início da fase adulta, a deficiência de colágeno começa a ser notada, pois o organismo diminui sua produção.

O colágeno tem sua produção em queda após aos 30 anos, conforme essa diminuição na produção de colágeno ocorre no organismo, é preciso aumentar a ingestão de proteínas para aumentar a síntese de colágeno. As proteínas são nutrientes extremamente importantes para o corpo, desde o DNA até as estruturas da pele, músculos e os órgãos. Por conta dessa alta demanda, o organismo passa a dar menos prioridade para as estruturas como unhas, cabelos, pele e passa a dar mais prioridade ossos, músculos, órgãos e tecidos. Dessa forma a ingestão alimentar, as vezes, se torna insuficiente e por isso a suplementação em alguns casos é necessária para aumentar o aporte de colágeno.

O colágeno representa 30% de todas as proteínas do organismo. Todo o processo de cicatrização necessita do colágeno. Pela diminuição na síntese de colágeno, é perceptível o aumento de rugas, enfraquecimento ósseo, queda de cabelo, unhas quebradiças e processos mais patológicos que necessitam de suplementação. Existem diversos tipos de colágeno, são conhecidos 29 tipos que se diferenciam pela composição de aminoácidos, nos arranjos, no diâmetro e na localização dos tecidos.

Os tipos de colágeno são:

  • Tipo I: é o tipo mais abundante dos colágenos, representa aproximadamente 90% de todo o colágeno corporal. Encontrado em: tendões, na derme, ossos e dentes.
  • Tipo II: é encontrado na cartilagem das articulações e discos intervertebrais, diminuindo o atrito causado nas articulações, gerando uma proteção.
  • Tipo III: é o segundo mais abundante, presente nos músculos lisos tais como vasos sanguíneos, estômago, intestinos, baço, fígado, rins, pulmões e coração.
  • Tipo IV: esse tipo tem função de sustentação e revestimento, presente principalmente no tecido epitelial. Encontrado na pele, no revestimento estomacal, na bexiga, na uretra, nas paredes da cavidade torácica, em glândulas endócrinas, como a tireoide.

O predomínio de aminoácidos como glicina, prolina, lisina, hidroxiprolina, hidroxilisina e alanina, e a ausência da maioria dos aminoácidos essenciais como o triptofano, faz com que o colágeno seja considerado uma fonte proteica pobre para a dieta humana. Por outro lado, o colágeno é um exemplo claro do relacionamento da estrutura proteica e a função biológica, pois fornece resistência e elasticidade nas estruturas anatômicas na qual está presente. Assim, a falta de aminoácidos essenciais do colágeno não o torna inutilizável, pois suas frações apresentam um importante papel na dieta humana por se comportarem como fibra solúvel e por constituírem uma fonte de proteína animal.

Um avanço na medicina nutricional é a prevenção e o tratamento das disfunções gastrointestinais pelo consumo de fibras dietéticas, uma vez que esses compostos mantêm o funcionamento normal do trato gastrointestinal, aumentando o volume do conteúdo intestinal e das fezes, o que reduz o tempo de transição intestinal e ajuda a prevenir a constipação. Sua presença nos alimentos induz à saciedade no momento das refeições. Alguns estudos demonstram como o colágeno, e particularmente suas frações, obtidas por uma variedade de técnicas, provou ser mais eficiente do que as fibras de origem vegetal – como, por exemplo, na absorção de água e gelificação, promovendo sensação de saciedade e aumento do bolo fecal.

Além dos benefícios antienvelhecimento o colágeno hidrolisado auxilia no processo de cicatrização, no funcionamento intestinal e no controle da sarcopenia.

O colágeno hidrolisado é uma excelente fonte de aminoácidos de boa tolerância, digestibilidade e biodisponibilidade. A ingestão de 10 a 20 gramas diariamente estimula e facilita a síntese do colágeno tecidual e, portanto, ajuda a melhorar a regeneração dos tecidos colágenos, prevenindo e tratando doenças degenerativas que os afetam e também deterioração dérmica.

Devido à sua funcionalidade para a saúde, os grupos populacionais para os quais a suplementação está particularmente indicada são aqueles que estão mais em risco de deterioração (ou já sofrem dele) dos tecidos colágenos, seja devido à idade (em geral, a partir dos 40 anos), uso excessivo (esporte e atividade física intensa) ou outras circunstâncias como sobrepeso, menopausa, trauma, queimaduras, intervenções cirúrgicas, implantes dérmicos ou dentários e tratamentos oncológicos agressivos.

Referência bibliográfica

BLANC, Gisely. Efetividade da terapia nutricional enteral no processo de cicatrização das úlceras por pressão. Tese de doutorado da Universidade Federal do Paraná, 2013.

DE LA HOZ, Jaime Escalada. REVISIÓN DE LOS EFECTOS DEL COLÁGENO. Nutr Hosp, v. 32, n. Supl 1, p. 62-66, 2015.

Silva TF, Penna ALB. Colágeno: Características químicas e propriedades funcionais. Rev Inst Adolfo Lutz. São Paulo, 2012; 71(3):530-9

Categorias
saúde

CROCUS SATIVUS E OS BENEFÍCIOS PARA A SAÚDE

Por Isabella Brescia

O açafrão verdadeiro é extraído dos estigmas e parte do estilete das flores de Crocus sativus, uma planta da família das Iridáceas, que começa a aparecer no início do outono, no final de setembro de cor roxa. É utilizado desde a antiguidade como especiaria, principalmente na culinária do Mediterrâneo, região de origem. É considerado como uma das mais caras especiarias do mundo uma vez que, para se obter um quilo de açafrão seco, são processadas manualmente, de 150.000 a 200.000 flores.

