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SUPLEMENTAÇÃO COM BETA-ALANINA

Por Isabella Brescia

A Nutrição exerce um papel importante no desempenho esportivo e o interesse por recursos  nutricionais  que  possam  melhorar  a performance   de   atletas   e   praticantes   de atividade física cresce a cada dia. Os suplementos são usados para auxiliar  ganhos  de  massa muscular, redução  de  gordura  corporal,  aumento da força, redução da fadiga, redução da dor pós treino ou ainda melhoria na qualidade de vida ou na performance dos indivíduos. Dentre os suplementos, os aminoácidos são bastante consumidos, dentre os  quais  a  beta-alanina  se  destaca.

A beta-alanina é um aminoácido não essencial produzido no fígado. Identificada pela primeira vez pelo bioquímico russo Vladimir Gulevich, em 1900, é precursor indispensável na produção de carnosina, um dipeptídeo formado pela junção da beta-alanina com L-histidina por meio da enzima carnosina sintase na musculatura esquelética. No entanto, a produção endógena de beta-alanina é extremamente baixa e, como consequência, as concentrações plasmáticas encontram-se muitas vezes próximas de zero. Desse modo, a ingestão desse aminoácido é fundamental para aumentar a sua disponibilidade no organismo.

Com a suplementação da beta-alanina pode-se observar que ocorre um aumento dos estoques  musculares  do  dipeptídeo  carnosina (beta-alanil-histidina), que tem a  função bastante eficaz em tamponar o pH intramuscular  na  prática  de  atividade  física, especialmente em exercícios de alta intensidade e curta duração. A beta-alanina tem maior efetividade na via anaeróbica  lática, onde há maior  liberação de ácido lático. A   sua   suplementação   promove um efeito  tamponante  no  sistema  da  carnosina, prolongando o exercício, pois atua contra íons de  hidrogênio  (H+)  da  dissociação  do  ácido lático. O acúmulo desses íons H+ pode causar uma acidose muscular, causando fadiga e dor. Além da sua principal função tamponante, o aumento de carnosina melhora a sensibilidade de Ca+2, o que melhora o desempenho nas fibras musculares tanto de rápida  e  lenta  ação,  retardando  sua  fadiga.

Com contribuição o importante no tamponamento    físico-químico    do    músculo esquelético, a carnosina faz a manutenção do equilíbrio   ácido-base,   quando   ocorre uma elevação de produção de H+ junto a uma maior produção de ácido lático pela glicose anaeróbica, na prática de exercícios intensos. Aproximadamente 10% da capacidade de tamponamento das células musculares é realizada pela carnosina. Se   um   nível   de   limiar   de   acidose muscular   compromete   o   desempenho   do exercício  de resistência  subsequente,  então  o aumento  da  capacidade  tamponante  com  a suplementação de beta-alanina pode prevenir a queda  da  força  muscular  e,  assim,  atenuar  o efeito de interferência aguda.

A  maior  parte  dos  estudos  utilizam doses  diárias  em  torno  de  65  mg/kg  de  peso corporal, divididas em 3 a 4 vezes por dia, por um período médio de 10 a 12 semanas. É um suplemento relativamente seguro nessas dosagens, e o único efeito colateral relatado, como uso é uma parestesia transitória, que é minimizada com a divisão da dose diária em 3  a  4  tomadas. 

A  parestesia  é  um sintoma    caracterizado    pela    sensação    de dormência  ou  formigamento  de  alguma  parte do corpo. Pode acometer membros como braços, pernas  e mãos,  assim  como  também  pode  se fazer presente em áreas menos comuns, como na  boca, nariz e orelha.  Este  efeito  é  tipicamente  observado quando   suplementação   é   feita   com   doses únicas superiores a 800-1600 mg.  Os  sintomas  da  parestesia  ocorrem normalmente  10  a  20  minutos  após  a  sua ingestão e desaparecem geralmente nos 60-90 minutos seguintes. Para  atenuar  os  sintomas,  é  proposto a divisão da dose diária total (3,2 a  6,4  g/dia)  em  doses  menores  (0,8  a  1,6 g/dose), a cada 3-4 horas. Apesar da  informação  atual  ser  ainda limitada  e  de  não  haver,  até  à  data,  estudos com  protocolos  de  suplementação  com  beta-alanina a longo prazo (superiores a 1 ano), os posicionamentos  dizem  que  a  suplementação de   beta-alanina   é   segura   em   indivíduos saudáveis nas doses recomendadas.

Referência Bibliográfica

CARDOSO, Henrique Costa; CONDESSA, João Pedro Mendes; DE SOUZA, Marcio Leandro Ribeiro. A suplementação de beta-alanina na performance esportiva: uma revisão sistemática. RBNE-Revista Brasileira de Nutrição Esportiva, v. 16, n. 98, p. 169-179, 2022.

FERREIRA, Carolina Caberlim et al. Atualidades sobre a suplementação nutricional com beta-alanina no esporte. Revista Brasileira de Nutrição Esportiva, v. 9, n. 51, p. 271-278, 2015.

LAGE, Marcelo Henrique et al. Efeitos ergogênicos da beta-alanina para a performance. Cadernos UniFOA, v. 16, n. 46, 2021.

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SUPLEMENTAÇÃO PROTEICA NO IDOSO

Por Isabella Brescia

A massa muscular é resultado da regulação entre catabolismo e síntese proteica. O equilíbrio proteico é a diferença entre a síntese das proteínas musculares e sua degradação. Quando a degradação é maior que a síntese, ocorre um balanço negativo, o que leva a um declínio não desejável da massa muscular em idosos. Os fatores responsáveis por essa degradação são físicos, químicos, metabólicos e nutricionais. Os fatores catabólicos, ou seja, fatores que contribuem com a diminuição da massa muscular, englobam a denervação, o desuso muscular, o estresse oxidativo, as citocinas pró-inflamatórias, a acidose, a resistência insulínica e os hormônios glicocorticoides. No entanto, o não uso da massa muscular (sedentarismo), acompanhado de estresse oxidativo, torna-se um dos maiores fatores determinantes do declínio dessa massa. É tendência natural, dessa forma, que a massa muscular diminua e que o padrão de distribuição da gordura corporal se modifique, levando ao aumento dos tecidos gordurosos das pernas e dos braços.

Com o avanço da idade, observa-se um declínio progressivo de massa muscular e, consequentemente, uma simultânea redução da força. A sarcopenia é definida como a perda progressiva de massa muscular, associada à redução da força e/ou função do músculo, sendo apontada como a principal responsável pela deterioração da capacidade funcional do indivíduo que está envelhecendo, afetando a capacidade de realizar movimentos, contração muscular e locomoção.

Em 13% a 24% dos indivíduos entre 60 e 70 anos de idade, e em mais de 50% daqueles acima de 80 anos é possível encontrar o diagnóstico da sarcopenia. A partir dos 75 anos, a prevalência da sarcopenia torna-se maior em homens (58%) que em mulheres (45%), podendo ser devido à diminuição na secreção do hormônio do crescimento (GH) e até pela redução dos níveis de testosterona.

Perda de dentição, alterações nas percepções sensoriais, diminuição de motilidade gástrica, constipação, alteração nos níveis e mecanismos de ação de determinados hormônios são as principais alterações fisiológicas relacionadas à diminuição da ingestão alimentar e consequentemente proteica, pelos idosos. A ingestão de proteínas é importante para o organismo devido à necessidade da presença de aminoácidos para importantes funções estruturais, motoras, metabólicas, hormonais e imunológicas. Muitas doenças e traumas aumentam o catabolismo proteico e a necessidade de proteína. A composição de aminoácidos da proteína ingerida pode afetar a eficiência da proteína ingerida e, consequentemente, das necessidades proteicas.