A análise química dos estigmas de C. sativus mostrou a presença de cerca de 150 compostos voláteis e não voláteis. Menos de 50 constituintes, no entanto, foram identificados até agora. Os três principais compostos biologicamente ativos são: Crocina, pigmento carotenóide responsável pela cor amarelo-alaranjada da especiaria; Picrocrocina, trazendo o sabor amargo do açafrão; e o Safranal, um composto volátil responsável pelo aroma e cheiro tão específico do açafrão.

A crocina é um carotenóide raro na natureza, facilmente solúvel em água. Em comparação com outros carotenóides, a crocina tem uma aplicação mais ampla como corante em alimentos e medicamentos, principalmente devido à sua alta solubilidade. A picrocrocina é o principal fator que influencia o sabor amargo do açafrão, que pode ser cristalizado por hidrólise. O safranal é responsável pelo aroma (representa 70% da fração volátil), tem pouca ou nenhuma presença em estigmas frescos, sua concentração depende das condições de secagem e conservação do açafrão.

Além da crocina e da picrocrocina, os principais compostos do açafrão são antocianinas, flavonóides (como o kaempferol), vitaminas, aminoácidos, amido, matéria mineral e gomas Também possui muitos componentes ativos não voláteis, muitos dos quais são carotenóides, incluindo zeaxantina, licopeno e vários α- e β-carotenos. Os voláteis, que têm um odor muito forte, são consistentes com mais de 34 componentes, que são principalmente terpenos, álcoois terpenos e seus ésteres.

A qualidade do açafrão depende da concentração desses três metabólitos principais, proporcionando a cor e o sabor únicos dos estigmas. Seus conteúdos dependem do ambiente e das práticas culturais. A composição química das amostras de açafrão de muitos países indica que os valores relatados dependem fortemente dos métodos usados ​​para secagem, extração e análise de estigma.

Desde os tempos antigos, as plantas têm sido usadas em todas as civilizações, em todo o mundo, como fonte de medicina tradicional. Por mais de 3.000 anos, o açafrão foi considerado uma panacéia, de acordo com os medicamentos ayurvédicos, mongóis, chineses, egípcios, gregos e árabes. Algumas propriedades terapêuticas atribuídas ao açafrão são:

Antidepressivo

O uso do açafrão como antidepressivo tem uma longa tradição, desde a antiguidade até os tempos modernos. A depressão é uma das cinco doenças mais prevalentes em todo o mundo e afeta cerca de 11,6% da população mundial. Semelhante aos antidepressivos alopáticos o açafrão pode exercer seu efeito antidepressivo modulando o nível de certas substâncias químicas no cérebro, incluindo a serotonina. A serotonina, ou 5-hidroxitriptamina, é um neurotransmissor que eleva o humor sintetizado a partir do triptofano. Embora não apareça como uma erva medicinal usada tradicionalmente, as pétalas de açafrão são significativamente mais baratas do que os estigmas, levando os pesquisadores a examinar seu potencial no tratamento da depressão. Assim, um estudo comparando a eficácia de pétalas e estigmas sugere que eles são igualmente eficazes no tratamento de depressão leve a moderada.

Tratamento da disfunção sexual

O açafrão, assim como outras especiarias, sempre teve a reputação de afrodisíaco em diferentes civilizações egípcias, gregas, romanas e outras. Tradicionalmente, muçulmanos, fenícios e chineses usam açafrão como estimulante sexual. Foram avaliadas as atividades afrodisíacas do extrato aquoso de estigmas de C. sativus e seus constituintes, safranal e crocina. Parece que o açafrão pode, sem risco, combater efetivamente certos distúrbios sexuais induzidos pela fluoxetina em mulheres, como excitação, lubrificação ou dor. O açafrão mostrou um efeito positivo na função sexual com um aumento no número e duração das ereções em pacientes com disfunção erétil – mesmo após o tratamento por apenas 10 dias.

Antioxidante

Os carotenóides, crocina e crocetina, desempenham um papel importante na saúde, agindo como antioxidantes naturais. Eles protegem células e tecidos dos efeitos prejudiciais dos radicais livres e espécies reativas de oxigênio (ROS). A crocina é o ingrediente ativo mais estudado no que diz respeito às propriedades antioxidantes do açafrão. No entanto, não age sozinho, mas graças ao trabalho em sinergia com outros componentes como safranal, dimetilcrocetina e flavonóides. Outros estudos centraram-se nos efeitos negativos do stress oxidativo no nosso cérebro, uma vez que é o órgão mais exposto à oxidação, devido ao elevado teor de fosfolípides das membranas neuronais e à ligação existente com o desenvolvimento de patologias neurodegenerativas como a doença de Alzheimer, cujo tratamento com o açafrão pode prevenir a agregação e deposição do peptídeo β amilóide no cérebro humano e pode, portanto, ser útil na doença de Alzheimer.

Anticarcinogênico

O câncer é a principal causa de morte no mundo. Evidências epidemiológicas indicam que existe uma correlação entre uma dieta rica em antioxidantes e uma menor incidência de morbidade e mortalidade. Entre os remédios naturais, o açafrão e seus ingredientes (especialmente seus carotenóides) têm atividades antitumorais e anticancerígenas, mas não exercem nenhum efeito citotóxico nas células saudáveis. Uma grande variedade de substâncias naturais foi identificada como tendo a capacidade de induzir apoptose em várias células tumorais. Entre as muitas propriedades biológicas relatadas com açafrão, esses anti-carcinogênicos são de grande interesse e são extensivamente estudados por experimentos in vitro e in vivo. O extrato de açafrão de ocorrência natural – em combinação com dois compostos sintéticos – selenito de sódio ou arsenito de sódio, pode ter um papel importante na prevenção dos danos provocados pela quimioterapia do câncer. O pré-tratamento com açafrão por cinco dias consecutivos antes da administração de drogas antitumorais, incluindo cisplatina, inibiu significativamente o dano ao DNA celular induzido por drogas antitumorais.

Antiespasmódico e digestivo

Foram atribuídas ao açafrão em relação ao sistema gastrointestinal e genital, em particular, as de estimular o estômago, reduzir o apetite, tratar hemorróidas, tratar prolapso do ânus, limitar fermentações intestinais, ajudar no tratamento da amenorreia ou estimular a menstruação – e não mencionar seu poder abortivo. Safranal normalizou o volume gástrico e o pH, reduziu a superfície da úlcera gástrica e produziu proteção gástrica. 

Anti-inflamatório e analgésico

Há um grande interesse em compostos naturais, como suplementos alimentares e remédios de ervas usados ​​há séculos para reduzir a dor e a inflamação. Extratos e tinturas de açafrão têm sido usados ​​para tratar febre, feridas, dor lombar, abscessos e gengivite, bem como dor relacionada à erupção dos primeiros dentes em bebês. Extratos aquosos e alcoólicos de estigmas e pétalas de açafrão têm atividade antinociceptiva (que anula ou reduz a percepção da dor) e anti-inflamatória para dor aguda e crônica.

Efeito antiobesidade e sobre os níveis de colesterol

Beliscar é um dos hábitos alimentares de difícil controle, predispondo ao ganho de peso e, consequentemente, à obesidade e consequentes complicações metabólicas (dislipidemia, diabetes não insulino-dependente, distúrbios circulatórios, hipertensão, doença renal crônica). Acomete principalmente a população feminina e está frequentemente associada ao estresse. Devido à presença de crocetina, o açafrão ajuda indiretamente a diminuir os níveis de colesterol no sangue e, portanto, a gravidade da aterosclerose, reduzindo o risco de ataque cardíaco. O efeito hipolipidêmico da crocina é atribuído à inibição da lipase pancreática, limitando assim a absorção de gorduras e colesterol.  Estudos anteriores concluíram que o açafrão mostrou efeitos antiobesidade e anorexígenos em modelos de ratos obesos. Isto graças ao seu efeito na redução da ingestão calórica, bloqueando a digestão das gorduras alimentares através da inibição da lipase pancreática; a sensação de saciedade devido ao aumento do nível de neurotransmissores sem esquecer o seu papel na melhoria do metabolismo da glicose e dos lipideos. Além disso, a crocina mostrou uma diminuição significativa na taxa de ganho de peso corporal e deposição total de gordura.

Efeito sobre a resistência à glicose no sangue e à insulina

O uso de crocetina em altas doses (40 mg/kg) neutraliza o desenvolvimento de resistência à insulina, evitando hiperinsulinemia compensatória; de fato, limita a dislipidemia mantendo os valores de ácidos graxos livres, triglicerídeos e LDL-c (Low Density Lipoprotein) dentro das normas e evita a hipertensão induzida por uma dieta suplementada com frutose.

Efeitos nos olhos

O açafrão tem sido usado tradicionalmente por diferentes nações para várias doenças oculares, como doenças da córnea, olhos doloridos, catarata e infecção ocular purulenta. As investigações atuais mostram que o extrato de açafrão pode reduzir doenças oculares como catarata, degeneração da retina, morte celular fotorreceptora mediada por luz, e melhora da circulação sanguínea e função da retina.

A ingestão de menos de 1,5 g de açafrão não é tóxica para humanos, é considerada tóxica quando ingerida em doses superiores a 5 g e pode ser fatal se for tomada em cerca de 20 g/dia. Toxicidade leve com açafrão causa tontura, náusea, vômito e diarreia, enquanto toxicidade mais grave pode causar dormência, formigamento nas mãos e pés, pele e olhos amarelados devido à precipitação de pigmentos amarelos na pele e na conjuntiva e sangramento espontâneo.

Referência Bibliográfica

MZABRI, Ibtissam; ADDI, Mohamed; BERRICHI, Abdelbasset. Usos tradicionais e modernos do açafrão (Crocus sativus). Cosméticos , v. 6, n. 4, pág. 63, 2019.

SRIVASTAVA, R. et al. Crocus sativus L.: uma revisão abrangente. Revisões de farmacognosia , v. 4, n. 8, pág. 200, 2010.

Categorias
saúde

Lactobacillus reuteri

Por Isabella Brescia

Os probióticos são definidos como “microrganismos vivos que, quando administrados em quantidades adequadas, conferem um benefício à saúde do hospedeiro” pela Organização Mundial da Saúde. Embora a ideia de usar probióticos para benefícios à saúde não seja nova, o interesse aumentou significativamente nos últimos anos, devido, em parte, ao aumento da resistência a antibióticos, particularmente no tratamento de doenças do sistema gastrointestinal (GI), e um desejo crescente do público por promotores naturais de saúde. Os microrganismos probióticos que demonstraram possuir propriedades benéficas incluem Lactobacillus spp., Bifidobacterium spp., Saccharomyces boulardii, Propionibacterium spp., Streptococcus spp., Bacillus spp., Enterococcus spp. , e algumas cepas específicas de Escherichia coli.

Existem certos critérios que um probiótico deve ter para ser considerado eficaz. Estes incluem a capacidade de sobreviver no trato GI, uma alta resistência aos ácidos gástricos, a falta de quaisquer genes de resistência a antibióticos transferíveis e a capacidade de exercer benefícios claros no hospedeiro. Os probióticos são benéficos ao corpo humano através de diversos mecanismos que incluem resistência à colonização, produção de ácidos graxos de cadeia curta (AGCC), regulação do trânsito intestinal, normalização da microbiota, aumento da renovação de enterócitos e exclusão competitiva de patógenos. Embora não seja amplamente observado, existem muitos efeitos entre espécies probióticas específicas. Por exemplo, algumas cepas probióticas podem melhorar a digestão dos alimentos do hospedeiro metabolizando o sal biliar ou complementando as funções das enzimas digestivas.