Segundo recomendações de nutrientes Dietary Reference Intakes (DRI – DIETARY REFERENCE INTAKES) com fundamento em análises de estudos de balanço nitrogenado em humanos, a ingestão dietética recomendada (RDA) de proteína de alto valor biológico para indivíduos saudáveis de ambos os sexos é de 0,8 g/kg de peso corporal por dia. De acordo com Salgado (2002), o consumo de proteínas para idosos saudáveis deve preencher 15% das necessidades calóricas diárias. Em momentos críticos de perda de peso e estados hipercatabólicos, recomendam-se ingestões que podem chegar até 1,5 g/kg/dia. As ingestões recomendadas de proteínas podem ser menores no caso de alterações hepáticas e renais.

O consumo adequado de proteínas, tanto para o aumento de massa muscular quanto para a sua manutenção a longo prazo e não somente como forma profilática por meio de suplementação e fontes proteicas de qualidade, por indivíduos idosos, auxilia diretamente no retardo do inevitável declínio de massa muscular e prolonga o aparecimento da sarcopenia e seus efeitos deletérios.

Referência Bibliográfica

CORONA, Ligiana Pires. Prevenção da sarcopenia no idoso. Revista Kairós-Gerontologia, v. 23, p. 117-127, 2020.

RIBEIRO, Luís Eduardo Guieu Galvão Telles. Adequação energético-proteica em idosos com sarcopenia: resultados do International Mobility In Aging Study–IMIAS Brasil. 2019.  Universidade Federal do Rio Grande do Norte.

SALGADO, J. M. Nutrição na terceira idade. In: BRUNETTI, R. F.; MONTENEGRO, F. L. B. Odontogeriatria: noções e conceitos de interesse clínico. São Paulo: Artes Médicas, 2002. p. 62-70.

SOUSA, Valéria Maria Caselato de; MARUCCI, Maria de Fátima Nunes; SGARBIERI, Valdemiro Carlos. Necessidades de proteínas para a população idosa: revisão. Nutrire Rev. Soc. Bras. Aliment. Nutr, p. 199-209, 2009.

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SUPLEMENTAÇÃO COM WHEY PROTEIN PÓS CIRURGIA BARIÁTRICA

Por Isabella Brescia

São vários os tipos de cirurgia bariátrica (by pass gástrico em Y de Roux, gastrectomia vertical ou cirurgia de Sleeve, duodenal switch e banda gástrica), o by pass gástrico em Y de Roux (BPGYR), é a técnica bariátrica mais praticada no Brasil, correspondendo a 75% das cirurgias realizadas segundo dados da Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica. Essa técnica causa uma restrição na capacidade de receber o alimento pelo estômago que se encontra pequeno e possui um desvio do intestino. Apesar do seu grande nível de eficácia e segurança, essa técnica cirúrgica produz efeitos a longo prazo, desencadeados pela restrição da ingestão alimentar e/ou má absorção de nutrientes, que acabam levando o indivíduo, a desenvolver algumas deficiências nutricionais. Diante deste cenário, é de grande importância a suplementação e/ou reposição de vitaminas e minerais, para que esses indivíduos tenham uma boa qualidade de vida no decorrer dos anos.

O estômago é um ambiente ácido, com um Ph de, em média 2, contribuindo para uma redução de microrganismos que entram no sistema gastrointestinal (SGI) juntamente com o alimento. As secreções gástricas são compostas por ácido clorídrico (HCL), produzidas pelas células parietais localizadas nas paredes do fundo e no corpo, pelas proteases, lipases, muco, fator intrínseco e o hormônio gastrina.

As células principais do estômago são responsáveis por produzir pepsina, que é a protease mais potente do suco gástrico, secretada na sua forma inativa, pepsinogênio, a qual passa a estar ativa quando entra em contato com o HCL, tendo a função de quebrar as ligações peptídicas que unem os aminoácidos, participando da catalização de algumas proteínas ingeridas na dieta. Essas mesmas células também são responsáveis por secretar uma lipase estável em ácido, capaz de contribuir para o processamento geral dos triglicerídeos dietéticos. O estômago é responsável por produzir uma glicoproteína, denominada fator intrínseco, que é necessário para absorção de vitamina B12 no íleo terminal.

Nos primeiros 100 centímetros do intestino delgado ocorre uma série de reações que resulta na maior parte da digestão e absorção dos alimentos ingeridos. Nessa parte há liberação de hormônios que estimulam a produção e liberação de enzimas potentes pelo pâncreas e intestino delgado e da bile pelo fígado e vesícula biliar. Podemos dizer então que, ao longo do intestino delgado acontece a redução dos carboidratos em monossacarídeos, dos peptídeos em aminoácidos simples e das gorduras em glóbulos visíveis de gordura a gotas microscópicas de triglicerídeos e por fim, em ácidos graxos livres e monoglicerídeos. Quase todos os macronutrientes, vitaminas, minerais, oligoelementos e líquidos são absorvidos no intestino delgado, antes de chegar no cólon. Depois dessa absorção pelo intestino delgado, os nutrientes passam para o fígado pela veia, onde os mesmos podem ser armazenados, transformados ou liberados na circulação.

No cólon há absorção de uma pequena parte de nutrientes restantes do intestino delgado e de eletrólitos. O cólon é responsável também, pela fermentação dos carboidratos e fibras resistentes à digestão no SGI superior, sendo que algumas destas servem como material prebiótico por meio da produção de ácidos graxos de cadeia curta, resultado da fermentação, diminuindo o pH do cólon e aumentando a massa de bactérias “boas”. No intestino grosso ocorre o armazenamento temporário para os produtos remanescentes e no cólon distal, reto e ânus há o controle da defecação.

Após a bariátrica, a deficiência mais grave e comum segue sendo a desnutrição proteica, atingindo cerca de 30-40% dos pacientes. Estima-se que apenas 57% da proteína ingerida é absorvida após o bypass intestinal. Essa deficiência traz complicações sérias como perda de massa muscular, baixa na imunidade, danos fisiológicos, retardo na cicatrização de feridas cirúrgicas, dentre outros problemas que acabam por atrapalhar o sucesso no tratamento da obesidade. A mesma é caracterizada pela presença de hipoalbuminemia, anemia, edema, astenia e alopecia, sendo a deficiência de macronutrientes mais comum de ocorrer no pós-operatório tardio de cirurgia bariátrica.

A hipoalbuminemia (albumina < 3,5 g/dL) após o BGYR pode variar de 13% em pacientes após dois anos de cirurgia a 27,9% após dez anos, ou até mesmo não estar presente nos primeiros meses.

Segundo recomendações mais atuais a quantidade de ingestão proteica diária deve ser de 60 a 120g, dando prioridade aquelas de alto valor biológico, porém nos primeiros seis meses essa ingestão é muito baixa, sendo necessária uma suplementação proteica. A qual deve ser feita levando em conta diversos fatores como custo, aceitabilidade por parte do paciente, pois em alguns casos o sabor desse suplemento pode causar náuseas e vômitos, fazendo com que o paciente não queira consumi-lo. Deve-se atentar também a fácil digestibilidade, visto que o trato  gastrointestinal desse indivíduo sofreu modificações e sempre buscar alternativas de preparo que sejam mais fáceis para o seu consumo.

O paciente deve ser orientado a utilizar suplementos proteicos em pó e de alto valor biológico após 48 horas da realização da cirurgia. O whey protein tem sido a melhor escolha para esses casos, pois possui uma maior absorção e confere maior saciedade. Sua composição a base de proteína do soro do leite, faz com que esta não precise ser quebrada ou reduzida pelos ácidos estomacais, indo direto para o intestino delgado onde são rapidamente digeridas e seus aminoácidos absorvidos, fazendo com que os níveis de aminoácidos no plasma aumentem, estimulando assim a síntese proteica nos tecidos O ideal é que se use whey protein do tipo isolado, hidrolisado, sem lactose, sem glúten e sem sacarose para facilitar a adesão por parte do paciente, reduzir a alergenicidade e melhorar a absorção.

Outros módulos de proteína estão amplamente disponíveis no mercado, como albumina e caseinato. Porém, fatores como sabor, textura, solubilização, absorção e custo são considerados importantes na escolha desses suplementos. Prioridade deve ser dada ao perfil de aminoácidos presentes quando o suplemento for a única fonte proteica da dieta. O whey protein pode ser uma excelente escolha, uma vez que possui elevados níveis de aminoácidos de cadeia ramificada, importantes para prevenir degradação do tecido muscular, permanecem solúveis no estômago e são rapidamente digeridos.