Lactobacillus spp. são um dos probióticos mais utilizados e podem ser encontrados em uma grande variedade de produtos alimentícios pois desempenha um papel importante na fermentação de alimentos e no sistema GI de humanos e animais em quantidades variáveis, dependendo da espécie, idade do hospedeiro ou localização no intestino.

Estudos em animais e resultados pré-clínicos mostraram que os lactobacilos podem ajudar na prevenção e tratamento de vários distúrbios do trato GI. Entre esses distúrbios estão infecções entéricas, diarreia associada a antibióticos, enterocolite necrosante em recém-nascidos prematuros, doença inflamatória intestinal, câncer colorretal e síndrome do intestino irritável. Embora o trato GI seja o local onde acredita-se que os Lactobacillus mostrem mais benefícios, foram relatadas aplicações probióticas de algumas cepas de Lactobacillus em outros locais do corpo. Estes incluem a prevenção e tratamento de doenças urogenitais e vaginose bacteriana em mulheres, doença atópica, hipersensibilidade alimentar e prevenção de cárie dentária.

Lactobacillus reuteri ( L. reuteri ) é uma bactéria probiótica bem estudada que pode colonizar um grande número de mamíferos. Em humanos, a L. reuteri é encontrada em diferentes locais do corpo, incluindo o trato gastrointestinal, trato urinário, pele e leite materno. A abundância de L. reuteri varia entre diferentes indivíduos. Vários efeitos benéficos de L. reuteri foram observados desde sua descoberta em 1962.

O L. reuteri pode produzir moléculas antimicrobianas, como ácidos orgânicos (ácido lático e acético), etanol e reuterina (capaz de inibir uma ampla gama de microrganismos, principalmente bactérias Gram-negativas). Devido à sua atividade antimicrobiana, é capaz de inibir a colonização de microorganismos patogênicos e remodelar a composição da microbiota comensal no hospedeiro.  Com a síntese dessas substâncias, L. reuteri demonstrou ser eficaz contra uma variedade de infecções bacterianas gastrointestinais. Essas infecções incluem Helicobacter pylori, E. coli, Clostridium difficile e Salmonella. Uma das ilustrações mais notáveis ​​da eficácia de L. reuteri como probiótico contra infecções é o uso de L. reuteri para tratar H. pyloriA infecção por H. pylori é uma das principais causas de gastrite crônica e úlceras pépticas, bem como um fator de risco para malignidades gástricas.

Existem 13 vitaminas essenciais para os seres humanos devido à incapacidade do corpo humano de sintetizá-las. Como muitos outros Lactobacillus spp., várias cepas de L. reuteri são capazes de produzir diferentes tipos de vitaminas, incluindo vitamina B12 (cobalamina) e B9 (folato).

L. reuteri também pode beneficiar o sistema imunológico do hospedeiro, reduzindo a produção de citocinas pró-inflamatórias enquanto promovem o desenvolvimento e a função de células T reguladoras. 

As barreiras físicas, bioquímicas e imunológicas compreendem a função de barreira intestinal, necessária para bloquear a entrada de antígenos e toxinas exteriores. Se ocorrer alguma anormalidade na barreira intestinal, a permeabilidade pode aumentar, resultando em um intestino permeável. Vários probióticos são conhecidos por suas habilidades de melhorar a função de barreira da mucosa, dos quais L. reuteri é um exemplo bem conhecido. Tendo a capacidade de fortalecer a barreira intestinal, a colonização de L. reuteri pode diminuir a translocação bacteriana do lúmen intestinal para os tecidos. A translocação através do epitélio intestinal pode ser um iniciador da inflamação. Portanto, doenças inflamatórias, incluindo aquelas localizadas no intestino, bem como em outros tecidos, podem ser melhoradas aumentando a colonização de L. reuteri . 

Houve uma diminuição na abundância de L. reuteri em humanos nas últimas décadas provavelmente causada pelo estilo de vida moderno (uso de antibióticos, dieta ocidental, higiene melhorada). Tal diminuição coincide com maiores incidências de doenças inflamatórias. Embora faltem evidências para estabelecer a correlação, pode ser útil aumentar a colonização de L. reuteri e/ou facilitar suas funções probióticas como uma estratégia nova e relativamente segura contra doenças inflamatórias. Além disso, por meio de regulação direta ou modulação indireta via microbiota do hospedeiro, L. reuteri desempenha um papel importante na eliminação de infecções e na atenuação de doenças gastrointestinais. A segurança e tolerância de L. reuteri foi comprovado por numerosos estudos clínicos. 

Referência Bibliográfica

MU, Qinghui; TAVELLA, Vicente J.; LUO, Xin M. Papel do Lactobacillus reuteri na saúde e doenças humanas. Frontiers in microbiology , v. 9, p. 757, 2018.

Categorias
saúde

CAFEÍNA E SUA AÇÃO ERGOGÊNICA

Por Isabella Brescia

A utilização de suplementos nutricionais como recursos ergogênicos tem sido empregada por meio de manipulações dietéticas capazes de retardar o aparecimento da fadiga e aumentar o poder contrátil do músculo esquelético e/ou cardíaco, aprimorando, portanto, a capacidade de realizar trabalho físico, ou seja, o desempenho atlético. Os principais efeitos desejáveis obtidos com o uso de tais suplementos incluem aumento das reservas energéticas, aumento da mobilização de substratos para os músculos ativos durante os exercícios físicos, aumento do anabolismo proteico, diminuição da percepção subjetiva de esforço e reposição hidroeletrolítica adequada. Nesse sentido, a cafeína tem sido utilizada com grande frequência, de forma aguda, previamente à realização de exercícios físicos, com o intuito de protelar a fadiga e consequentemente aprimorar o desempenho físico, principalmente em atividades de longa duração.