Carnes, aves, peixes, ovos, leite e derivados lácteos devem ser incentivados ainda nos primeiros meses de pós-operatório, de acordo com o protocolo de evolução da dieta. A ingestão de proteína deve ser avaliada periodicamente, em cada consulta nutricional. Na presença de deficiência proteica clínica ou subclínica, mesmo na ausência de vômitos ou intolerância alimentar, os pacientes devem ser tratados com dieta hiper proteica.

BORDALO, Livia Azevedo et al. Cirurgia bariátrica: como e por que suplementar. Revista da Associação Médica Brasileira, v. 57, n. 1, p. 113-120, 2011.

DOS SANTOS, Mariana Varela. A importância da suplementação em indivíduos submetidos a cirurgia bariátrica–by pass gástrico, UNIFACVEST, CENTRO UNIVERSITÁRIO

SBCBM (Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica), 2017. Disponível em: https://www.sbcbm.org.br/tecnicas-cirurgicas-bariatrica/. Acesso em 26 de junho de 2022

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WHEY PROTEIN E SEUS BENEFÍCIOS

Por Isabella Brescia

Nas últimas décadas, numerosas pesquisas vêm demonstrando as qualidades nutricionais das proteínas solúveis do soro do leite, também conhecidas como whey protein. As proteínas do soro são extraídas da porção aquosa do leite, gerada durante o processo de fabricação do queijo. Durante décadas, essa parte do leite era dispensada pela indústria de alimentos. Somente a partir da década de 70, os cientistas passaram a estudar as propriedades dessas proteínas.

Assim, as formas mais utilizadas, sobretudo, por suas vantagens evidenciadas, são owheyprotein concentrate(WPC) e o whey protein isolate(WPI). O WPC é o produto obtido por um processo de filtração simples, com o intuito de remover os constituintes não proteicos do soro, de forma que o produto final seco contenha, em geral, de 35% a 80% de proteínas. Já o WPI passa por uma filtração mais complexa e é a forma comercial mais pura das proteínas do soro, contendo mais de 80% de teor proteico. Dentre os tipos temos também o hidrolisado, essa é a única forma a qual sofreu hidrólise enzimática, ela possui a maior a velocidade de absorção pelo organismo e contém cerca de 92% de proteína em sua composição.

Atletas, praticantes de atividades físicas, pessoas fisicamente ativas e portadores de doenças, vêm procurando benefícios nessa fonte proteica. Evidências recentes sustentam a teoria de que as proteínas do leite, incluindo as proteínas do soro, além de seu alto valor biológico, possuem peptídeos bioativos, que atuam como agentes antimicrobianos, anti-hipertensivos, reguladores da função imune, assim como fatores de crescimento.

A diminuição da massa muscular esquelética está associada à idade e à inatividade física. Já está suficientemente comprovado que a manutenção ou o ganho de massa muscular esquelética, principalmente em pessoas idosas, contribui para uma melhor qualidade e prolongamento da vida. Exercícios físicos, principalmente os resistidos com pesos, são de extrema importância para impedir a trofia e favorecer o processo de hipertrofia muscular, melhorando a qualidade de vida dos indivíduos. Além disso, a nutrição exerce papel fundamental nesse processo. Pessoas fisicamente ativas e atletas necessitam de maior quantidade proteica que as estabelecidas para indivíduos sedentários.

Pessoas envolvidas em treinos de resistência necessitam de 1,2 a 1,4g de proteína por quilograma de peso ao dia, enquanto atletas de força, 1,6 a 1,7g por kg de peso/dia, bem superior aos 0,8-1,0g por kg de peso/dia estabelecidos para indivíduos sedentários. A ingestão de proteína ou aminoácidos, após exercícios físicos, favorece a recuperação e a síntese proteica muscular. O perfil de aminoácidos das proteínas do soro, principalmente ricas em leucina, pode, desta forma, favorecer o anabolismo muscular. Além disso, o perfil de aminoácidos das proteínas do soro é muito similar ao das proteínas do músculo esquelético, fornecendo quase todos os aminoácidos em proporção similar as do mesmo, classificando-as como um efetivo suplemento anabólico.

O conceito de proteínas com diferentes velocidades de absorção tem sido, recentemente, utilizado por profissionais e cientistas que trabalham com desempenho físico. Estudos demonstram que as proteínas do soro são absorvidas mais rapidamente que outras, como a caseína, por exemplo. Essa rápida absorção faz com que as concentrações plasmáticas de muitos aminoácidos, inclusive a leucina, atinjam altos valores logo após a sua ingestão. Além de aumentar as concentrações plasmáticas de aminoácidos, a ingestão de soluções contendo as proteínas do soro aumenta, significativamente, a concentração de insulina plasmática, o que favorece a captação de aminoácidos para o interior da célula muscular, otimizando a síntese e reduzindo o catabolismo proteico. O aumento na concentração de BCAA, induzido pelas proteínas do soro, pode atuar também inibindo a degradação proteica muscular.

Resumindo, seus benefícios sobre o ganho de massa muscular estão relacionados ao perfil de aminoácidos, principalmente da leucina (um importante desencadeador da síntese proteica), a rápida absorção intestinal de seus aminoácidos e peptídeos e à sua ação sobre a liberação de hormônios anabólicos, como, por exemplo, a insulina.

A colecistoquinina (CCK) e o peptídeo similar ao glucagon (GLP-1) são dois hormônios intestinais amplamente estudados. A liberação desses hormônios na corrente sanguínea ocorre em presença de macronutrientes no duodeno, produzindo efeito supressor do apetite. Comparando as duas principais proteínas do leite, caseína e as proteínas do soro, Hall et al. estudaram seus efeitos sobre o apetite, percepção de fome, saciedade e hormônios gastrintestinais. Observaram que, quando os voluntários ingeriam uma solução contendo 48g de proteínas do soro, 90 minutos antes da refeição, apresentavam uma redução significativa do apetite, da ingestão energética e aumento da saciedade, em comparação a um grupo que ingeriu a mesma solução contendo caseína. Essa percepção,  estava relacionada às maiores concentrações sanguíneas de CCK e do GLP-1, geradas pela ingestão da solução contendo as proteínas do soro.

Referência bibliográfica

HARAGUCHI, Fabiano Kenji; ABREU, Wilson César de; PAULA, Heberth de. Whey protein: composition, nutritional properties, appications in sports and benefits for human health. Revista de nutrição, v. 19, n. 4, p. 479-488, 2006.

COSTA, Flávia Ribas et al. Proteínas do soro do leite: propriedades funcionais e benefícios para a saúde humana. Lecturas: Educación Física y Deportes, v. 25, n. 272, 2021.

HALL WL, Millward DJ, Long SJ, Morgan LM. Casein and whey exert different effects on plasma amino acids profiles, gastrointestinal hormone secretion and appetite. Brit J Nutr. 2003; 89(2):239-48.

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SUPLEMENTAÇÃO COM COLÁGENO EM DOENÇAS ÓSSEAS

Por Isabella Brescia

O organismo humano passa por diversas fases: a infância, a puberdade, a maturidade ou estabilização e o envelhecimento. O envelhecimento é marcado por várias mudanças já a partir da segunda década de vida. No início, essas mudanças são pouco perceptíveis, porém, ao final da terceira década apresenta alterações funcionais e/ou estruturais importantes que resultam da interação de fatores genéticos, ambientais e estilo de vida.

A osteoporose (OP) constitui na enfermidade do esqueleto uma causa multifatorial, caracterizada pela redução de massa óssea e deterioração da integridade anatômica e estrutural do osso, levando ao aumento da fragilidade óssea e suscetibilidade a fraturas. O grupo mais afetado pela OP são as mulheres idosas cuja diminuição da produção de estrógeno após a menopausa acelera a perda óssea.

As doenças degenerativas articulares evoluem lentamente ao longo de décadas com episódios de dor até chegar à perda de função da articulação.  Quando a atividade de regeneração não é superior a uma degradação em ritmo acelerado, leva a um estado de insuficiência osteo cartilaginosa. Até o momento não há cura e os tratamentos disponíveis, farmacológicos e não farmacológicos, atuam na redução dos sintomas, principalmente dor, inflamação e imobilidade.

A cartilagem articular hialina é um tecido avascular, altamente especializado, que recobre a superfície das articulações constituído por 5% de células, os condrócitos, água, proteoglicanos (sulfato de condroitina e o querato sulfato) colágeno e outras proteínas. A água representa cerca de 65% a 85% do peso seco do tecido, enquanto as principais macromoléculas, como o colágeno e os proteoglicanos, representam cerca de 10% a 30% do peso seco do tecido, respectivamente.

A composição e a complexa organização estrutural entre o colágeno e os proteoglicanos garantem as propriedades inerentes à cartilagem articular, como resistência, elasticidade e compressibilidade, necessárias para dissipar e amortecer as forças, além de reduzir a fricção, a que as articulações estão sujeitas, sem muito gasto de energia. Portanto, a integridade dos componentes da cartilagem articular é essencial para garantir a função normal das articulações.

O colágeno é o principal elemento estrutural que confere resistência ao tecido; sabe-se que além da função de suporte, participa na diferenciação, adesão, migração e proliferação celular. A cartilagem articular é composta primariamente de colágeno tipo II, com pelo menos dez colágenos adicionais, incluindo os tipos III, VI, IX, X, XI e XIII, presentes como menores constituintes.

A molécula de colágeno é composta basicamente por uma sequência repetida de três aminoácidos (Gly-X-Y), em que Gly é o aminoácido glicina; X, quase sempre é prolina e Y, hidroxiprolina ou hidroxilisina. Em geral, o colágeno contém cerca de 30% de glicina, 12% de prolina, 11% de alanina, 10% de hidroxiprolina e 1% de hidroxilisina. Do ponto de vista nutricional, o colágeno é considerado uma proteína de qualidade inferior, pois há predominância dos aminoácidos descritos e quantidade mínima ou ausente da maioria dos aminoácidos essenciais, como triptofano, metionina, cistina e tirosina.Apesar disso, sua importância nutricional torna-se estabelecida por seu perfil atípico de aminoácidos que estimula a síntese de colágeno nas cartilagens e na matriz extracelular de outros tecidos.

O colágeno, assim como as demais proteínas ingeridas, não é absorvido como colágeno. A maior parte da digestão proteica, cerca de 80%, ocorre no duodeno e jejuno pela ação do suco pancreático e apenas 10-20% no estômago pela ação do ácido clorídrico e da pepsina. No intestino delgado ocorre a hidrólise luminal de proteínas e polipeptídios em aminoácidos (AA) livres e pequenos peptídeos pela ação da enteropeptidase, que, em pH neutro, ativa o tripsinogênio e a tripsina, que, por sua vez, promove a ativação das outras propeptidases do suco pancreático. Os AA e pequenos peptídeos são hidrolisados pelas peptidases da borda em escova a AA, di e tripeptideos, que são absorvidos principalmente pelo jejuno proximal por difusão simples, difusão facilitada ou transferência ativa por co-transporte. Os AA são destinados a inúmeras funções, inclusive para a síntese do próprio colágeno.

No tecido conjuntivo, o colágeno tipo I é o mais abundante e a partir dele são obtidos o colágeno parcialmente hidrolisado (gelatina) e o colágeno hidrolisado. A diferença entre o colágeno hidrolisado e a gelatina é que o colágeno hidrolisado é de fácil digestão e absorção,  e apresenta prevalência da glicina e prolina em sua composição. Esses aminoácidos são essenciais para a estabilidade e a regeneração das cartilagens.

O efeito positivo da proteína com a constituição óssea está relacionado à composição, ou seja, 50% do osso é formado por colágeno e a outra metade, por cálcio. Portanto, uma dieta inadequada, não apenas em cálcio, mas também em proteína limitaria a reconstrução óssea.

Algumas pesquisas destacam um conceito de causa diferente à do envelhecimento para as osteoartrites (OA), cuja proposta terapêutica deve abranger todos os aspectos da doença. A patogênese da OA resulta de fatores inflamatórios e mecânicos: inflamatória, em respostas mediadas por condrócitos e sinovióticos; mecânica, associada ao movimento e força física concentrada principalmente nas articulações. A OA seria o resultado da inflamação da articulação na tentativa de corrigir o estresse mecânico anormal. As respostas inflamatórias são maiores em pacientes com OA e aumentadas no envelhecimento, enquanto os mecânicos compõem uma combinação de fatores entre fisiológicos e genéticos, e em ambos a obesidade seria fator agravante. A obesidade eleva a carga sobre a articulação e ativa produção de adipocinas pró-inflamatórias em receptores presentes na superfície dos condrócitos, osteoblastos, membrana sinovial e subcondral.

Existe um consenso de que os efeitos promovidos pela ingestão de peptídeos de colágeno estão relacionados à sua forma hidrolisada. Para os autores, a suplementação alimentar e a farmacológica de CH são justificadas porque apresentam funções biológicas benéficas muito além da redução da dor em pacientes com OA. Além de estarem envolvidos na síntese de matriz de cartilagem, alguns peptídeos de colágeno exibem atividade anti-hipertensiva e cardioprotetora, por meio da regulação do óxido nítrico e da molécula de adesão intercelular e inibição da enzima conversora de angiotensina I, além de atividades antioxidantes em diferentes sistemas oxidativos.

Tanto o envelhecimento quanto a má alimentação podem afetar a demanda de colágeno no corpo. Essas alterações não são perceptíveis nos primeiros estágios da vida, mas vão ficando evidentes na maturidade, fase na qual a ingesta alimentar não supre as necessidades recomendadas tanto de energia, quanto de macro e micronutrientes.Também nessa fase as possibilidades de desenvolver disfunções ósseas e articulares são maiores. Nutrição balanceada é essencial não só para prevenir doenças crônicas, mas também para manter a saúde do corpo e garantir seu funcionamento adequado.

O colágeno hidrolisado tem função terapêutica positiva na osteoporose e osteoartrite, com potencial aumento da densidade mineral óssea, efeito protetor da cartilagem articular e principalmente no alívio sintomático em quadros de dor. Embora não exista na literatura científica pesquisada consenso sobre a dosagem de colágeno hidrolisado a ser administrada, com a suplementação de 8g diária observa-se aumento da concentração de glicina e prolina no plasma e doses equivalentes a 12g diária promovem melhora significativa nos sintomas de osteoartrite e osteoporose. Entretanto, mais estudos são necessários para determinar os fatores patogênicos envolvidos na osteoporose e osteoartrite, seu diagnóstico precoce, e a partir de que estágio da vida seria recomendado o início da suplementação e a dosagem adequada para alcançar significativo potencial terapêutico.

Referência bibliográfica

PORFÍRIO, Elisângela; FANARO, Gustavo Bernardes. Suplementação com colágeno como terapia complementar na prevenção e tratamento de osteoporose e osteoartrite: uma revisão sistemática. Revista Brasileira de Geriatria e Gerontologia, v. 19, p. 153-164, 2016.

VELOSA, Ana Paula P.; TEODORO, Walcy R.; YOSHINARI, Natalino H. Colágeno na cartilagem osteoartrótica. Revista Brasileira de Reumatologia, v. 43, n. 3, p. 160-166, 2003.

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COLÁGENO HIDROLISADO E SEUS BENEFÍCIOS PARA A SAÚDE

Por Isabella Brescia

O colágeno é uma proteína de origem animal, cuja função no organismo é contribuir com a integridade estrutural dos tecidos em que está presente. O colágeno é encontrado nos tecidos conjuntivos do corpo, tais como os ossos, tendões, cartilagens, veias, pele, dentes, bem como nos músculos e na camada córnea dos olhos. Porém, com o início da fase adulta, a deficiência de colágeno começa a ser notada, pois o organismo diminui sua produção.