A cafeína é uma substância rapidamente absorvida pelo intestino, atingindo sua concentração máxima na corrente sanguínea entre 15 e 120 minutos após a sua ingestão. Sua ação pode atingir todos os tecidos, pois o seu carreamento é feito via corrente sanguínea, sendo posteriormente degradada pelo fígado e excretada pela urina na forma de coprodutos. Ela acelera os batimentos cardíacos, estimula o cérebro, aumenta o fluxo urinário, a produção de ácidos digestivos, relaxa os músculos lisos e os que controlam os vasos sanguíneos e as vias respiratórias.

Apesar de apenas uma pequena quantidade de cafeína ser excretada (0,5 a 3%), sem alteração na sua constituição química, sua detecção na urina é relativamente fácil. Vale ressaltar que alguns fatores como a genética, a dieta, o uso de algumas drogas, o sexo, o peso corporal, o estado de hidratação, a prática de exercícios físicos, podem afetar o metabolismo da cafeína e, consequentemente, influenciar na quantidade de cafeína total excretada pela urina.

A cafeína tem sido considerada um ergogênico nutricional por estar presente em vários produtos consumidos diariamente, como o café, refrigerantes, chás e chocolates, embora não apresente qualquer valor nutricional, sendo classificada como uma droga com efeitos farmacológicos de ação estimulante presente também em alguns medicamentos.

Quando utilizada dentro dos limites de 3 a 6 mg por quilograma de peso corporal, a cafeína vem a ser uma substância efetiva para a melhora do desempenho físico, podendo ou não ser utilizada por um tempo contínuo, dependendo da gama de fatores que influenciam o usuário como o tipo de exercício físico utilizado, o estado nutricional, o estado de aptidão física individual, além da tolerância à cafeína. Com base nos estudos mais recentes, nota-se a melhora no desempenho físico em atividades de longa duração e baixa intensidade, bem como nas de curta duração e alta intensidade. Com relação à força muscular, estudos recentes têm apontado um aumento da força muscular acompanhado de uma maior resistência à instalação do processo de fadiga muscular após a ingestão de cafeína.

Baixas doses de cafeína estão associadas a poucos ou nenhum efeito colateral. A ingestão de 3 mg/kg  de  cafeína produziu  efeitos  colaterais durante  as horas  seguintes  à  ingestão, principalmente relacionadas a distúrbios do sono. A administração de cafeína no final da tarde (17:00 horas) levou a interrupções significativas, incluindo uma maior dificuldade em adormecer  (início  prolongado  do  sono),  diminuição  da  proporção  de  tempo  gasto  adormecido (eficiência  do  sono  reduzida),  bem  como  menor  tempo  total  de  sono  e  sono  REM  (rapid  eyes movement). Esses resultados podem ser prejudiciais à recuperação e adaptação de treinamento para atletas, especialmente durante torneios onde o uso de cafeína pode abranger vários dias consecutivos. Além dos distúrbios do sono doses excessivas de cafeína podem provocar ansiedade, irritação, aceleração dos batimentos cardíacos, tremores e aumento da frequência urinária.

Referência Bibliográfica

ARAÚJO, Sávio Nogueira de et al. Efeitos da cafeína como recurso ergogênico na atividade física: uma revisão. 2019.

PEREIRA, Sandra Mariano de Andrade et al. Cafeína: ergogênico nutricional no esporte. 2021.

RODRIGUES, Antonio Yony Felipe et al. Efeitos da cafeína na atividade física: uma revisão sistemática com metanálise. Brazilian Journal of Development, v. 6, n. 11, p. 91046-91069, 2020.

SANTOS, Matheus Vasconcelos; SALOMON, Ana Lúcia Ribeiro. Suplementação de cafeína: benefícios do efeito ergogênico no treinamento por praticantes de atividade física de alta e baixa intensidade.

SILVA, Michel Santos. Os efeitos da cafeína relacionados à atividade física: uma revisão. Revista Digital, v. 9, n. 66, p. 1, 2003.