O colágeno tem sua produção em queda após aos 30 anos, conforme essa diminuição na produção de colágeno ocorre no organismo, é preciso aumentar a ingestão de proteínas para aumentar a síntese de colágeno. As proteínas são nutrientes extremamente importantes para o corpo, desde o DNA até as estruturas da pele, músculos e os órgãos. Por conta dessa alta demanda, o organismo passa a dar menos prioridade para as estruturas como unhas, cabelos, pele e passa a dar mais prioridade ossos, músculos, órgãos e tecidos. Dessa forma a ingestão alimentar, as vezes, se torna insuficiente e por isso a suplementação em alguns casos é necessária para aumentar o aporte de colágeno.

O colágeno representa 30% de todas as proteínas do organismo. Todo o processo de cicatrização necessita do colágeno. Pela diminuição na síntese de colágeno, é perceptível o aumento de rugas, enfraquecimento ósseo, queda de cabelo, unhas quebradiças e processos mais patológicos que necessitam de suplementação. Existem diversos tipos de colágeno, são conhecidos 29 tipos que se diferenciam pela composição de aminoácidos, nos arranjos, no diâmetro e na localização dos tecidos.

Os tipos de colágeno são:

  • Tipo I: é o tipo mais abundante dos colágenos, representa aproximadamente 90% de todo o colágeno corporal. Encontrado em: tendões, na derme, ossos e dentes.
  • Tipo II: é encontrado na cartilagem das articulações e discos intervertebrais, diminuindo o atrito causado nas articulações, gerando uma proteção.
  • Tipo III: é o segundo mais abundante, presente nos músculos lisos tais como vasos sanguíneos, estômago, intestinos, baço, fígado, rins, pulmões e coração.
  • Tipo IV: esse tipo tem função de sustentação e revestimento, presente principalmente no tecido epitelial. Encontrado na pele, no revestimento estomacal, na bexiga, na uretra, nas paredes da cavidade torácica, em glândulas endócrinas, como a tireoide.

O predomínio de aminoácidos como glicina, prolina, lisina, hidroxiprolina, hidroxilisina e alanina, e a ausência da maioria dos aminoácidos essenciais como o triptofano, faz com que o colágeno seja considerado uma fonte proteica pobre para a dieta humana. Por outro lado, o colágeno é um exemplo claro do relacionamento da estrutura proteica e a função biológica, pois fornece resistência e elasticidade nas estruturas anatômicas na qual está presente. Assim, a falta de aminoácidos essenciais do colágeno não o torna inutilizável, pois suas frações apresentam um importante papel na dieta humana por se comportarem como fibra solúvel e por constituírem uma fonte de proteína animal.

Um avanço na medicina nutricional é a prevenção e o tratamento das disfunções gastrointestinais pelo consumo de fibras dietéticas, uma vez que esses compostos mantêm o funcionamento normal do trato gastrointestinal, aumentando o volume do conteúdo intestinal e das fezes, o que reduz o tempo de transição intestinal e ajuda a prevenir a constipação. Sua presença nos alimentos induz à saciedade no momento das refeições. Alguns estudos demonstram como o colágeno, e particularmente suas frações, obtidas por uma variedade de técnicas, provou ser mais eficiente do que as fibras de origem vegetal – como, por exemplo, na absorção de água e gelificação, promovendo sensação de saciedade e aumento do bolo fecal.

Além dos benefícios antienvelhecimento o colágeno hidrolisado auxilia no processo de cicatrização, no funcionamento intestinal e no controle da sarcopenia.

O colágeno hidrolisado é uma excelente fonte de aminoácidos de boa tolerância, digestibilidade e biodisponibilidade. A ingestão de 10 a 20 gramas diariamente estimula e facilita a síntese do colágeno tecidual e, portanto, ajuda a melhorar a regeneração dos tecidos colágenos, prevenindo e tratando doenças degenerativas que os afetam e também deterioração dérmica.

Devido à sua funcionalidade para a saúde, os grupos populacionais para os quais a suplementação está particularmente indicada são aqueles que estão mais em risco de deterioração (ou já sofrem dele) dos tecidos colágenos, seja devido à idade (em geral, a partir dos 40 anos), uso excessivo (esporte e atividade física intensa) ou outras circunstâncias como sobrepeso, menopausa, trauma, queimaduras, intervenções cirúrgicas, implantes dérmicos ou dentários e tratamentos oncológicos agressivos.

Referência bibliográfica

BLANC, Gisely. Efetividade da terapia nutricional enteral no processo de cicatrização das úlceras por pressão. Tese de doutorado da Universidade Federal do Paraná, 2013.

DE LA HOZ, Jaime Escalada. REVISIÓN DE LOS EFECTOS DEL COLÁGENO. Nutr Hosp, v. 32, n. Supl 1, p. 62-66, 2015.

Silva TF, Penna ALB. Colágeno: Características químicas e propriedades funcionais. Rev Inst Adolfo Lutz. São Paulo, 2012; 71(3):530-9

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Bem estar saúde

Adoçantes naturais

Os adoçantes naturais são opções mais saudáveis para substituição ao açúcar refinado.

Escrito por Isabella Brescia

Há cerca de 11500 anos, a espécie humana passava por uma grande transição que ficaria conhecida como “Revolução Neolítica” ou “Revolução Agrícola”, onde, em diversas regiões, passou-se a cultivar plantas e domesticar animais, o que levou os homens primitivos a armazenarem os alimentos e cozinhá-los, aumentando a importância de alguns condimentos, como por exemplo, o mel, já utilizado pelos hominídeos, ainda que sem qualquer tipo de processamento, como adoçante, juntamente com a polpa de algumas frutas doces, como figos e tâmaras, durante os períodos da Antiguidade Clássica, passando pela Idade Média, quando era usado para preservar carnes e frutas, chegando até a Renascença. Essas substâncias são obtidas por meio de fontes naturais, como plantas ou animais, como o agave, estévia e mel de abelha. O mel ficou conhecido durante muito tempo como único adoçante disponível, até que, com a descoberta de outras fontes naturais, como açúcar de cana-de-açúcar, de beterraba, de milho e mais recentemente, de coco, teve sua utilização diminuída proporcionalmente.

Outro grande concorrente na classe dos adoçantes naturais, é o xarope de milho rico em frutose (HFCS), obtido do amido de milho. Surgiu como um substituto do açúcar na década de 1970, quando esse último passava por um período de alta nos preços e mesmo após isso continuou no mercado, sendo amplamente utilizado na indústria de bebidas, alimentos processados e adoçantes.

Com a crescente preocupação mundial pela melhoria da qualidade de vida, para manter uma boa forma física e valorizando principalmente a saúde, o açúcar passa a dividir espaço com uma quantidade de adoçantes que vem aumentando no mercado. Criado originalmente, com o intuito de alcançar uma pequena parcela da população com restrição de açúcar, os diabéticos, os adoçantes compõem hoje uma parte significativa da alimentação mundial.

Os adoçantes naturais são opções mais saudáveis para substituição ao açúcar refinado e podem conter vitaminas, minerais e antioxidantes importantes para o funcionamento do organismo, como o mel e o açúcar de coco, mas vale ressaltar que esses não são recomendados para diabéticos, alguns possuem baixo índice glicêmico e calórico e auxiliam no controle da diabetes e obesidade.

O açúcar branco, seja refinado ou cristal, passa por um processo de clarificação, o qual visa eliminar qualquer tipo de material corante presente no caldo, bem como diminuição da viscosidade, preservação contra alguns microorganismos e prevenção do amarelamento do açúcar como produto final.

 O açúcar demerara difere do açúcar cristal apenas no processo de clarificação, levando-o a coloração amarronzada ou castanho claro em seus cristais. Com níveis nutricionais elevados, próximos aos do açúcar mascavo, esse açúcar possui nutrientes como cálcio (Ca), fósforo (P), potássio (K), magnésio (Mg), além das vitaminas B e C, preservados devido a um refinamento mais brando e à pequena quantidade de aditivos químicos ao qual é submetido em sua produção.

O açúcar mascavo é um tipo não refinado de açúcar de coloração escura, com aspecto úmido, com um forte sabor de melaço, que não passa por nenhum processo de beneficiamento. Geralmente obtido de forma artesanal, é produzido pela desidratação do caldo de cana e não é sujeitado a técnicas de clarificação do caldo ou à produtos químicos para retirada de impurezas. Apresenta uma pequena porcentagem de umidade e altas taxas de minerais, como potássio (K), magnésio (Mg), ferro (Fe) e cálcio (Ca), além de quantidade traço de vitaminas e vários fitoquímicos originários da cana-de-açúcar, que lhe conferem um elevado valor nutricional e medicinal com inúmeros efeitos para a saúde humana (efeitos anticariogênicos, antitóxicos, citoprotetores e antioxidantes), portanto é mais nutritivo que os açúcares clarificados.

A isomaltulose (ou palatinose) apresenta cerca de 30-40% de doçura relativa à sacarose. Sua produção ocorre a partir do rearranjo enzimático desse açúcar de mesa, podendo substituí-lo adequadamente, devido principalmente às suas propriedades não cariogênicas, além de reduzir a resposta glicêmica pós-prandial, o que o torna uma alternativa bastante viável para diabéticos e pré-diabéticos. Esse edulcorante é completamente hidrolisado em glicose e frutose, e absorvido no intestino delgado, para ser assim metabolizado pelo organismo, mesmo ingerido em altas quantidades. O excedente à necessidade energética é excretado pela urina.

O açúcar do milho é obtido a partir do amido de milho, um polissacarídeo complexo, e é enviado à indústria na forma de maltodextrina, glicose, frutose e xarope de milho. A maltodextrina é utilizada nas indústrias alimentícias, como substituinte da gordura de leite em iogurtes, sorvetes, sobremesas, produtos de panificação como fonte de carboidratos em bebidas isotônicas e nas indústrias farmacêuticas como espessante e surfactante.

O xarope de milho encontrado em refrigerantes, sucos, além de cereais matinais e produtos de panificação, está cada vez mais presente na mesa dos consumidores.  Além disso, existem outras vantagens para sua utilização, como maior solubilidade em soluções aquosas, resistência a cristalização, bem como seu emprego em menor quantidade nos produtos que se destina a adoçar, com significativa redução do valor calórico. Seu consumo excessivo pode apresentar riscos à saúde, principalmente devido à completa absorção e rápida metabolização da frutose no organismo, mais especificamente no fígado. A sobrecarga desse importante órgão estimula a lipogênese, resultando no acúmulo de gorduras nos adipócitos, também contribuindo para a resistência à insulina, ocasionando a intolerância à glicose e posterior desenvolvimento de doenças metabólicas.

O açúcar de coco tem cada vez mais espaço no mercado mundial. Produzido em indústrias de pequeno e médio porte, esse açúcar pode se apresentar na forma cristalizada ou líquida, com coloração marrom, próxima ao açúcar mascavo. Para sua obtenção, após a extração, a seiva do coqueiro é filtrada e transferida para o cozimento, adiciona-se óleo de coco e cloreto de cálcio, depois de algumas horas com agitação ocasional, o caldo se tornará mais grosso e pronto para o resfriamento e posterior cristalização.

O mel além de seu valor nutricional superior e de sua gama de propriedades benéficas, o mel é o único adoçante extraído de fonte animal, produzido pelas abelhas após a coleta de néctar das flores. O néctar é extraído pelas abelhas, através do trajeto da polinização, e já no caminho de volta à colmeia as mudanças se iniciam, causadas pelas enzimas da saliva e do suco gástrico do inseto, resultando em uma mistura de açúcares invertidos e frutose. Largamente utilizado na indústria alimentícia, principalmente como adoçante, o mel também é muito empregado na indústria farmacêutica e na área medicinal, em misturas para tosse, xaropes e expectorantes, assim como no preparo de cremes e loções, além de atuar no plasma sanguíneo melhorando a capacidade antioxidante do organismo, sendo esta última extremamente dependente da fonte floral de onde o néctar foi obtido.

O néctar de agave ou mais comumente conhecido xarope de agave, é um adoçante líquido extraído da seiva da planta Agave tequilana, popularmente conhecida como agave-azul. Em sua composição se pode encontrar xilose, frutose, glicose, sacarose e maltose, além de carboidratos mais complexos, como seu principal polissacarídeo, chamado inulina que é convertida por meio de hidrólise ácida ou enzimática em frutose (concentração igual a 90%). Mesmo apresentando alta concentração de frutose, o agave contém nutrientes antioxidantes, fitoquímicos que podem auxiliar na manutenção da saúde cardiovascular.

A estévia é extraída do arbusto chamado de Stevia reubadiana, nativo do Paraguai, também cultivado na China, Brasil, Europa, Canadá e Japão. Utilizado em licores destilados, confeitos, molho de soja, alimentos para bebês, laticínios e adoçantes de mesa. A produção de estévia ocorre por meio de extração, no qual se retira compostos glicosilados presentes na planta, como esteviol, esteviosídeo

(presente em maior quantidade) e o rebaudiosídeo (presente em menor teor – com maior poder edulcorante), que podem ser de 200 a 300 vezes mais doce do que a sacarose, de acordo com análise sensorial. Além de ser livre de calorias, esse edulcorante natural amplamente utilizado, tem apresentado efeitos benéficos na regulação dos níveis séricos de glicose e insulina, sendo utilizada em vários países pelo mundo para o controle natural do diabetes. Destaca-se também por, após a ingestão, seus metabólitos serem completamente eliminados pela urina, não sendo armazenados.

Açúcares de polióis

Também conhecidos como álcoois polihídricos, os polióis são compostos obtidos através da hidrogenação de seus respectivos açúcares. Alguns exemplos dessa classe e seus precursores são, respectivamente: xilitol e xilose, sorbitol e glicose, eritritol e eritritose, isomaltitol e isomaltulose, maltitol e maltose, assim como lactitol e lactose. Geralmente, eles não diferem muito entre si quanto ao processo de obtenção e a forma de absorção pelo organismo. São considerados adoçantes naturais dietéticos, podendo em alguns casos serem ingeridos por diabéticos, sem limitações quanto à quantidade. Porém, em grandes quantidades, a absorção dos polióis é diminuida, pois não seriam completamente digeridos, sendo fermentados no intestino grosso, mais especificamente no cólon. Neste caso, os efeitos adversos são comumente observados no final do sistema digestório, tais como diarreia, flatulência e frequentes ruídos intestinais.

O xilitol é empregado em produtos alimentícios como adoçante, sendo explorado, principalmente devido à sua característica de prevenir a formação de cáries dentárias, por não ser metabolizado pelas bactérias causadoras dessa doença bucal. Pertencente a classe dos polióis, esse açúcar de álcool, pode ser encontrado em pequenas quantidades em frutas, vegetais e cogumelos, além de ser gerado como um intermediário durante o metabolismo de glicose no organismo. Quimicamente sua obtenção se dá por meio da hidrogenação catalítica de xilose, conhecido como açúcar da madeira.

Xilitol pode ser metabolizado por duas vias: direta e indireta, sendo a primeira majoritariamente absorvida pelo fígado, e a segunda pela microbiota intestinal, através de degradação fermentativa, metabolizando a porção não absorvida pela via direta, além de ter absorção incompleta, podendo ser baixa e lenta. Mesmo possuindo poder adoçante semelhante à sacarose e estando presente em dietas baseadas em baixo valor de carboidratos, seus efeitos adversos são sintomas gastrointestinais, que incluem diarreia, acúmulo de gases, dor e desconforto abdominal, em alguns casos causados pela ingestão de altas doses, devido, principalmente à baixa absorção.

Com mais de 60 anos no mercado, além de edulcorante, atualmente o sorbitol é utilizado nas indústrias alimentícia e farmacêutica, principalmente por ser um ótimo conservante e aditivo que afere melhor sabor ao produto que se destina. É obtido por meio da hidrogenação catalítica  de glicose, da sacarose e também do amido, sendo a glicose amplamente empregada devido ao seu baixo custo e sua elevada disponibilidade comercial. Esse adoçante apresenta porcentagem de doçura relativa a sacarose entre 50 e 70%. Quando sorbitol ingerido em altas quantidades pode levar a dor abdominal, danos aos rins, aos tecidos nervosos e a retina.