Categorias
saúde

GLUTAMINA E INTESTINO

Por Isabella Brescia

A glutamina é o aminoácido livre mais abundante no plasma e nos músculos, e de fundamental importância no funcionamento homeostático de inúmeros tecidos, principalmente do sistema imune e intestinal. Nos últimos anos inúmeras pesquisas demostram os benefícios da glutamina na saúde intestinal e imunológica de humanos e animais, como o principal substrato energético do enterócito sendo oxidada no ciclo de Krebs e gerando ATP, substrato importante para rápida renovação celular das células intestinais.
A glutamina tem sido descrita como um aminoácido essencial ao organismo em situações que levam a um intenso catabolismo, tais como grandes cirurgias, grandes queimaduras, septicemia e inflamações. Estas situações são caracterizadas pelo balanço nitrogenado negativo com elevação das taxas de degradação proteica muscular, o que provoca alterações importantes no fluxo de glutamina entre os tecidos, com aumento no consumo deste aminoácido por parte do trato gastrintestinal, de células do sistema imune e dos rins. As necessidades desses tecidos podem exceder a capacidade de síntese no músculo esquelético e uma consequência imediata é a redução no seu conteúdo intracelular. Em seguida, com a escassez das reservas, as concentrações plasmáticas diminuem e um estado de deficiência se instala.
As alterações descritas anteriormente poderiam ser amenizadas pelo fornecimento exógeno deste nutriente. Em estados catabólicos, é necessário consumir entre 20g e 40g de glutamina por dia. A quantidade obtida da dieta é inferior a 10 g, considerando que as proteínas alimentares contêm cerca de 4% a 8 % de glutamina e a produzida diariamente nos músculos é de 9g a 13g.
Diversos trabalhos publicados recentemente com animais e humanos demonstraram que a administração de glutamina exógena, através de formas estáveis e disponíveis comercialmente, favorece a proliferação de células do trato gastrintestinal e é importante para a manutenção da resposta imunológica do hospedeiro, além de atenuar a proteólise e melhorar o balanço nitrogenado. Por essa razão, a glutamina tem sido considerada um agente coadjuvante importante no tratamento de enfermidades que levam a estados hiper metabólicos. Pacientes com Aids, por exemplo, podem beneficiar-se com a melhora da função imune, a manutenção da integridade da mucosa intestinal e o balanço de nitrogênio, minimizando os efeitos catabólicos da caquexia. Por outro lado, os efeitos da glutamina sobre o sistema imune e na barreira intestinal são importantes para a prevenção da septicemia.
A nutrição e a funcionalidade intestinal estão intimamente relacionadas. O principal papel do intestino é digerir e absorver os nutrientes. Consequentemente, enfermidades gastrintestinais resultam em má nutrição e em aumento da mortalidade e da morbidade. Por exemplo, vários estudos demonstraram que entre 50 e 70 % dos pacientes adultos com doença de Crohn, inflamação crônica do intestino delgado de etiologia ainda desconhecida, ficam abaixo do peso normal e 80 % destes ficam anêmicos. Por outro lado, a desnutrição corporal crônica debilita a digestão e absorção porque os alimentos e nutrientes, além de serem importantes para o desenvolvimento do intestino, também fornecem as moléculas necessárias para a síntese de enzimas digestivas e células absortivas. A ausência de alimento resulta em atrofia da mucosa intestinal, diminuição da produção de enzimas digestivas, estase intestinal (perda de fluido intestinal) e aumento da população bacteriana. A combinação desses fatores prejudica a integridade da barreira intestinal, aumentando o risco de translocação bacteriana, colestase (interrupção no fluxo de bile), formação de cálculo biliar, disfunção hepática, má absorção de nutrientes e diarreia.
As células epiteliais da mucosa colônica utilizam como fonte energética primária, ácidos graxos de cadeia curta, principalmente os ácidos acético, propiônico e butírico. Esses são formados pela fermentação bacteriana anaeróbia de fibras residuais contidas no bolo fecal. Em segmentos derivados do cólon, a ausência do bolo fecal impede essa formação e sua conseqüente absorção e utilização pelas células epiteliais. Nessa situação, a glutamina, que é um substrato energético secundário para essas células, passa a ser primordial, podendo ser utilizada preferencialmente à glicose como fonte energética. Estudos experimentais recentes têm demonstrado que a glutamina pode ser um elemento com atividade energética e trófica importante para o intestino submetido a situações de estresse.
Referência Bibliográfica
HIGASHI, Leonardo et al. Suplementação de glutamina na permeabilidade intestinal relacionada com a atividade física. RBNE-Revista Brasileira De Nutrição Esportiva, v. 14, n. 84, p. 1-14, 2020.
LOPES-PAULO-TSBCP, FRANCISCO. Efeitos da glutamina sobre a parede intestinal e sua aplicabilidade potencial em coloproctologia. Rev bras Coloproct, v. 25, n. 1, 2005.
PADOVESE, Renato et al. Aplicações clínicas da glutamina. Revista Contexto & Saúde, v. 2, n. 03, p. 67-86, 2002.
PEREIRA, Izabela Gelisk; FERRAZ, Izabela Aparecida Rodrigues. Suplementação de glutamina no tratamento de doenças associadas à disbiose intestinal. Revista brasileira de saúde funcional, v. 1, n. 1, p. 46-46, 2017.

Categorias
saúde

BETAGLUCANA E O SISTEMA IMUNE

Escrito por Isabella Brescia

Sempre que falamos em sistema imunológico pensamos nos mecanismos responsáveis pela manutenção das defesas do organismo, ou nas diferentes formas de respostas contra agentes causadores de doenças. Contudo, esse sistema desempenha outras funções importantes e fundamentais para a manutenção fisiológica e prevenção de metabolismos favoráveis ao estabelecimento de doenças crônicas.

Através das reações imunológicas promovemos direta ou indiretamente os processos inflamatórios, infecciosos, controle sobre possíveis células tumorais ou tumores já estabelecidos, reconhecimento e manutenção de nossa microbiota e consequentemente nosso microbioma, além de outras influências bioquímicas distribuídas em todos os tecidos que compõe nosso corpo.

β-glucanas são polissacarídeos constituintes estruturais da parede celular de leveduras, fungos e alguns cereais, que se diferenciam pelo tipo de ligação entre as unidades de glicose da cadeia principal e pelas ramificações que se conectam a essa cadeia. Nas últimas décadas estes polímeros vem recebendo especial atenção por sua bioatividade, principalmente no que se refere a imunomodulação. Além disso, inúmeros efeitos benéficos como prebiótico, antitumoral, antinflamatório, antibacteriano, antiviral, anticoagulante, antimutagênico, hipocolesterolêmico e hipoglicêmico têm sido relacionados à β-glucanas. Uma importante fonte de β-glucana é a parede celular de Saccharomyces cerevisiae, também conhecida como levedura de fermentação, que é amplamente empregada nas indústrias de panificação, cervejaria e sucroalcoleira.

Como prebiótico, limitam o desenvolvimento potencial de bactérias patogênicas, mediante inibição competitiva dos locais de ligação na mucosa intestinal. Contudo, como imunomodulador, estimulam a imunidade celular e humoral, contribuindo para as atividades antitumoral, além de modular a liberação de citocinas e reduzir a resposta inflamatória.

A β-glucana é designada como um modificador da resposta biológica pois, ao ser reconhecida pelo organismo desencadeia uma série de eventos na resposta imune. Em vertebrados este reconhecimento ocorre através de receptores específicos de superfície celular e em seguida o sistema imune é estimulado pela β-glucana em resposta a inúmeras situações prejudiciais ao indivíduo. A modulação da β-glucana inclui a ativação de macrófagos e linfócitos polimorfonucleares, além da indução da expressão de diversas citocinas.