Os açúcares de álcoois são produzidos majoritariamente pela hidrogenação catalítica de dissacarídeos e monossacarídeos, com exceção de eritritol.  Além de possuir menor valor calórico, difere dos demais constituintes desse grupo quanto a sua maior tolerância digestiva, podendo ser empregado em diversos ramos, como adoçante de baixa caloria na forma de pó ou em bebidas e em pastilhas mastigáveis, na indústria alimentícia, podendo também ser utilizado como hidratante na indústria de comésticos. Mesmo derivando de um monossacarídeo, como eritritose, seu processo de obtenção ocorre através de fermentação, utilizando microorganismos como: Aspergillus niger e Penicillium herquei, assim como Moniliella magachiliensis, Candida magnoliae e Yarrowia lipolytica. Com doçura entre 60 a 80% em relação à sacarose,esse poliol é prontamente absorvido pelo intestino delgado (cerca de 90% do total ingerido por via oral) e excretado pela urina sem qualquer degradação. A porção restante é fermentada pelas bactérias intestinais, o que lhe confere um valor energético nulo, uma vez que não é metabolizado pelo organismo.

Referência Bibliográfica RIBEIRO, T. R.; PIROLLA, N. F. F.; NASCIMENTO-JÚNIOR, N. M. Adoçantes Artificiais e Naturais: Propriedades Químicas e Biológicas, Processos de Produção e Potenciais Efeitos Nocivos. Revista Virtual de Química, v. 12, n. 5, p. 1-41, 2020.

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CAFEÍNA E SUA AÇÃO ERGOGÊNICA

Por Isabella Brescia

A utilização de suplementos nutricionais como recursos ergogênicos tem sido empregada por meio de manipulações dietéticas capazes de retardar o aparecimento da fadiga e aumentar o poder contrátil do músculo esquelético e/ou cardíaco, aprimorando, portanto, a capacidade de realizar trabalho físico, ou seja, o desempenho atlético. Os principais efeitos desejáveis obtidos com o uso de tais suplementos incluem aumento das reservas energéticas, aumento da mobilização de substratos para os músculos ativos durante os exercícios físicos, aumento do anabolismo proteico, diminuição da percepção subjetiva de esforço e reposição hidroeletrolítica adequada. Nesse sentido, a cafeína tem sido utilizada com grande frequência, de forma aguda, previamente à realização de exercícios físicos, com o intuito de protelar a fadiga e consequentemente aprimorar o desempenho físico, principalmente em atividades de longa duração.

A cafeína é uma substância rapidamente absorvida pelo intestino, atingindo sua concentração máxima na corrente sanguínea entre 15 e 120 minutos após a sua ingestão. Sua ação pode atingir todos os tecidos, pois o seu carreamento é feito via corrente sanguínea, sendo posteriormente degradada pelo fígado e excretada pela urina na forma de coprodutos. Ela acelera os batimentos cardíacos, estimula o cérebro, aumenta o fluxo urinário, a produção de ácidos digestivos, relaxa os músculos lisos e os que controlam os vasos sanguíneos e as vias respiratórias.

Apesar de apenas uma pequena quantidade de cafeína ser excretada (0,5 a 3%), sem alteração na sua constituição química, sua detecção na urina é relativamente fácil. Vale ressaltar que alguns fatores como a genética, a dieta, o uso de algumas drogas, o sexo, o peso corporal, o estado de hidratação, a prática de exercícios físicos, podem afetar o metabolismo da cafeína e, consequentemente, influenciar na quantidade de cafeína total excretada pela urina.

A cafeína tem sido considerada um ergogênico nutricional por estar presente em vários produtos consumidos diariamente, como o café, refrigerantes, chás e chocolates, embora não apresente qualquer valor nutricional, sendo classificada como uma droga com efeitos farmacológicos de ação estimulante presente também em alguns medicamentos.

Quando utilizada dentro dos limites de 3 a 6 mg por quilograma de peso corporal, a cafeína vem a ser uma substância efetiva para a melhora do desempenho físico, podendo ou não ser utilizada por um tempo contínuo, dependendo da gama de fatores que influenciam o usuário como o tipo de exercício físico utilizado, o estado nutricional, o estado de aptidão física individual, além da tolerância à cafeína. Com base nos estudos mais recentes, nota-se a melhora no desempenho físico em atividades de longa duração e baixa intensidade, bem como nas de curta duração e alta intensidade. Com relação à força muscular, estudos recentes têm apontado um aumento da força muscular acompanhado de uma maior resistência à instalação do processo de fadiga muscular após a ingestão de cafeína.

Baixas doses de cafeína estão associadas a poucos ou nenhum efeito colateral. A ingestão de 3 mg/kg  de  cafeína produziu  efeitos  colaterais durante  as horas  seguintes  à  ingestão, principalmente relacionadas a distúrbios do sono. A administração de cafeína no final da tarde (17:00 horas) levou a interrupções significativas, incluindo uma maior dificuldade em adormecer  (início  prolongado  do  sono),  diminuição  da  proporção  de  tempo  gasto  adormecido (eficiência  do  sono  reduzida),  bem  como  menor  tempo  total  de  sono  e  sono  REM  (rapid  eyes movement). Esses resultados podem ser prejudiciais à recuperação e adaptação de treinamento para atletas, especialmente durante torneios onde o uso de cafeína pode abranger vários dias consecutivos. Além dos distúrbios do sono doses excessivas de cafeína podem provocar ansiedade, irritação, aceleração dos batimentos cardíacos, tremores e aumento da frequência urinária.

Referência Bibliográfica

ARAÚJO, Sávio Nogueira de et al. Efeitos da cafeína como recurso ergogênico na atividade física: uma revisão. 2019.

PEREIRA, Sandra Mariano de Andrade et al. Cafeína: ergogênico nutricional no esporte. 2021.

RODRIGUES, Antonio Yony Felipe et al. Efeitos da cafeína na atividade física: uma revisão sistemática com metanálise. Brazilian Journal of Development, v. 6, n. 11, p. 91046-91069, 2020.

SANTOS, Matheus Vasconcelos; SALOMON, Ana Lúcia Ribeiro. Suplementação de cafeína: benefícios do efeito ergogênico no treinamento por praticantes de atividade física de alta e baixa intensidade.

SILVA, Michel Santos. Os efeitos da cafeína relacionados à atividade física: uma revisão. Revista Digital, v. 9, n. 66, p. 1, 2003.


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GLUTAMINA E INTESTINO

Por Isabella Brescia

A glutamina é o aminoácido livre mais abundante no plasma e nos músculos, e de fundamental importância no funcionamento homeostático de inúmeros tecidos, principalmente do sistema imune e intestinal. Nos últimos anos inúmeras pesquisas demostram os benefícios da glutamina na saúde intestinal e imunológica de humanos e animais, como o principal substrato energético do enterócito sendo oxidada no ciclo de Krebs e gerando ATP, substrato importante para rápida renovação celular das células intestinais.
A glutamina tem sido descrita como um aminoácido essencial ao organismo em situações que levam a um intenso catabolismo, tais como grandes cirurgias, grandes queimaduras, septicemia e inflamações. Estas situações são caracterizadas pelo balanço nitrogenado negativo com elevação das taxas de degradação proteica muscular, o que provoca alterações importantes no fluxo de glutamina entre os tecidos, com aumento no consumo deste aminoácido por parte do trato gastrintestinal, de células do sistema imune e dos rins. As necessidades desses tecidos podem exceder a capacidade de síntese no músculo esquelético e uma consequência imediata é a redução no seu conteúdo intracelular. Em seguida, com a escassez das reservas, as concentrações plasmáticas diminuem e um estado de deficiência se instala.
As alterações descritas anteriormente poderiam ser amenizadas pelo fornecimento exógeno deste nutriente. Em estados catabólicos, é necessário consumir entre 20g e 40g de glutamina por dia. A quantidade obtida da dieta é inferior a 10 g, considerando que as proteínas alimentares contêm cerca de 4% a 8 % de glutamina e a produzida diariamente nos músculos é de 9g a 13g.
Diversos trabalhos publicados recentemente com animais e humanos demonstraram que a administração de glutamina exógena, através de formas estáveis e disponíveis comercialmente, favorece a proliferação de células do trato gastrintestinal e é importante para a manutenção da resposta imunológica do hospedeiro, além de atenuar a proteólise e melhorar o balanço nitrogenado. Por essa razão, a glutamina tem sido considerada um agente coadjuvante importante no tratamento de enfermidades que levam a estados hiper metabólicos. Pacientes com Aids, por exemplo, podem beneficiar-se com a melhora da função imune, a manutenção da integridade da mucosa intestinal e o balanço de nitrogênio, minimizando os efeitos catabólicos da caquexia. Por outro lado, os efeitos da glutamina sobre o sistema imune e na barreira intestinal são importantes para a prevenção da septicemia.
A nutrição e a funcionalidade intestinal estão intimamente relacionadas. O principal papel do intestino é digerir e absorver os nutrientes. Consequentemente, enfermidades gastrintestinais resultam em má nutrição e em aumento da mortalidade e da morbidade. Por exemplo, vários estudos demonstraram que entre 50 e 70 % dos pacientes adultos com doença de Crohn, inflamação crônica do intestino delgado de etiologia ainda desconhecida, ficam abaixo do peso normal e 80 % destes ficam anêmicos. Por outro lado, a desnutrição corporal crônica debilita a digestão e absorção porque os alimentos e nutrientes, além de serem importantes para o desenvolvimento do intestino, também fornecem as moléculas necessárias para a síntese de enzimas digestivas e células absortivas. A ausência de alimento resulta em atrofia da mucosa intestinal, diminuição da produção de enzimas digestivas, estase intestinal (perda de fluido intestinal) e aumento da população bacteriana. A combinação desses fatores prejudica a integridade da barreira intestinal, aumentando o risco de translocação bacteriana, colestase (interrupção no fluxo de bile), formação de cálculo biliar, disfunção hepática, má absorção de nutrientes e diarreia.
As células epiteliais da mucosa colônica utilizam como fonte energética primária, ácidos graxos de cadeia curta, principalmente os ácidos acético, propiônico e butírico. Esses são formados pela fermentação bacteriana anaeróbia de fibras residuais contidas no bolo fecal. Em segmentos derivados do cólon, a ausência do bolo fecal impede essa formação e sua conseqüente absorção e utilização pelas células epiteliais. Nessa situação, a glutamina, que é um substrato energético secundário para essas células, passa a ser primordial, podendo ser utilizada preferencialmente à glicose como fonte energética. Estudos experimentais recentes têm demonstrado que a glutamina pode ser um elemento com atividade energética e trófica importante para o intestino submetido a situações de estresse.
Referência Bibliográfica
HIGASHI, Leonardo et al. Suplementação de glutamina na permeabilidade intestinal relacionada com a atividade física. RBNE-Revista Brasileira De Nutrição Esportiva, v. 14, n. 84, p. 1-14, 2020.
LOPES-PAULO-TSBCP, FRANCISCO. Efeitos da glutamina sobre a parede intestinal e sua aplicabilidade potencial em coloproctologia. Rev bras Coloproct, v. 25, n. 1, 2005.
PADOVESE, Renato et al. Aplicações clínicas da glutamina. Revista Contexto & Saúde, v. 2, n. 03, p. 67-86, 2002.
PEREIRA, Izabela Gelisk; FERRAZ, Izabela Aparecida Rodrigues. Suplementação de glutamina no tratamento de doenças associadas à disbiose intestinal. Revista brasileira de saúde funcional, v. 1, n. 1, p. 46-46, 2017.

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BETAGLUCANA E O SISTEMA IMUNE

Escrito por Isabella Brescia

Sempre que falamos em sistema imunológico pensamos nos mecanismos responsáveis pela manutenção das defesas do organismo, ou nas diferentes formas de respostas contra agentes causadores de doenças. Contudo, esse sistema desempenha outras funções importantes e fundamentais para a manutenção fisiológica e prevenção de metabolismos favoráveis ao estabelecimento de doenças crônicas.

Através das reações imunológicas promovemos direta ou indiretamente os processos inflamatórios, infecciosos, controle sobre possíveis células tumorais ou tumores já estabelecidos, reconhecimento e manutenção de nossa microbiota e consequentemente nosso microbioma, além de outras influências bioquímicas distribuídas em todos os tecidos que compõe nosso corpo.

β-glucanas são polissacarídeos constituintes estruturais da parede celular de leveduras, fungos e alguns cereais, que se diferenciam pelo tipo de ligação entre as unidades de glicose da cadeia principal e pelas ramificações que se conectam a essa cadeia. Nas últimas décadas estes polímeros vem recebendo especial atenção por sua bioatividade, principalmente no que se refere a imunomodulação. Além disso, inúmeros efeitos benéficos como prebiótico, antitumoral, antinflamatório, antibacteriano, antiviral, anticoagulante, antimutagênico, hipocolesterolêmico e hipoglicêmico têm sido relacionados à β-glucanas. Uma importante fonte de β-glucana é a parede celular de Saccharomyces cerevisiae, também conhecida como levedura de fermentação, que é amplamente empregada nas indústrias de panificação, cervejaria e sucroalcoleira.

Como prebiótico, limitam o desenvolvimento potencial de bactérias patogênicas, mediante inibição competitiva dos locais de ligação na mucosa intestinal. Contudo, como imunomodulador, estimulam a imunidade celular e humoral, contribuindo para as atividades antitumoral, além de modular a liberação de citocinas e reduzir a resposta inflamatória.

A β-glucana é designada como um modificador da resposta biológica pois, ao ser reconhecida pelo organismo desencadeia uma série de eventos na resposta imune. Em vertebrados este reconhecimento ocorre através de receptores específicos de superfície celular e em seguida o sistema imune é estimulado pela β-glucana em resposta a inúmeras situações prejudiciais ao indivíduo. A modulação da β-glucana inclui a ativação de macrófagos e linfócitos polimorfonucleares, além da indução da expressão de diversas citocinas.

Atualmente, sabe-se que o mecanismo de ação antitumoral das β-glucanas, efetivo inclusive em situações de metástase, atua pela ativação e ampliação das diversas funções imunológicas do hospedeiro, constituindo-se de um tratamento que melhora a imunosobrevivência do hospedeiro ao tumor. Em adição, tem efeito antagônico à imunossupressão decorrente da quimioterapia e de tratamentos com irradiação. Os efeitos antitumorais da β-glucana são baseados principalmente, na habilidade de ativar leucócitos pelo estímulo da atividade fagocítica e produção de citocinas como o TNF-α.

Inúmeras pesquisas realizadas, principalmente no Japão, comprovaram que a β-glucana de levedura realça os efeitos do tratamento quimioterápico e melhora a qualidade da sobrevida com pacientes de câncer tratados com radiação. No referido país, algumas β-glucanas licenciadas para o uso terapêutico vêm sendo utilizadas nas últimas décadas como adjuvantes na terapia antitumoral.

A eficácia imunológica da β-glucana de levedura é bastante documentada em relação ao auxílio, de forma direta e indireta ao sistema imunológico, promovendo estímulos celulares e liberação de citocinas. Estudos recentes demonstraram eficácia na administração de β-glucana no estímulo de destruição de células tumorais e na recuperação de quadros diarreicos crônicos pós quimioterapia e antibioticoterapia.

Referência Bibliográfica

ABBAS, A K; LICHTMAN, A. H; PILLAI, S. H. I. V. Imunologia Celular e Molecular. 7. Ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2012.

MAGNANI, Marciane; CASTRO-GÓMEZ, Raul Jorge Hernan. Beta-glucana from Saccharomyces cerevisiae: Constitution, bioactivity and obtaining. Semina: Ciências Agrárias, v. 29, n. 3, p. 631-650, 2008.