Atualmente, sabe-se que o mecanismo de ação antitumoral das β-glucanas, efetivo inclusive em situações de metástase, atua pela ativação e ampliação das diversas funções imunológicas do hospedeiro, constituindo-se de um tratamento que melhora a imunosobrevivência do hospedeiro ao tumor. Em adição, tem efeito antagônico à imunossupressão decorrente da quimioterapia e de tratamentos com irradiação. Os efeitos antitumorais da β-glucana são baseados principalmente, na habilidade de ativar leucócitos pelo estímulo da atividade fagocítica e produção de citocinas como o TNF-α.

Inúmeras pesquisas realizadas, principalmente no Japão, comprovaram que a β-glucana de levedura realça os efeitos do tratamento quimioterápico e melhora a qualidade da sobrevida com pacientes de câncer tratados com radiação. No referido país, algumas β-glucanas licenciadas para o uso terapêutico vêm sendo utilizadas nas últimas décadas como adjuvantes na terapia antitumoral.

A eficácia imunológica da β-glucana de levedura é bastante documentada em relação ao auxílio, de forma direta e indireta ao sistema imunológico, promovendo estímulos celulares e liberação de citocinas. Estudos recentes demonstraram eficácia na administração de β-glucana no estímulo de destruição de células tumorais e na recuperação de quadros diarreicos crônicos pós quimioterapia e antibioticoterapia.

Referência Bibliográfica

ABBAS, A K; LICHTMAN, A. H; PILLAI, S. H. I. V. Imunologia Celular e Molecular. 7. Ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2012.

MAGNANI, Marciane; CASTRO-GÓMEZ, Raul Jorge Hernan. Beta-glucana from Saccharomyces cerevisiae: Constitution, bioactivity and obtaining. Semina: Ciências Agrárias, v. 29, n. 3, p. 631-650, 2008.

Categorias
saúde

ARGININA NA ATIVIDADE FÍSICA

Por Isabella Brescia

A L-arginina, um aminoácido básico e hidrofílico, o qual é classificado nutricionalmente como aminoácido condicionalmente essencial ou condicionalmente indispensável. A L-arginina apresenta funções relevantes no metabolismo proteico relacionadas à síntese proteica, no metabolismo do ciclo da ureia, na síntese de óxido nítrico, creatina e poliaminas, e na estimulação da secreção do GH. A L-arginina também apresenta capacidade imunoestimulatória e timotrófica e atua como precursora de prolina e hidroxiprolina, substâncias necessárias para a síntese de tecidos.

 A ingestão diária média de L-arginina é de 5 g e sua concentração plasmática é de aproximadamente 75 µM/L, sendo que esse valor é influenciado pelo estado alimentado e de jejum. Cabe ressaltar que o rim é o órgão primário responsável pela manutenção da concentração plasmática de L-arginina. Em indivíduos saudáveis, este aminoácido pode ser sintetizado em quantidades suficientes para atender a demanda fisiológica, com sua taxa de ressíntese endógena inalterada por diversos dias de deficiência de consumo. Entretanto, em períodos de rápido crescimento, ou em resposta ao estresse traumático ou patológico, sua demanda fisiológica pode não ser atendida de maneira sufi ciente por meio da ingestão dietética e ressíntese endógena, necessitando de fontes alimentares a fim de suprir suas necessidades.

Em função de existir uma demanda metabólica contínua de L-arginina, sua ressíntese pode ocorrer a partir do glutamato ou prolina, sendo a expressão de todas as enzimas necessárias para sua síntese restrita ao fígado e à mucosa intestinal. Outra via de ressíntese endógena ocorre a partir da citrulina que, quando captada pelo rim, se transforma indiretamente em L-arginina no ciclo renal e/ou diretamente no citoplasma das células endoteliais e dos macrófagos.

L-arginina e Óxido nitrico

Alguns trabalhos foram realizados avaliando o efeito do exercício físico sobre a produção de fatores relaxantes e sua correlação com os efeitos benéficos da atividade física. Evidências indicam que, quando praticado em intensidades moderadas, o exercício é capaz de induzir ao aumento do relaxamento da musculatura lisa vascular e não vascular, ação essa atribuída principalmente ao NO produzido pelas células endoteliais em resposta ao exercício. Com isso, o NO relaciona-se positivamente com os efeitos benéficos da prática regular de exercícios físicos e em condições basais:

Condições Basais

  • Homeostase sanguínea
  • Neurotransmissor
  • Antibactericida
  • Antiparasítico
  • Antiviral
  • Antitrombótico
  • Antiaterosclerótico

Exercício Físico

  • Sinalização intracelular
  • Estímulo para síntese proteica muscular esquelética
  • Maior tolerância ao esforço
  • Aumento da secreção de GH
  • Maior aporte de oxigênio à musculatura esquelética
  • Vasodilatação

L-arginina e Hormônio do Crescimento

A suplementação de L-arginina isolada ou em combinação com o exercício promove aumento significativo na secreção de GH em relação ao período de repouso; contudo, o exercício isolado ainda é o agente potencial para tal resposta endócrina, ou seja, indivíduos submetidos a um programa de treinamento apresentam aumento significativo na secreção de GH em relação ao repouso, suplementação isolada e combinada com exercício de L-arginina.

Aparentemente, todos os processos metabólicos relacionados com a atividade física são melhorados e potenciados com o uso da arginina, uma vez que ocorre melhor perfusão sanguínea ao nível muscular, proporcionando maior aporte de nutrientes (os músculos são capazes de produzir energia durante mais tempo) e de oxigênio (evitando e/ou protelando o processo de anaerobiose), ao mesmo tempo que favorece a eliminação das substâncias tóxicas acumuladas durante a prática da atividade física, facilitando o processo de recuperação muscular.

A administração oral de 3g/dia de L-arginina parece potencializar os efeitos do treinamento com pesos, proporcionando maior ganho de força e massa muscular e contribuindo para a diminuição do percentual de gordura corporal.

O efeito adverso observado na suplementação de altas doses de L-arginina, tanto aguda como crônica, como de qualquer outro aminoácido, está associada à ocorrência de desconforto gastrintestinal e diarreia.

Referência Bibliográfica

ANGELI, Gerseli et al. Investigação dos efeitos da suplementação oral de arginina no aumento de força e massa muscular. Revista Brasileira de Medicina do Esporte, v. 13, p. 129-132, 2007.

NICASTRO, Humberto; ROGERO, Marcelo Macedo; DATTILO, Murilo. A suplementação de L-arginina promove implicações ergogênicas no exercício físico? Evidências e considerações metabólicas. Rev. bras. ciênc. mov, p. 115-122, 2008.

Categorias
saúde

Aplicações clínicas da CoQ10

Os benefícios da Coenzima Q10 vêm sendo estudados para o tratamento de doenças.

Escrito por Isabella Brescia

A CoQ10 pode ser encontrada em todas as células do corpo humano, porém as maiores concentrações são observadas nos tecidos do coração, fígado, cérebro e músculo esquelético. Localiza-se na membrana interna das mitocôndrias, onde realiza a interação com enzimas específicas, atuando como uma coenzima essencial na cadeia respiratória mitocondrial. Ela possui a capacidade de proteger proteínas da membrana mitocondrial, fosfolipídeos e o DNA dos danos oxidativos, além de poder regenerar outros antioxidantes como o ácido ascórbico e o alfa-tocoferol.

A CoQ10 é sintetizada pelas células do corpo humano, mas também pode-se obtê-la a partir de dieta, podendo contribuir para a concentração desta enzima no organismo. Pequena quantidade são encontradas em ovos, cereais, produtos lácteos, frutos secos como nozes e nos vegetais (principalmente espinafre e brócolis). Carne vermelha, peixe e de aves são fontes ricas em CoQ10. Ela também é comercializada como suplemento alimentar ou nutracêutico e utilizada em formulações cosméticas.

Devido a sua capacidade de atuar como antioxidante, o interesse pela CoQ10 vem aumentando muito, apresentando uma elevada eficácia, visto que se encontra abundantemente distribuída pelo organismo e tem a aptidão de se reduzir ou reativar-se quando necessário. Na sua forma reduzida, ela é um poderoso antioxidante que previne danos oxidativos causados pelos radicais livres. Inclusive estudos recentes demonstraram a relevância da CoQ10 na resistência do DNA aos danos oxidativos. Após o seu uso os linfócitos do sangue periférico de indivíduos portadores de doenças mitocondriais apresentaram uma significativa redução das quebras de fita simples e duplas do DNA.

A CoQ10 tem grande importância também no tratamento de desordens mitocondriais e neuromusculares e doenças neurodegenerativas. Em experimentos com doenças neurodegenerativas, a CoQ10 demonstrou neuroproteção e efeitos protetores sobre disfunção mitocondrial. A administração de CoQ10 aumentou sua concentração nas mitocôndrias de células do cérebro exercendo efeitos de proteção sobre lesões induzidas, além de proteger neurônios dopaminérgicos. Estes estudos experimentais vêm demonstrando resultados promissores em doenças neurodegenerativas tais como doença de Huntington, Parkinson, Alzheimer e esclerose lateral amiotrófica.

Sua utilização e benefícios vêm sendo estudados para o tratamento de outras doenças e  síndromes, como doenças cardíacas, melhoria na qualidade do sêmen de homens inférteis, síndrome de Down, câncer de mama e no tratamento de enxaquecas.

A deficiência de CoQ10 pode ser definida como a presença de níveis reduzidos de CoQ10 em tecidos ou células e, para se obter uma estimativa de sua concentração usa-se o plasma. A deficiência de CoQ 10 pode resultar de síntese prejudicada, defeito genético ou adquirido que prejudique sua síntese ou função e ainda ser decorrente de aumento da requisição por tecidos com patologias específicas. A forma secundária de deficiência de CoQ10 é observada em doenças cardiovasculares, diabetes, doença renal crônica, doenças hepáticas, distúrbios neurodegenerativos, e câncer. Além disso, os níveis de CoQ10 decrescem com o avançar da idade, fator que pode estar relacionado a eventuais manifestações do envelhecimento. Estudos mostraram que a suplementação oral com CoQ10 pode aumentar níveis teciduais deste nutriente, havendo associação com redução do risco de mortalidade por doença cardiovascular em idosos, assim como reduzir também o risco de mortalidade em pacientes com diabetes tipo II, doença renal crônica ou hepática, seja por efeitos no processo primário da doença ou na disfunção cardiovascular secundária.

A administração oral de CoQ10 geralmente é bem tolerada, sem efeitos adversos graves detectados no uso de longo prazo. Raramente alguns indivíduos podem apresentar efeitos gastrointestinais como dor abdominal, vômitos, náuseas, diarreia e anorexia e este sintoma não está relacionado à dose. Não há efeitos colaterais tóxicos conhecidos ou relatos de superdosagem. A segurança do uso da CoQ10 foi confirmada em centenas de ensaios clínicos randomizados, em uma ampla gama de distúrbios, incluindo doenças cardiovasculares, doenças de Parkinson e doenças mitocondriais.

Referência Bibliográfica JACOBS, Mônica Amadio Piazza; ACCURSIO, Wilmar. Coenzima Q10: Aplicações clínicas. BWS Journal, v. 3, p. 1-7, 2020.